APRESENTAÇÃO

Textos e silêncios pretende ser um espaço reflexivo ecumênico, fundamentalmente voltado para a vida concreta das pessoas a partir de textos e livros, mas também do caminhar contemplativo e meditativo, da vivência amorosa e solidária dos que, de alguma forma, partilharam comigo suas vidas, dores, sofrimentos e esperanças. A eles - e a vocês - devo a minha vida, o olhar que desenvolvi de existência e a experiência cristã do encontro com o Cristo servidor que nos salva. A eles sou devedor, minha eterna gratidão.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Africa tem Bispa!

Quanto tempo  para que atitudes deste quilate fosse tomada. As mulheres no sacerdócio e no bispado. Tão simples.... E na Igreja Metodista já existe também e também da África....

CEBI

África do Sul, a primeira bispa mulher da Igreja Anglicana

Terça-feira, 24 de julho de 2012 - 14h05min
As Igrejas protestantes parecem ter acelerado o ritmo: depois de Agnes M. Sigurðardóttir, primeira bispa mulher da Igreja Luterana da Islândia, agora é a vez de uma colega africana. Ellinah Ntombi Wamukoya, 61 anos, é a bispa eleita da Suazilândia, uma das 12 províncias anglicanas na África, que também inclui Angola, Moçambique, Namíbia, África do Sul e Lesoto, e que celebra exatamente neste ano os 20 anos da ordenação da primeira mulher ao sacerdócio, depois da decisão do Sínodo de 1992.

Ellinah - que as notícias retratam como uma outsider - foi eleita no 7º escrutínio, quando, esgotadas as candidaturas, se exigia que fosse apresentada outras com a maioria de dois terços (leigos e padres). Ela sucede Meshack Mabuza, que se tornou bispo de Suazilândia em 2002, alguém que nunca economizou críticas ao Rei Mswati III, o último monarca absoluto da África subsaariana e totalmente indiferente às condições de extrema pobreza em que se encontram os seus súditos.

A sua eleição, ocorrida no dia 18 de julho, em um clima que foi definido como "repleto de espírito", representa uma decisão histórica para a Igreja Anglicana da África do Sul, embora a sua tarefa certamente não será fácil, dada a difícil situação política do país.

Wamukoya, que completou os seus estudos junto à Universidade de Borswana, Lesoto e Suazilândia, é atualmente capelã da Universidade da Suazilândia e da St. Michael's High School, em Manzini, onde presta serviço também como secretário municipal e diretor-geral da administração municipal.

Fundada em 1968, a diocese da Suazilândia é composta por três arquidiaconatos: Suazilândia oriental, meridional e ocidental. Ellinah Ntombi Wamukoya, além de ser a primeira mulher bispa na África, será a 24ª bispa mulher da Comunhão Anglicana. Outras Igrejas que já fizeram a mesma escolha são as da Nova Zelândia e Polinésia, Austrália, Canadá e Cuba.

Celebrações especiais por ocasião do 20º aniversário da primeira ordenação de uma mulher ao sacerdócio já estão previstas na África do Sul para o mês de setembro de 2012 por ocasião da reunião do Comitê Provincial Permanente. Uma convidada especial será a bispa norte-americana Barbara Clementine Harris - nascida em 1930, ex-bispa de Massachusetts de 1989 a 2003, e depois bispa-auxiliar de Washington até 2007, primeira mulher bispo em absoluto da Igreja Episcopal -, que tem em seu histórico a famosa Marcha do Alabama ao lado de Martin Luther King Jr. e uma longa militância pelos direitos civis.
A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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domingo, 22 de julho de 2012

Um ano da morte de Maria e Zé Claudio


Antes tarde do que nunca, ainda atual a reflexão....

CEBI

Um ano da morte de Maria e Zé Cláudio

Sexta-feira, 25 de maio de 2012 - 10h35min
"Que a vida dos mais pobres não vale o esterco que o gado enterra na Amazônia, isso é público e notório. Ainda mais quando eles, através de sua união e organização, conseguem mostrar que é possível crescer economicamente e ser sustentável. Ou seja, quando provam que dá para respeitar leis ambientais, garantir renda própria e produzir alimentos para a sociedade. E, se isso funciona, por que mudar leis? Para que um novo Código Florestal?".

Eis o artigo.
José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, líderes do projeto agroextrativista, Praia Alta Piranheiras, em Nova Ipixuna, no Pará, eram emboscados em uma estrada e executados com tiros na cabeça há exato um ano. Por denunciarem a ação de madeireiros ilegais, sofriam constantes ameaças e intimidações.

Naquela mesma tarde da morte, a notícia do assassinato foi lida no plenário da Câmara dos Deputados, que estava discutindo como transformar o atual Código Florestal em embrulho de peixe. Ouviu-se, então, uma vaia vinda das galerias e da garganta de deputados da bancada ruralista ali presentes.

Que a vida dos mais pobres não vale o esterco que o gado enterra na Amazônia, isso é público e notório. Ainda mais quando eles, através de sua união e organização, conseguem mostrar que é possível crescer economicamente e ser sustentável. Ou seja, quando provam que dá para respeitar leis ambientais, garantir renda própria e produzir alimentos para a sociedade. E, se isso funciona, por que mudar leis? Para que um novo Código Florestal?

Perdi as contas de quantos assassinatos iguais a esses na Amazônia noticiei nos últimos anos. E tenho medo de imaginar quantos mais ocorrerão, em vista das centenas de camponeses, trabalhadores rurais, sindicalistas, indígenas, ribeirinhos, quilombolas que ainda estão marcados para morrer por defender seu pedaço de chão. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) contabiliza a morte de mais de 800 pessoas em função de disputas por terra no Pará desde a década de 70. Geralmente, apenas os casos que ganham atenção da mídia conhecem alguma solução. E, ainda assim, depois de muito tempo. E, mesmo assim, parcialmente, como Eldorado dos Carajás e Dorothy Stang.

A CPT, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura e o Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Nova Ipixuna divulgaram, nesta quarta, uma nota cobrando as autoridades da punição aos responsáveis do caso diante da situação do caso na Justiça e das condições em que se encontra o assentamento em o casal de agroextrativistas moravam. Segue um resumo:

Situação dos réus: Foram presos José Rodrigues Moreira (como mandante do crime), Lindonjonson Silva e Alberto Lopes (executores). Não há previsão para a realização do Tribunal do Juri.

Investigacão incompleta: Conforme escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal, com autorização da Justiça, a decisão do assassinato não foi tomada apenas por José Rodrigues. "Gilsão" e "Gilvan", proprietários de terras no interior do Assentamento Praia Alta Piranheira, também estariam envolvidos no crime. Os dois não foram indiciados e nem denunciados.

Problemas não resolvidos: Com a repercussão internacional que o caso teve, o governo federal determinou que o Ibama fizesse um pente-fino na área. Fornos de fabricação de carvão foram destruídos e as serrarias ilegais fechadas. Com isso houve a paralisação do desmatamento da floresta por um tempo. O Incra, por sua vez, fez um levantamento para identificar a compra ilegal de lotes no interior do assentamento, mas não retomou as áreas ilegais. Nenhuma política pública foi implantada para melhorar a infraestrutura e a qualidade de vida das famílias do assentamento. Nenhuma providência também foi tomada para incentivar o extrativismo e a preservação da floresta. E, na medida em que as ações repressivas vão diminuindo, os produtores de carvão e os madeireiros vão retornando.

Ameaçados de morte: O governo determinou que a Força Nacional colaborasse na segurança dos ameaçados após o assassinato. Foi disponibilizada proteção para quatro lideranças no Pará até um mês atrás, quando a duas delas perderam a segurança. No Pará, onde o programa de defensores a direitos humanos está mais bem estruturado, não consegue atender 50% da demanda a ele apresentada. Laísa Sampaio, irmã de Maria do Espírito Santo, continua residindo no interior do assentamento, recebendo ameaças e sem nenhuma proteção.

Dois pesos, duas medidas: O Incra continua inoperante porque não tem recursos para a realização dos trabalhos e porque vem sendo manipulado para fins partidários e eleitoreiros. Os assentamentos continuam em estado de abandono: sem recursos para infraestrutura, projetos produtivos, assistência técnica. Os investimentos do governo na região estão centrados nos grandes projetos que beneficiam a expansão das grandes empresas de mineração, do agronegócio, da pecuária e de grãos sem qualquer perspectiva da melhoria de vida para a maioria da população. Com isso, a expansão da fronteira de exploração rumo ao interior da Amazônia ganha fôlego colocando em risco as áreas indígenas, as terras de ribeirinhos, os territórios de quilombolas, os assentamentos de reforma agrária e as áreas de proteção ambiental.

(Além disso, três madeireiras (Tedesco Madeiras, Madeireira Eunápolis e Madeireira Bom Futuro) e seus sócios que haviam sido acusados pelo casal de lideranças foram denunciados pelo Ministério Público Federal no Pará pela exploração ilegal de recursos florestais do assentamento. Também foram denunciadas seis pessoas, entre assentados que favoreciam o madeiramento ilegal e os administradores das empresas citadas.)

Agora que Dilma Rousseff deve informar o que decidiu vetar do Código Florestal aprovado pelo Congresso, parlamentares e representantes de associações de produtores jogam no nosso colo uma chantagem: o país tem que optar entre passar fome na sarjeta do mundo ou flexibilizar a legislação ambiental e ser feliz. Ou não ser tão severo com quem usou escravos e evitar a demarcação de territórios indígenas a fim de garantir sua soberania alimentar. Uma falsa escolha.

Não dizem nada sobre respeitar as leis ambientais sem chance para anistias que criem a sensação de impunidade do "desmata aí, que depois a gente perdoa". Ou soluções que passem pela regularização fundiária geral, confiscando as terras griladas, e a realização de uma reforma agrária, com a garantia de que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades - responsáveis por garantir alimento na mesa dos brasileiros - sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes. Por preservar os direitos das populações tradicionais e de projetos extrativistas, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país.

Em outras palavras, o projeto em Nova Ipixuna garante o sustento de centenas de famílias com a produção de óleos vegetais, açaí e cupuaçu. Ao invés de procurar formas de replicar esses modelos de sucesso, o Congresso Nacional criou maneiras de passar por cima de suas riquezas naturais e da qualidade de vida das populações que os mantém, rifando as leis que os protegem.

Por que? Siga os lucros e surpreenda-se. Ou não.

Nesta terça, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta de emenda constitucional 438/2001, que prevê o confisco de propriedades flagradas com escravos, em segundo turno - devolvendo a matéria ao Senado. Foram 360 votos a favor, 29 contra e 25 abstenções. Votação que só foi possível por conta da mobilização popular e da presença constante da imprensa jogando luz sobre o tema. Não sou eu que digo isso, mas o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Moreira Mendes (PSD-RO), em entrevista ao jornal Valor Econômico. Segundo ele, o ano eleitoral pesa, uma vez que muitos parlamentares vão concorrer à eleição municipal. Para ele, o voto contrário poderia ser entendido pela opinião pública como concordância com o trabalho escravo.

Trabalhadores rurais escravizados ou populações assassinadas por serem entraves a um determinado modelo de desenvolvimento não geram cabelos brancos em parte dos políticos. Mas a possibilidade de perderem seus cargos ou de serem criticados dentro e fora do país, sim. Teremos eleições municipais, mas também teremos a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. E depois Copa. E Olimpíadas. Trabalhadores da construção civil, que estão transformando o país em um canteiro de obras, já perceberam isso e vão às greves por melhores condições de vida. O lado bom de alguém ser vitrine é que pode virar vidraça.

E quando esse vidro se quebra, acreditem, o barulho tende a ser mais ensurdecedor do que uma vaia contra ativistas mortos no Congresso Nacional.
Instituto Humanitas Unisinos (IHU) - Texto de Leonardo Sakamoto

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EVIDÊNCIA ARQUEOLÓGICA DA BELÉM BÍBLICA É ENCONTRADA


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Evidência arqueológica da Belém Biblica é encontrada

Sexta-feira, 25 de maio de 2012 - 10h40min
A peça é um selo administrativo usado para selar carregamentos de impostos que eram enviados ao sistema fiscal do reino da Judeia no final dos séculos VII ou VIII antes de Cristo. Arqueólogos israelenses encontraram em Jerusalém um selo de argila com a inscrição Bat Lejem, que representa a primeira evidência arqueológica da existência de Belém durante o período em que aparece enunciada na Bíblia, informou a Autoridade da Antiguidade de Israel.

Trata-se de uma espécie de esfera de argila usada para selar documentos ou objetos, de 1,5 cm, desempoeirada nas polêmicas escavações do "Projeto Cidade de Davi", no povoado palestino de Silwán, no território ocupado a leste de Jerusalém.

A peça, que pode ser dos séculos VII ou VIII antes de Cristo, razão pela qual é meio milênio posterior às Cartas de Amarna, uma correspondência, sobretudo diplomática, inscrita em língua acádica sobre tabuinhas de argila entre a Administração do Egito faraônico e os grandes reinos da época ou seus vassalos na região. Ali aparece mencionada pela primeira vez Bit-Lahmi, em uma carta na qual o rei de Jerusalém pede ajuda ao egípcio para reconquistá-la.

A descoberta, anunciada nesta quinta-feira, remete a uma época posterior, a do Primeiro Templo Judeu (1006-586 a.C.), que aparece citada no Antigo Testamento como parte do reino da Judeia. "É a primeira vez que o nome de Belém aparece fora da Bíblia em uma inscrição do período do Primeiro Templo, o que prova que Belém era uma cidade do reino da Judeia e possivelmente também em períodos anteriores", assinalou o responsável pelas escavações, Eli Shukron, em um comunicado.

Pelo teor da inscrição, Shukron estima que "se enviou um carregamento de Belém para o rei de Jerusalém no sétimo ano do reinado" de um monarca que não é especificado, mas que poderia ser Ezequias, Manassés ou Josias.

A peça é um selo administrativo usado para selar carregamentos de impostos que se enviavam ao sistema fiscal do reino da Judeia no final dos séculos VII ou VIII antes de Cristo.
A reportagem é da Agência Efe - Tradução do Cepat.

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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quanda a Igreja vira circo!!!!!

Quando a Igreja vira circo
Sexta-feira, 20 de julho de 2012 - 0h37min
Era o mês de julho do ano de 1963 e eu não tinha ainda completado sete anos de idade. Em Araci (Bahia), minha cidade natal, celebrava-se uma festa de arromba: o Jubileu de Ouro do Apostolado da Oração da paróquia. Naquela época Araci era uma cidade pequenina formada apenas por três praças e menos de uma dezena de ruas. O município, com população quase toda rural, não passava de alguns milhares de habitantes. A cidade não tinha pároco e o padre vinha de vez em quando de Serrinha, a paróquia vizinha, situada a 36 quilômetros de distância. A região estava sendo assolada por uma seca que já durava quase três anos. Mesmo assim a festa aconteceu e o povo acorreu numeroso para participar, apesar de todo o sofrimento.
A abertura da festa se deu com a chegada do bispo diocesano de Feira de Santana (BA). Era a primeira vez que eu ia ver um bispo e nem sabia naquela época o que isso significava exatamente. Como toda criança, corri curioso, ao lado de meu pai, para a Praça da Matriz para ver a chegada de Sua Excelência. Fiquei impressionado. Uma figura imponente e vestida solenemente; usava luvas e sapatilhas e carregava atrás de si uma longa cauda, que era mantida suspensa a certa altura do chão por alguns caudatários. Entre esses caudatários estava um jovem seminarista, filho da minha terra e meu parente.
O bispo fez um discurso inflamado, rebuscado de frases em latim. Todos os presentes aplaudiram o "bom pregador", embora quase ninguém tenha entendido nada, especialmente aquelas frases ditas na "língua da missa" que só o sacristão Zequinha, seu ajudante Agenário e a professora Dona Marieta - a mulher que tocava o harmônio da igreja - entendiam um pouco. Depois disso, o bispo deu a bênção do Santíssimo Sacramento, rebuscada com mais latim, o "Tantum Ergo Sacramentum". A festa continuou por uma semana inteira: missas, pregações, confissões, batismos, casamentos e muito foguetório. Depois o bispo voltou para a sede da diocese, os missionários foram embora e o povo retornou para as suas casas. A vida voltou ao normal: luta contra a seca, fome, sede e miséria. "Seja o que Deus quiser", repetia conformado o povo dos pobres. 
Quando a festa do Jubileu do Apostolado aconteceu, já tinha sido realizada a abertura do Concílio Vaticano II. Porém, tudo continuava sendo realizado no "velho rojão", como se dizia então. Missa em latim, de costas para o povo e sempre pela manhã; celebração dos sacramentos numa "língua embolada"; o povo sem entender nada. Em minha cidade a primeira missa em português foi celebrada na tarde do dia 1º de janeiro de 1965. O presidente da celebração, um velho frade capuchinho, quase não conseguia pronunciar as palavras em português, de tão acostumado que estava com as velhas fórmulas decoradas em latim.
O tempo passou, entrei para o seminário e passei a conhecer vários bispos. Morei sete anos na Itália. Lá vi cardeais, bispos e padres vestidos com muita solenidade. Mas nunca mais tinha visto um bispo carregando uma cauda e vestido com tanta pompa. João XXIII e Paulo VI tinham simplificado as coisas, expurgando da Igreja e da liturgia os resquícios imperiais que as caracterizavam. O próprio Paulo VI renunciou à tiara e à "sedia gestatória", uma espécie de trono sobre o qual o papa se assentava e era carregado nos ombros de alguns homens. O Concílio Vaticano II renovou a Igreja, simplificou tudo, fazendo com que as comunidades cristãs retornassem à pureza do Evangelho e ao essencial. Pediu que a Igreja renunciasse às glórias mundanas, desse sinal de humildade e abnegação e, como seu Fundador, fosse pobre e estivesse ao lado dos pobres (LG, 8).
 A liturgia deixou de ser uma atividade exclusiva de padres para ser ação de todo o povo de Deus, o qual, por força do batismo, tem o direito e o dever de participar ativamente das celebrações (SC, 14). Pude ver então um dinamismo extraordinário nas comunidades cristãs, com o povo participando ativamente da liturgia. Dava gosto ver uma celebração e perceber as pessoas participando de muitos momentos. Os cantos litúrgicos eram entoados entusiasticamente por todas as pessoas presentes à celebração. As celebrações litúrgicas deixaram de ser ações privadas e realmente se converteram em celebrações da Igreja (ekklesía), passando, de fato, a pertencer ao "povo santo reunido" (SC, 26).
Mas o tempo passou, o Concílio foi sendo esquecido e "aposentado" e muita coisa "mofa" começou a voltar. Inclusive, para minha surpresa, as caudas dos bispos e cardeais e seus caudatários. E a coisa tem se complicado mais ainda porque a pós-modernidade chegou e atingiu de cheio as religiões, como nota sabiamente Bauman em seu livro O mal- estar-estar da pós-modernidade (Rio de Janeiro: Zahar). Além disso, a pós-modernidade, segundo David Lyon no seu livro sobre o assunto (São Paulo: Paulus), foi se infiltrando também no cristianismo, o qual se tornou um item de consumo, embora "delicadamente embalado". Assim sendo, as propostas cristãs foram se transformando em mercadorias, que podem ser compradas ou rejeitadas de acordo com os caprichos ou gostos consumistas de cada um. As lideranças, especialmente alguns padres, sucumbiram à sedução da tirania das imagens que passaram a serem usadas para seduzir as pessoas, especialmente as mais vulneráveis. Desta forma, tornaram-se profissionais do espetáculo e se utilizam disso para vender suas mercadorias religiosas e seus "kits de salvação", enchendo seus bolsos. As celebrações litúrgicas também foram transformadas em espetáculo, no qual alguns fazem o show, enquanto o povo permanece mudo e inerte.
Qual o resultado disso? Gilberto Dupas, citando Debord, em seu livro Ética e poder na sociedade da informação (São Paulo: Unesp, 2011) responde de maneira magistral: o espetáculo é "o herdeiro da grande fraqueza do projeto filosófico ocidental". De fato, "como a filosofia jamais conseguiu superar a teologia, o espetáculo é a reconstrução material da fantasia religiosa, a realização técnica do exílio, a cisão consumada do interior do homem. O espetáculo funciona ‘quase como uma forma de reconstrução material da ilusão religiosa. Ela já não remete para o céu, mas abriga dentro de si sua recusa absoluta, seu paraíso ilusório'" (p. 52).
Aplicando à Igreja e à liturgia o que disse Dupas, podemos afirmar que o espetáculo faz da Igreja um circo. Quando certos padres, e "presbiretes", viram palhaços, "cuspidores de fogo na Igreja", transformam celebrações litúrgicas em shows. Buscam na verdade minutos de glória fugaz para si, tratam a assembleia dos fiéis como uma massa de dementes e desvirtuam o espírito do Vaticano II. Com isso causam a alienação do fiel, o qual vira um mero expectador, levando-o a não mais participar plena e ativamente das celebrações e nem compreender e assumir a própria existência: a ser apenas um repetidor mecânico dos gestos de um padre animador de programa de auditório. Com isso o padre pop star não "remete as pessoas para o céu", mas as empurra para um "paraíso ilusório" revestido de pura fantasia.
Quando a Igreja vira circo ela se enfraquece porque deixa de contar com pessoas adultas na fé. Passa a ser uma Igreja infantil formada por "crianças" que são jogadas para cá e para lá pela artimanha de pregadores astutos (Ef 4,14). Na Igreja-circo as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa, a multiplicar objetos e kits de salvação e a fetichizar tudo. A comunidade cristã não cresce e nem se dinamiza porque é alimentada pelo obscurantismo. Na Igreja-espetáculo, diferentemente do que se pensa, a incerteza passa a ser a regra e não há crescimento "sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça" (Ef 4,15). Não existe mais uma fé sólida porque tudo está revestido de fragilidade em razão da debilidade dos espetáculos religiosos e da superposição de "mercadorias religiosas" propostas pelos animadores dos shows religiosos. A atenção dos fiéis não se volta mais para a pessoa de Jesus Cristo, mas para o fanático e obsessivo pregador de bobagens. A Boa Nova é substituída por outro evangelho (Gl 1,6) e o deus pregado é o "deus do ventre" (Fl 3,19), ou seja, a glória, o orgulho, a vaidade e o exibicionismo desses animadores de missas shows e de programas religiosos baratos e vazios.
José Lisboa Moreira de Oliveira Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília.
Adital

O sagrado como consumo, a idolatria em novas vestes!


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A vitória da teologia da prosperidade

Quinta-feira, 19 de julho de 2012 - 23h53min
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JOSÉ EUSTÁQUIO DINIZ ALVES - www.folha.com.br - 06.07.12, acessado em 12.07.12, às 04h
Quando eu era criança, mais de 92% da população brasileira era católica. Minha mãe, mulher de pouco estudo e muita fé, me levou para a primeira comunhão, para as missas dominicais e procissões. Ficou marcado na minha memória uma romaria que fizemos a Congonhas (MG), onde conheci demonstrações de catarse coletiva, além das estátuas de Aleijadinho.  Mas eu não segui os passos do catolicismo. Primeiro, porque não entendia as homilias dos cultos. Segundo, porque o mundo da mística cristã estava muito distante da realidade nua e crua da minha lida diária. A Igreja ajudava pouco.  Existia até uma certa rejeição. Uma brincadeira comum entre os meninos era dizer que "quem chegar por último é mulher do padre" -e era grande o esforço para não ficar para trás. E um pecado: confesso que nossa turma de garotos chegou a praticar bullying contra coroinhas, embora ninguém na época soubesse o significado da palavra. O fato é que a doutrina católica não foi a referência para o destino da maioria dos meus colegas.
Por meio do ensino público e laico, estudei e aprendi com Max Weber que a realidade da minha infância e adolescência era apenas um pequeno retrato do conflito entre o lado sagrado da religião e o processo de dessacralização do mundo. Considerando a teoria do sociólogo alemão, os dados do censo 2010 não surpreendem ao mostrar que o Brasil, embora mais evangélico, está ficando menos sacralizado. O discurso da "opção preferencial pelos pobres" da Igreja Católica não tem sido capaz de evitar o fim do monopólio católico no país. O que se difunde no Brasil é a doutrina de Joãozinho Trinta: "Pobre gosta é de luxo".
A lógica econômica tem prevalecido sobre a dinâmica puramente religiosaA teologia da prosperidade tem atendido melhor as expectativas de consumo e os interesses egoísticos das diferentes camadas sociais. Como disse o sociólogo Flávio Pierucci em artigo póstumo, a sociedade não precisa mais de um Deus transcendente quando os indivíduos pagam pelos serviços prestados em nome dele e transformam os bens tangíveis em ideal divino.Atualmente, o que se considera sagrado é o consumo.
O crescimento das correntes evangélicas pentecostais no país tem sido compatível com o fato de queo sagrado está cada vez mais comercializado e dessacralizado. É o Brasil cada vez mais desencantado. Isso não significa que não seja espantoso, claro, o ritmo com que a Igreja Católica tem perdido adeptos. E a perda tem sido maior entre as mulheres e os jovens. Em tese, é possível estancar essa sangria. Em 2013, o papa vem ao Brasil para falar especialmente às mulheres e jovens. Será difícil, porém, agradar as mulheres mantendo o sexo feminino excluído da hierarquia eclesiástica. Será difícil atrair jovens proibindo o sexo antes do matrimônio. Será difícil ampliar o número de padres mantendo o celibato religioso -e será quase impossível manter a filiação das pessoas de bom senso enquanto a doutrina católica continuar rejeitando os métodos contraceptivos modernos e proibindo o uso da camisinha, tão importante para evitar doenças sexualmente transmissíveis.
Não será fácil também reverter a debandada do rebanho quando o Vaticano assume na Rio+20 posições anacrônicas, contra os direitos sexuais e reprodutivos. A Igreja Católica pode virar o jogo, mas terá de mudar o discurso e a prática.
JOSÉ EUSTÁQUIO DINIZ ALVES, 58, doutor em demografia, é professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE

Poder nao, serviço - os desafios para uma igreja realista


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Catolicismo: a decadência do poder

Sexta-feira, 20 de julho de 2012 - 0h22min
O cristianismo nasceu pobre, de um Deus feito gente pobre, difundido por pescadores e outros homens e mulheres dos grupos marginais. Gente de pequenas comunidades, que tinham uma extraordinária novidade para quem quisesse.
Depois, tornou-se a religião do poder romano, como Igreja Católica, e essa metamorfose tem até hoje consequências impagáveis.
A Igreja Católica começou a perder poder religioso com a ruptura de Lutero e poder mundano com o iluminismo. As revoluções burguesas derrubaram os privilégios da nobreza e do clero.
No Brasil e América Latina, o catolicismo chegou como a religião dos conquistadores. As reduções indígenas no Brasil, a apropriação dos templos incas e astecas, o batismo forçado dos negros desembarcados dos navios negreiros, cavaram um fosso entre a religião oficial do clero e o cristianismo vivido pelas massas subalternas. Aqui também houve uma metamorfose, e os pobres recriaram para si um cristianismo, um catolicismo, conforme sua própria imagem e semelhança. A proclamação da República começou subtrair o poder do clero no Brasil. A liberdade religiosa só chegou com a Constituição de 1945 pelas mãos de um ateu, Jorge Amado.
Hoje, o triunfalismo religioso está com os evangélicos pentecostais. Fazem marchas poderosas e ali também é difícil discernir o que é evangelho do que é mercado. Entre eles já começa ter críticas para "voltar ao texto bíblico". Certos setores católicos achavam que, imitando de alguma forma os evangélicos pentecostais, conteriam a sangria nominal religiosa. O resultado já está posto.
As últimas pesquisas indicam que o catolicismo brasileiro, nominal, é da ordem de 64,6% da nossa população. Como na Europa, a tendência é se estabilizar por volta de 40%. Deve crescer o número dos indiferentes diante das igrejas. O fenômeno pentecostal também não terá longo fôlego quando grande parte da população superar sua consciência ingênua diante dos milagreiros da teologia da prosperidade. Quem sabe os evangélicos históricos voltem mesmo ao texto bíblico, a grande contribuição deles ao cristianismo.
O Brasil mais católico continua no Piauí, Ceará, Paraíba, nordeste em geral. O Brasil menos católico está em Rondônia e Rio de Janeiro, onde já é minoria, com cerca de 45% do povo do Estado permanecendo católico.
A perda constante de poder na história não demove certos setores da Igreja Católica que acham ainda que a Igreja é poder. Muitos agem ainda como se vivessem na Idade Média. É perda de tempo e de energia. Além do mais, falta-lhes senso de realidade.
Só resta um poder real aos cristãos, sejam eles de qualquer Igreja: do sal, do fermento, da luz. E vale lembrar a terrível advertência de Jesus: "se o sal perder o seu gosto não serve mais para nada, a não ser para ser lançado fora e pisado pelos homens (Mateus, 5,13)".
Roberto Malvezzi, Gogó Equipe CPP/CPT do São Francisco. Músico. Filósofo e Teólogo
Adital

domingo, 15 de julho de 2012

A trajetória libertadora de d. Tomás Balduino


Entrevista fabulosa de um grande homem, que eu tive o prazer de conhecer e dou graças a Deus

A trajetória libertadora de Dom Tomás

Histórico de lutas sociais no Brasil nas últimas décadas se confunde com a vida do fundador da CPT e do Cimi, Dom Tomás
28/06/2012
Eduardo Sales de Lima,
da Reportagem

Dom Tomás Balduíno completa, no dia 31 de dezembro, 90 anos de uma vida voltada aos pobres, aos “sem-nada”, como diz. “Sem-nada”, que na visão do Bispo, precisa ser compreendido como o “sujeito” de seu tempo, o agente transformador de sua realidade.
Influenciado desde a infância pela religiosidade de sua família, com a presença três tios padres diocesanos, o Bispo emérito de Goiás optou por ser frade pela Ordem do Dominicanos, demonstrando, desde a juventude, desapego a qualquer tipo de status social.
Testemunho ativo de um dos momentos mais obscuros da história brasileira, a ditadura civil-militar, Dom Tomás explica a proximidade entre os jovens dominicanos e Carlos Marighella e a pressão sofrida pela Igreja no período em que a ditadura tentava dizimar os guerrilheiros do Araguaia.
Sua trajetória se confunde com a própria história dos movimentos sociais e da luta política no Brasil. Expoente da Teologia da Libertação, enxerga tal proposta como um modo de analisar a própria “caminhada” de Deus em busca da libertação desde o êxodo até a ressurreição. Ao Brasil de Fato, ele conta um pouco da sua história.
Foto: Rodrigues Pozzebom/ABr

Brasil de Fato – Dom Hélder Câmara, entre outros religiosos, antes de aderir à Teologia da Libertação, pertencia à ala mais conservadora da Igreja. E no seu caso, como ocorreu essa aproximação?
Dom Tomás – Eu tive uma trajetória diferente. Eu fiz o seminário com os dominicanos, em Uberaba (MG) e lá comecei o noviciado. Vim para São Paulo (SP) e encontrei um grupo de dominicanos chegado da França, com essas ideias. Depois vieram aquelas pregações de Frei Chico, lá em Perdizes [bairro da zona oeste de São Paulo]. Dessa maneira, o início de meu caminho, desde a minha juventude, foi um caminho de abertura. Eu tive chance também de estudar em Saint Maximin (Escola Teológica Dominicana), na França, de 1946 até 1950. Com a presença de Jacques Maritain (filósofo francês católico), tanto os dominicanos quanto os jesuítas. Isso me ajudou muito. Antes de voltar para o Brasil, eu tinha o sonho de trabalhar na área indígena. Mas fui encaminhado inicialmente para a faculdade. Lecionei na faculdade de Filosofia de Uberaba (MG), e depois fui para Juiz de Fora (MG), já em 1951.

O senhor vem de uma família religiosa?
Sim. Do lado materno eu tinha dois tios padres e do lado paterno um. Isso influenciou. Eles eram diocesanos e eu optei, nem sei por que cargas d’água, em ser frade. Houve muita oposição por elementos da família, porque meus tios eram diocesanos, ligados à família.

Com quantos anos o senhor descobriu sua vocação?
Isso nasceu comigo, parece. Quando criança eu “celebrava” missas, para a alegria e diversão do pessoal. Eu celebrava a missa com uma pedra de açúcar [risos] e imitava direitinho a fala em latim daquele tempo. E assim foi. Marcadamente um caminho religioso. Nunca tive assim um sobressalto de mudança, do que chamam de conversão. Talvez tenha sido até um defeito da minha trajetória.

Quando ocorre o Concílio Vaticano II (1962-1965), o senhor estava com 40 anos. Participou de alguma forma dele?
Eu participei através de minha ligação com Frei Romeu Dale, que era perito do Concílio. Ele tinha muita amizade comigo, foi meu professor. Depois eu fui prelado e ele insistiu para que eu fosse à última sessão. Não deu certo de eu ir. Tive que me preparar para ir ao Araguaia (da Prelazia de Santíssima Conceição do Araguaia, hoje Diocese de Marabá [PA]). Mas a gente estava muito informado do que estava acontecendo no Concílio, porque entre uma sessão e outra, ele ligava para casa. Ele morou no Rio e eu também. A gente debatia muitos temas.

Por que ocorreu o Concílio justamente naquele momento histórico?
Aquilo foi uma intuição do Papa [João XXIII]. Era para ser um papa de transição e os cardeais chegaram a um acordo de consenso para dar tempo para refletir. Mas ele, para a surpresa de todos, convocou o Concílio. A convocação do Concílio foi nitidamente uma abertura de visão de mundo.

Há quem diga que teria sido uma resposta à Reforma Protestante, 500 anos antes. O que o senhor acha?
O Concílio não teve nenhuma forma de, vamos dizer, “cruzada”. Pelo contrário. Queria abrir espaço, uma janela para outros cristãos de outras denominações. Foi pelo ecumenismo e se tornou um marco.

A sua Ordem dos Dominicanos abarca figuras com trajetórias extremamente distintas que vão desde Frei Betto a Tomás de Torquemada (o temível inquisidor). Como entender os dominicanos?
Eu e vários outros que comungam essa intuição de Domingos de Gusmão, temos como admiração o salto dado por ele. Um homem que saiu da clausura dos mosteiros para as cidades, para os burgos, as universidades. E ele vai para as missões. Internamente, outra coisa admirável é o sistema democrático da ordem. Os dominicanos sempre fizeram muita questão desse processo. Na ordem, se reúnem os capítulos. Os capítulos alternam-se entre os provinciais e os capítulos de não-provinciais. Há uns que são mais governistas, ligados ao trabalho interno, enquanto outros estão ligados a um trabalho mais amplo. Isso é um equilíbrio. Tanto que a ordem nunca teve cisão. É verdade que houve províncias mais fechadas que outras. Eu morei na França. A minha província era mais fechada, da estrita observância. Mas nós, brasileiros, engatamos com a província de Paris, que era aberta nos debates com o ecumenismo, com o operariado.

Nesse sentido, como o senhor enxerga o apoio dos dominicanos a Carlos Marighella?
Não são os dominicanos. Eles pertenciam à classe estudantil que começou ali na Juventude Universitária Católica (JUC) e na Juventude Estudantil Católica (JEC). E, depois, com muita coerência e muita lógica, se abriu para o social e para o político. A Ação Popular (AP), por exemplo, é uma decisão política de luta por enfrentamento à ditadura, e os dominicanos eram praticamente membros. Mas não era só uma expressão deles próprios. Não era mérito nem do Betto e nem de seus companheiros, como Fernando Britto, Tito e outros. Mas era porque eles estavam encarnados naquela realidade estudantil.

Até 1964 o senhor estava em Conceição do Araguaia. Quando ocorre a Guerrilha, a partir de 1972, o senhor não está mais lá?
Eu não participei de todo o processo. Foi o meu sucessor, Dom Estevão [Cardoso de Avellar].

Mas o senhor presenciou algum fato ligado diretamente à Guerrilha do Araguaia?
Nada. Mas quando eu estava na região, eles [guerrilheiros] já estavam por lá, trabalhando, fazendo serviços de médicos, dentistas, se entrosando com o povo.

E depois, quando o senhor foi substituído, chegou a tomar conhecimento de fatos por meio de Dom Estevão ou outros religiosos acerca da guerrilha?
Aí sim. Porque houve tensão entre os militares e os missionários. Um deles trabalhava na área indígena dos índios Suruí, dentro do território da Guerrilha. Os índios foram utilizados pelos militares como guias na mata. E depois, para mostrar quem era quem, abusavam dos índios de uma forma assim anti-ética, imoral, tentando incorporar as aldeias indígenas nesse serviço sujo.

Quais eram os missionários ligados à guerrilha?
O Frei Gil [Gomes Leitão] sempre foi um missionário naquela área. Ele que fez o primeiro contato com esses índios. Os índios não foram deslocados. O missionário chegou e fez amizades com eles. Foram várias tentativas e excursões para tentar o contato. Isso porque, quando os índios avistavam pessoas diferentes, fugiam. Frei Gil conseguiu. Os militares iam atrás dele, mas ele era muito esperto, se disfarçava bem. Certa vez, pediram a identidade dele, mas os missionários, os religiosos mudam de nome. E o nome dele, de identidade, é Dulce Leitão [risos]. Os militares o paravam, viam a identidade, e o descartavam. “Nós estamos atrás de um tal de Gil”. E aí, ele escapava.

Em 1972, o senhor foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Como foi esse processo?
Foi muito interessante. Os missionários já estavam muito tempo insatisfeitos com a estrutura das Prelazias, que estavam nas áreas indígenas, mas eram focadas em construções de igrejas, na expansão física. Havia uma busca de outro instrumento. Eles queriam uma prelazia de pessoas, como um território de pessoas. Eu fui consultado e respondi de uma maneira assim, jocosa. “Eu acho que esse prelado vai ficar isolado; e ele vai ser um prelado pelado” [risos]. Aí retiraram essa proposta. Porque prelazias são áreas pastorais confiadas como dioceses a uma congregação. Há a prelazia franciscana, a prelazia dominicana, dos padres jesuítas. Então criaram um instrumento sem mexer com essa estrutura e assim foi pensado no Conselho Indigenista, por meio de um encontro em Brasília.
Eu entrei puxado por D. Pedro Casaldáliga. Ele me disse que outros bispos estavam ali para resolver os problemas dos índios. E lá nasceu a criança, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Um conselho para cuidar da problemática indígena. E foi muito interessante, porque nós estávamos no pós-Medéllin [Conferência ocorrida em 1968], que fez uma opção pelos pobres, não considerando o pobre como objeto de nossa ação caritativa, mas como sujeito de sua própria caminhada. O Cimi nasceu sob essa inspiração. Houve muita tensão interna na equipe encarregada do Conselho, mas evoluiu no sentido de dar ao índio essa possibilidade de se afirmar como sujeito e ser protagonista, ter sua autonomia, sua terra, sua cultura. Havia missionários que andavam pelas prelazias e traziam informações para o Conselho. E numa dessas reuniões, um dos membros do Conselho, que era o padre Tomás Lisboa, um jesuíta, sugeriu a criação a assembleia de chefes indígenas. Por meio de nossa facilidade de diálogo com as lideranças das tribos, sugerimos esse encontro. Reunir gente que vivia em hostilidade, os Xavantes com Carajás, e isso foi o “ovo de colombo”. As assembleias aconteceram, os índios tinham momentos só deles, sem presença de missionários, de jornalista, de sociólogo ou antropólogo. E saíram dali com a seguinte decisão: primeiro recuperar nossa cultura; segundo, recuperar as nossas terras; terceiro, autonomia. Eles mesmos decidiram isso. Foi tudo registrado pelos cadernos do Cimi. E foi a partir dali que os indígenas começaram a caminhar com suas próprias pernas. Em muitas aldeias, os jovens missionários que estavam em outras regiões passaram a conviver com os índios e isso continua até hoje. Os Pataxós passaram a se tornar um povo antenado a toda a América Latina e não fechado neles mesmos.

E o processo de fundação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975? Que anos depois o senhor passou a ser presidente?
A CPT nasceu de um processo conflitivo. Os bispos estavam achando que os militares “estavam dando” em cima dos padres que acompanham os lavra lavradores. Porque na proposta do golpe de 1964 estava, como prioridade, enfrentar os camponeses. Eles [militares] acompanhavam todos aqueles conflitos que estavam acontecendo. E achavam que, através de alguns lavradores, muitos camponeses entrariam no comunismo internacional. Então foram em cima dos lavradores mas também dos padres e freiras que só estavam acompanhando eles, por meio de um trabalho religioso. Aí o bispo se sensibilizou. Eles foram presos, ameaçados. Então nos reunimos e nasceu a Comissão Pastoral da Terra com uma proposta samaritana, de socorrer aqueles perseguidos [no caso, os religiosos], e mesmo os caídos, que eram os trabalhadores rurais. De imediato, a Pastoral da Terra foi cuidar de padres, freiras, e dos próprios lavradores.

Muitos dizem que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é filho da CPT, que surge como uma versão laica da CPT.
O nascimento é sempre complexo. Naquele livro Brava Gente, o [João Pedro] Stédile mostra que o processo é sempre complexo. Agora, não há dúvidas que era gente de origem das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e também da CPT. Muitas pessoas faziam parte do trabalho da CPT e estavam engajados. Nesse sentido, a maternidade ou paternidade se dá como elementos que saem de uma igreja mais comprometida ilustrada sobretudo pelas CEBs.

Talvez o senhor tenha sido uma das vozes mais críticas, pela esquerda, do governo Lula. Como o senhor avalia os oito anos desse governo?
É complexo porque tem a compreensão da figura carismática e que até hoje é muito querida por pessoas da base. Às vezes, as próprias vítimas do processo não entendem as minhas críticas a ele, que tem a sua trajetória emblemática, do sertão nordestino até a presidência. O que chamou atenção no seu governo foi o fascínio pelo desenvolvimento econômico. Eu participei daquela marcha (dos movimentos sociais do campo, em 2005), num momento muito esclarecedor. Foi uma caminhada dos grupos sociais até Brasília. O Lula acabou aparecendo e comentou: “Quem é apressado come cru”. Logo depois houve aquele Plano Nacional da Reforma Agrária (PNRA). Teve até a participação na elaboração de gente como o Plínio de Arruda Sampaio. Tanto que por causa da demora de Lula, ele nem foi ministro. O programa veio, reduziram pela metade seus objetivos e foi-se esvaziando.

E em relação ao governo Dilma?
Em abril, todos os movimentos sociais foram para cima do governo, pressionando por posicionamento em relação à reforma agrária, à condição dos assentamentos, dos acampamentos. Chegaram a ocupar o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e várias outras instituições nessa linha de enfrentamento. Quer dizer, a Dilma pisou no freio da reforma agrária.

O que significa esse anel de tucum que o senhor usa?
Isso é o casamento com a causa indígena. Essa peça foi feita pelos índios Tapirapé e dá para ver como é bonito, ele brilha até. E a gente assumiu como uma ligação com a causa indígena, mas não só com essa causa, mas com toda a causa de mudança e de transformação com o povo em busca do Brasil que queremos.

Voltando à questão dos membros fundadores da Teologia da Libertação. Há alguns pensadores que estão indo, como o José Comblin (falecido em março de 2011). Além disso, Dom Pedro Casaldáliga está debilitado...
Mas ele está com a cabeça boa.

Claro. Mas qual perspectiva o senhor tem da Teologia da Libertação? E os novos pensadores?
Gustavo Gutierrez costumava dizer brincando: “Se a Teologia da Libertação morreu, eu não fui convidado para o enterro.”[risos]. Nós não acreditamos nisso. A Teologia da Libertação, para mim, é teologia. É a única teologia em uma situação de opressão.

Uma teologia, de fato, não morre?
Fica sempre. Teologia é um conhecimento de Deus, um mistério de Deus; da abertura de Deus aqui com os homens e as mulheres. Trata-se de uma teologia que vai analisar a caminhada de Deus e vai encontrar, o tempo todo a libertação. Desde o êxodo até a ressurreição é isso, é esse encontro. É a fundamentação teológica da linha da libertação. O fato de, por exemplo, [Karl] Marx ter ido por um caminho semelhante na análise sociológica não impede que haja Teologia da Libertação, até utilizando argumentos dele. Então, o pessoal se fechou achando que era outra coisa. Não é. Isso é muita estreiteza, inclusive no conhecimento de Deus.

Boa parte dos religiosos que levaram essa teologia adiante são estrangeiros. Europeus que vieram para a América Latina nos anos de 1960. Ou, como no seu caso ou de Leonardo Boff e Frei Betto, foram brasileiros que estudaram na Europa. O senhor acha que jovens seminaristas, estudando somente aqui no Brasil, caminharão nesse viés libertador?
Essa pergunta tem um quê de desvalorização da realidade acadêmica aqui no Brasil. O Boff estudou lá na Alemanha, num outro contexto, mas superou isso através dos mesmos instrumentos teológicos. Ele (Boff) padeceu. Hoje ele é dominicano. Foi o truque dele para se livrar do domínio do bispo diocesano, porque o padre diocesano é 100% do ensino religioso. E agora ele pode exercer a missão de teólogo dele de uma forma missionária. A gente não depende colonialisticamente do europeu. Foi um estímulo para ajudar no plano científico. Agora, nos conteúdos da América Latina, a meu ver, salvou o Concílio Vaticano II. Porque o Concílio foi uma abertura para o mundo. A verdadeira abertura evangélica para o mundo não é a abertura europeia, que é a abertura para o mundo dos ricos. A verdadeira abertura “conciliar”, evangélica, é a abertura dos pobres, onde existe o mundo subversivo. Medellín foi o salvador do Vaticano II, a meu ver, porque abriu, de fato, a Igreja para os “sem-nada”.

Nos últimos meses ocorreram essas manifestações contra a crise econômica, contra o capitalismo, contra os bancos. Nota-se essas mobilizações resgatam valores humanistas também. De que forma esse “espírito” da Teologia da Libertação dialoga com essas manifestações?
Houve um retrocesso no mundo. Uma tendência à direita é geral. O pessoal fala da Teoria do Pêndulo. Uma hora o pêndulo está na esquerda, outra hora ele está na direita. Então é surpreendente quando jovens estudantes, professores, da Europa e dos Estados Unidos fazem isso. Acho que é um campo para a Teologia da Libertação. Propício para uma reflexão com esse pessoal. Na medida do possível, porque ninguém quer ser mestre de ninguém, mas companheiro. E sobretudo a gente aprende. Ficamos surpresos. Por que aconteceu isso? Até a própria juventude alienada foi nessas manifestações.

Que mensagem o senhor nos deixa, talvez de motivação?
Acho importante isso. E está dentro da gente. E pode ser notada a partir, justamente, dos mais pobres entre os pobres. A gente está sabendo da situação dos pobres indígenas. Eles podem chorar na situação em que eles estão. Mas o que acontece? Alegria. Eles vivem a alegria e ninguém pode capturar isso de nós. Isso entre Kaiwowa, Xukuru, Pataxó. Todos vivendo o maior sofrimento, maior sufoco, a maior angústia de não ter perspectiva e então; esse pessoal vive de alegria pela esperança. Eu acho que essa lição, a partir deles, deve ser um recado do senhor Jesus para todos nós.

sábado, 14 de julho de 2012

Não julgue, apenas compreenda - a comunhão anglicana e a sexualidade humana


Leituras amorosas sobre um problema candente dos dias de hoje.  Não me cabe julgar a razão objetiva do seu crescimento, mas a igreja e os cristãos não podem compactuar com a homofobia.  Artigo apresentado pelo Rev. Pedro Triana.

Não julgue… somente compreenda

A Comunhão Anglicana e a sexualidade humana

 Assim que não nos julguemos mais uns aos outros;
antes seja o vosso propósito não por tropeço ou escândalo ao irmão.
Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus,
que nenhuma coisa é de si mesma imunda,
a não ser para aquele que a tem por imunda;
para esse é imunda. Rm 14,13-14

Introdução

Desde Lambeth 1888, com o início das discussões sobre a poligamia, a sexualidade humana tem sido até agora um ponto de debate nas Conferencias de Lambeth. Contudo, começando com a resolução sobre a homossexualidade de Lambeth1998, acual categoricamente refere-se a esta orientação sexual como “incompatível com as Escrituras”, posteriormente a nomeação de Jeffrey John como Bispo de Reading na Inglaterra, a eleição e sagração de Gene Robinson como Bispo de New Hampshire, nos Estados Unidos; e recentemente as declarações da 74a Convenção Geral da Igreja Episcopal nos Estados Unidos de América (ECUSA), e do Sínodo Geral da Igreja Anglicana de Canadá 2004, que vêm com bons olhos ou aprova a benção de uniões de pessoas do mesmo sexo, tem aparecido diversas opiniões que ameaçam a própria integridade do anglicanismo. Sem dúvidas, nunca antes a Comunhão Anglicana havia estado envolvida num debate tão acalorado como esse da sexualidade humana.
Desde a minha posição de biblista, anglicano e cubano, pretendo oferecer algumas reflexões, avaliações e apontes muito pessoal, dentro do espírito de diversidade e compreensibilidade que historicamente há caracterizado o anglicanismo. Gostaria destacar que estes apontes encaminham-se nas linhas ética, pastoral, e na valoração eclesiológica. E quero destacar o eclesiológico, porque sem temor de errar, o debate sobre a orientação sexual no anglicanismo tem ido muito além das simples discussões e o debate, para chegar a divisões internar dentro de algumas Províncias, assim como a recriminações e ameaças de excomunhão de umas Províncias para as outras. Sem dúvidas, se não se chegasse a um consenso poder-se-ia chegar até a própria desintegração de nossa Comunhão. Portanto, gostaria na minha reflexão chamar a atenção sobre as lições que como anglicanos, mas particularmente como cristãos nos começos do século XXI, deveríamos tirar de todo esse debate.

Bíblia, tradição e razão

Não estou pretendendo repetir tudo o que já tem sido produzido em termos de estudos hermenêuticos e bíblicos, ou teológicos, ou psicológicos, ou clínicos, ou culturais, sobre a temática da orientação sexual. Todos esses estudos têm amplamente estabelecido que a homo sexualidade nem é pecado, nem é crime, nem é uma doença.[1] Mas como tudo esse debate tem sido legitimado sob bases bíblicas, desde a minha posição de teólogo e biblista, gostaria dar destaque a alguns aspetos hermenêuticos.
As declarações oficiais do anglicanismo estabelecem que:
“As Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento [são] a Palavra revelada de Deus”.
  • Também que inspiradas por Deus a Bíblia é “o último critério de seus ensinos e a principal fonte de guia para sua vida”.
  • E, além disso, que “as Sagradas Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação” e que constituem “a norma e critério final para a fé”.[2]
Certamente todas estas afirmações e declarações têm que ser vistas, também, à luz das formulações de Richard Hooker, considerado uns dos maiores teólogos anglicanos de todos os tempos.  Hooker coloca como uns dos pilares do pensamento teológico anglicano:As Escrituras, a Razão e a Tradição.
Mas apesar de que o anglicanismo tem considerado sempre a Bíblia como central, nunca tem sido claramente expressado e definido o caráter e função de sua autoridade.  Deve-se isto a que o anglicanismo quando mantém que os credos “podem ser provados pelas Escrituras”[3] e que a Igreja “tem poder para decretar ritos e cerimônias e ser autoridade em controvérsias de fé sempre que não se afastem do estabelecido pela Palavra escrita de Deus”[4], se afasta da sola escritura dos mais rigorosos reformadores, introduzindo a Tradição como uma medida de qualificação e critério. E a introdução da Tradição como critério hermenêutico faz que a prática da Igreja (tradição) possa influir em como as Escrituras em si mesmas foram e devem ser lidas.  Finalmente, entra no processo interpretativo outro pilar anunciado por Hooker, a Razão, que conduzida pelo Espírito Santo, não pode ser excluído do processo.
Com base nos princípios hermenêuticos expressados anteriormente, gostaria enfatizar, quando vemos o “uso”, ou melhor, o “mal uso” que dá-se às Escrituras para legitimar a marginalidade, a exclusão e a condenação das pessoas de orientação homossexual, que não podemos usar a Bíblia como um livro de perguntas e respostas para nosso próprio tempo, ou como um livro de receitas éticas e morais.
A Bíblia, escreveu o grande pregador norte-americano Phillips Brook, “é como um telescópio”. Se olharmos através do telescópio contemplamos o mundo através dele, mas se olhamos o telescópio, somente vemos o telescópio. Por isso a Bíblia é para olhar através dela para ver o que está além dela mesma, mas quando somente olhamos o telescópio somente temos letra morta. Quer dar destaque o grande pregador ao fato de que a Bíblia não é um código escrito que mate, senão um veículo do Espírito que da vida.  (2 Cor 3,6); a Bíblia é para ser olhada através e além dela mesma.  Por isso a Bíblia sempre tem que ser interpretada através da tradição, da razão e da experiência cristã antes que seja conhecida como revelação.
Algumas aproximações hermenêuticas pensam que há somente três perguntas que podemos fazer-lhe a um texto:  Aconteceu? E se aconteceu, como aconteceu? E também, o que significa?  No entanto, como muito bem foi dito pelo William Temple, as perguntas históricas, ainda que não sejam irrelevantes poderiam nos levar a perder o verdadeiro propósito teológico que está escondido detrás de um texto.[5]
Por outro lado, a melhor pergunta sobre a Bíblia não é:  o que é a Bíblia?; senão, o que não é a Bíblia?  E ante esta última pergunta devemos dizer que a Bíblia:
  • Não é um livro de biografias –no sentido atual do termo- dos personagens históricos mais importantes do povo de Israel e dos primeiros cristãos, mas oferece-nos dados dos personagens mais importantes da fé Judéia e da fé cristã, que somente podemos encontrar entre suas páginas;
  • não é um tratado de ciências naturais e leis físicas, que tenta explicar as teorias da origem do mundo e das instituições sociais, mas oferece-nos a visão do cosmos e dos seres humanos que tinham as pessoas que escreveram os livros;
  • não é um manual de historia, tal e como nós entendemos a historia atualmente, mas dá-nos a conhecer acontecimentos da historia de Israel, do movimento de Jesus e da Igreja que, em muitas ocasiones somente podemos conhecer através dela;
  • não é um tratado de ética e moral  com validade para todas as épocas e lugares, porque as colocações éticas e morais encontram-se no ambiente de uma cultura patriarcal, onde, aliás, as leis de pureza são determinantes.  Por acaso mataríamos hoje a nosso filho ou a nossa filha porque foram repetidamente desobedientes e não respeitam o seu pai e a sua mãe, como fica estabelecido em Deuteronômio 21,18-21?
Por isso temos hoje que dar-lhe um grande valor no processo de interpretação às informações que fornecem outras ciências como a arqueologia, a sociologia, a história da literatura, a economia, a psicologia, e as ciências empíricasem geral.  Porqueos escritores bíblicos viveram em um mundo muito diferente ao nosso. Os horizontes são diferentes. Separam-nos culturas e concepções éticas e morais diferentes. Portanto, é necessário reconhecer que devido à distância de séculos, os escritores bíblicos não pensaram em termos semelhantes aos nossos, nem tiveram as mesmas perguntas que hoje nós fazemos. No caso particular da sexualidade humana, as Escrituras não se encaminham a responder as perguntas que atualmente nós fazemos sobre ética sexual.
E damos destaque a tudo isto, porque acontece que a aproximação literal é a dominante na análise dos únicos cinco textos que expressam opiniões sobre o sexo entre homens[6], com o propósito de tentar “provar” que a homossexualidade é “oposta às Escrituras”. Porém, o melhor e mais atual na ciência bíblica contemporânea já tem amplamente estabelecido que as Escrituras “não se posicionam diretamente em relação à moralidade dos atos homo-genitais, nem das relações gays o lesbianas como as entendemos em nossos dias”.[7]  Também a ciência bíblica tem estabelecido que nem sequer Jesus disse nada sobre a homossexualidade quando encontro-se ante uma pessoa que de acordo aos costumes da época, ao que todo indica, mantinha uma relação afetiva homossexual com seu escravo (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10) [8] Em fim, que usando a Razão como princípio hermenêutico, não podemos usar a Bíblia para condenar às pessoas de orientação homossexual.
Por outro lado, os estudos biológicos e psicológicos já têm estabelecido –e aqui também nos encontramos com o princípio hermenêutico da Razão- que as pessoas não “escolhem” ser homossexuais.  Se o assunto fosse simplesmente escolher uma forma de expressão sexual, tal vez poder-se-ia pensar em uma aprovação ou condenação moral.  Mas as pessoas não “escolhem” ser gays ou lesbianas, “reconhece-se, ou” “encontram-se que são” gays ou lesbianas.  Já neste caso temos que considerar como assinala Richard Harries, outras partes da Bíblia onde vemos a atitude de Jesus para com as pessoas marginadas, excluídas e victimizadas da sua época.  Afirma, também, o Bispo Harries, que as implicâncias que têm isto para nossos dias é que tanto como cristãos heterossexuais como homossexuais devemos nos encontrar juntos no Corpo de Cristo, respeitando os pontos de vista dos outros e outras e reconhecendo nossa comum lealdade a Cristo, porque a Bíblia no se interpreta em um mundo atemporal e a-histórico.  Devemos procurar interpretar e aplicar a Bíblia em nosso próprio tempo, da mesma maneira que as pessoas que a escreveram fizeram para seu próprio tempo.[9]  Por isso, como também diz o professor de Novo Testamento norte-americano.  L. William Countryman, “negar a todo um grupo de seres humanos o direito pacífico e não prejudicial para as outras pessoas, de tentar alcançar o tipo de sexualidade que corresponde a sua natureza é uma perversão do evangelho”.[10]

Prejuízo, intolerância e discriminação

Durante muitos séculos a atitude das Igrejas no que diz respeito à sexualidade humana tem sido negativa.  Em termos gerais o sexo tem sido compreendido como a forma de procriar, mas não como uma fonte de prazer.  Porém, hoje se entende que podemos usar nossa sexualidade sem pensar na reprodução.  Também a sexualidade não é somente e necessariamente o ato sexual.  Por isso, as igrejas têm sido acusadas de serem obscurantistas e repressoras da sexualidade.  E ainda que esta afirmação pudesse parecer exagerada, não sempre as pessoas que assim se expressam estão completamente erradas.  Para alguns a única maneira de pecar é através dos genitais.[11]  Mas não é um exagero acusar às igrejas de serem obscurantistas e repressoras da sexualidade, porque na pratica, e sem dúvidas, nas discussões sobre a orientação sexual, tem sido a Igreja a principal instituição que até hoje legitima a discriminação contra as pessoas de orientação homossexual.
Abel Sierra Madero, pesquisador da Fundação Fernando Ortiz, quando reflete sobre a homo-fobia em nossa cultura cubana afirma:
“Quando aprendamos a identificar e reconhecer socialmente a essas pessoas como tal, haveremos começado a reivindicar um tanto as atitudes homofóbicas e discriminatórias que têm marcado nosso passado histórico.  Nossa ‘nação assexuada’ tem tentado excluir aos homossexuais.  Mas acontece que uma nação não se deve construir sobre a base da segregação, da exclusão e da discriminação, pois estaria condenada ao fracasso”.[12]
E quando vemos essas reflexões que partem do mundo secular, que luta com um problema –complexo, e com espinhos e ainda não resolvido-  Por acaso temos esquecido a atitude do próprio Jesus para com os discriminados, excluídos e marginalizados da sua época? Certamente, como tem afirmado o Bispo John S.  Spong, “a Igreja não pode reclamar ser Corpo de Cristo senão pode dar as boas vindas a todas as pessoas as quais o próprio Jesus daria as boas vindas.[13]
Por isso é um fato lamentável e alarmante, pelos princípios discriminadores e excludentes que acompanham os debates, que se tenha desatado todo um “escândalo” a partir das discussões sobre a orientação sexual na Comunhão Anglicana. E muitos perguntamos-nos, por que não se reage com a mesma energia contra os grandes problemas que ameaçam nosso mundo? Por que não háem nossa Comunhãouma reação global e com a mesma força com a que se focaliza o assunto da orientação sexual, contra o genocídio que se faz contra Afeganistão, Iraque, e contra o povo Palestino? Por que não reagimos com a mesma força contra o terrorismo de Estado, os problemas da paz e da violência generalizada, a mundialização .ou globalização neoliberal, e a destruição constante e sistemática de nosso ecossistema, que compromete a vida para as futuras gerações.
Retomando as idéias de um clérigo de nossa Igreja Episcopal de Cuba, o Cônego Odén Marichal, poderíamos dizer que os pobres –sejam heterossexuais ou homossexuais- não têm tempo para discutir, nem estão interessados em discutir, as condutas sexuais das pessoas, nem se importam com seu sexo, porque estão envolvidos completamente na luta pela sobrevivência:  o que comer, onde viver, onde trabalhar, como vestir, como educar os filhos e as filhas, como sarar a família. ? Perguntaríamos aos que estão lutando para dar de comer aos famintos, ou de beber aos sedentos, ou vestir aos que estão sem roupas, se são homossexuais ou heterossexuais? [14]

Sendo anglicanos…?

Certamente penso, como já expressei anteriormente, que todo esse debate tem fortes e profundas implicâncias eclesiológicas, porque tem muito a ver com o “ser anglicano”, ou o chamado “espírito do anglicanismo”. Por isso, considero, também, que o que hoje ameaça mais o anglicanismo e sua pertinência e relevância como parte da Igreja de Jesus Cristo, não é se são ordenados presbíteros e diáconos, gays o lesbianas, porque sempre têm sido ordenados, -o que até o momento não se dizia e se ocultava pelo temor da repressão e da marginalidade- senão que os enfoques, as interpretações e a aproximações éticas, bíblicas e teológicas ao problema, deixam ver que o perigo real é uma afirmação da intolerância, os preconceitos, e as posições conservadoras dentro de nossa Comunhão, y conseguintemente, uma perda crescente do espírito inclusivo e liberal que historicamente tem caracterizado ao anglicanismo.
E quando afirmo que escrevo estes apontes a partir do espírito de diversidade e de compreensibilidade que historicamente tem caracterizado o “ser anglicano”, quero significar a pluralidade e a diversidade como uma unidade de fé e adoração, já reafirmada em Lambeth 1968, no meio das controvérsias sobre a ordenação de mulheres, e da compreensibilidade, também definida em Lambeth 1968 como uma atitude que os anglicanos têm aprendido através de todas as controvérsias de sua historia, e que demanda compromisso no fundamental e desacordo tolerante naquelas coisas que podemos diferir sem a necessidade de quebrar a comunhão.  Compreensibilidade que não significa necessariamente comprometimento, mas que implica que a apreensão da verdade é uma coisa que cresce, e que só poderemos “conhecer a verdade” gradualmente. [15]
Mas se fazemos um balanço do debate sobre a sexualidadeem nossa Comunhão, veremos que desde Lambeth 1888 tem sido um ponto de discussão e conflito.  A poligamia, o divorcio, o controle da natalidade, as relações sexuais pré-matrimoniais e o abuso sexual, têm sido temas de debate e discussões acirradas, assim como de posições divergentes e muitas vezes encontradas.  Mas, como já foi dito, nunca antes as discussões sobre a sexualidade humana no anglicanismo haviam tropeçado com uma questão tão polarizadora como no caso do debate sobre a orientação sexual.
Este assunto aparece pela primeira vez em Lambeth1978. Adeclaração desta Conferencia. estabelece a necessidade de um estudo profundo e desapaixonado das questões da homossexualidade, que tome seriamente tanto os ensinos das Escrituras como os resultados das investigações científicas e médicas.  Anima também Lambeth 1978 ao interesse pastoral e ao dialogo para com as pessoas de orientação homossexual Com relação ao debate sobre a orientação sexual Lambeth 1978 assinalou:
“Hoje não se espera que todos se conformem a uma norma –uma espécie de qualidade meia do ser humano- senão que se regozijem na diversidade. Assim, o status e os direitos dos homossexuais estão sendo reconsiderados.
A homossexualidade é poucas vezes entendida tanto pela igreja como pela sociedade. A pesar de muitas investigações, há uma grande diversidade acerca de sua natureza e causa.  Ainda algumas pessoas consideram-na uma distorção da sexualidade.  Mas a maioria dos homossexuais afirmam que são normais. Eles e elas não pedem simpatia, senão que seja reconhecido o fato de que suas relações homossexuais podem expressar amor mútuo e próprio para as pessoas envolvidas na relação, da mesma maneira que entre os heterossexuais.  Porém, a maioria dos cristãos e as cristãs não querem concordar com essa posição. Contudo, afirmamos que não haverá uma compreensão adequada da sexualidade, tanto na sociedade como um todo, como entre os cristãos, até que seja abordada a questão sem preconceitos e com compaixão.
As questões relacionadas com a homossexualidade são reconhecidamente complexas e observamos que estão sendo objeto de estudos sérios em algumas partes da Comunhão Anglicana.
É responsabilidade de cada uma das igrejas locais se converterem em comunidades afetuosas, centradas em Cristo e a Eucaristia, para que cada temperamento e cada tendência encontre sua verdadeira unidade e comunhão dentro da família total de Cristo, onde todos e todas são pecadores e pecadoras, mas onde todos e todas podem encontrar a graça e o perdão de Cristo na sua Comunidade acolhedora. [16]
Lambeth 1988 reafirma no fundamental a declaração de Lambeth 1978, mas reconhece, também, que há muita confusão no que diz respeito à sexualidade humana, e chama à.atenção para desenvolver um estudo mais abrangente sobre o assunto.  Também exorta levar em conta os fatores socioculturais que poderiam conduzir a diferentes atitudes nas províncias da Comunhão anglicana.  Além disso, volta a manifestar o interesse no cuidado pastoral das pessoas de orientação homossexual.
Uma comparação entre Lambeth 1978 e 1988 nós levaria a reconhecer que ambas Conferencias tratam o assunto com realismo e cautela e sentido pastoral, e, certamente, dentro do espírito anglicano de compreensibilidade, tolerância e respeito pela diversidade.  Nem Lambeth 1978, nem 1988 arriscam juízos precipitados ou absolutos.  Situam o tratamento do tema da orientação sexual dentro do espírito anglicano de aproximação às questões em discussão utilizando dialeticamente, ou seja, em inter-relação, as Escrituras, a Razão e a Tradição.
Por um lado, em Lambeth 1978 e 1988 não vemos uma leitura descontextualizada das Escrituras, simplesmente se faz uma apelo a tomar seriamente seus ensinos.  Por outro lado, falam de ter em conta a Tradição, quando chamam para fazer um estudo profundo e atual, e quando consideram importante os aspectos socioculturais, como se tinha feito anteriormente, com assuntos como a poligamia, o divorcio, e as relações pré-maritais.Além disso, exortam a ter em conta a Razão quando em ambas conferencias se manifesta a necessidade de considerar as investigações biológicas, genéticas e psicológicas.  Contudo, com Richard Harries temos que dizer que uma das principais críticas que deve ser feita aos documentos da Igreja sobre o particular é que sempre referem-se às pessoas de orientação homossexual como “eles” e “elas”, como “os outros” y “as outras”, ou “os estranhos”, “as estranhas”.  Tal parece como se tanto cristãos e cristãs heterossexuais ou homossexuais não foram juntos Corpo de Cristo, chamados e chamadas a se respeitarem mutuamente os pontos de vista de uns e outros, dentro do espírito cristão de amor e fraternidade. [17]
Porém, com Lambeth 1998 já a discussão sobre a orientação sexual toma outro espírito.  Em minha opinião, a declaração sobre a homossexualidade de Lambeth 1998, quando afirma “que as praticas homossexuais são incompatíveis com as Escrituras”, e “não aconselham a ordenação de aquelas pessoas que participem de uniões de um mesmo sexo”, se afasta completamente do espírito mesurado, sensato, compreensivo, pastoral e aberto ao diálogo das duas Conferencias anteriores.
Lambeth 1998 já não chama ao estudo serio das Escrituras, nem a considerar os estudos biológicos, psicológicos e genéticos, nem ter em conta os fatores culturais, nem continuar os estudos do assunto nas diferentes províncias da Comunhão.  Em Lambeth 1998 as Escrituras são descontextualizadas e não são usadas, senão que são “mal usadas” para justificar a exclusão e a marginalidade, neste caso, das pessoas homossexuais, utilizando textos tirados de seu contexto cultural e religioso, dando as costas fingindo não ouvir o melhor e mais atual dos princípios hermenêuticos da ciência bíblica contemporânea.  Mas essa falsa e errada aproximação às Escrituras –fundamentalista, conservadora e literalista- é altamente perigosa, porque poderia utilizar-se também hoje para justificar outras exclusões e marginalidades, como por exemplo, a marginalidade das mulheres, -se são tomados certos textos paulinos tirados de seu contexto-, e contribuir sobre tudo, para legitimar os falsos messianismos políticos, que utilizando um disfarce religioso, ameaçam a paz e a fraternidade inter-humanas.  Em minha opinião Lambeth 1998 parece fazer-nos voltar aos tempos quando eram usados textos bíblicos isolados para justificar a exploração de nossos indígenas americanos, ou para justificar a escravidão dos milhares de pessoas negras que foram desarraigados de seus lares africanos para construir as riquezas dos colonizadores.
Também em Lambeth 1998, quando discute a temática da homossexualidade, não vemos já o tradicional apelo anglicano à Tradição e muito menos à Razão.  Não há mais compreensibilidade, não há mais respeito à diversidade, não há mais respeito pela pluralidade cultural da nossa Comunhão.  Já não há mais nada a ser discutido, já não há nada a ser estudado, já tudo está dito.  Lambeth 1998 clausura dogmaticamente qualquer estudo sobre o particular, fecha o diálogo. E caberia a nós perguntarmos, forma isso parte do espírito cristão e anglicano?
E quando fazemos um balanço de Lambeth 1998 certamente poderíamos também nós perguntarmos:  O que está ficando de uma igreja que tem sido reconhecida como “a Igreja ampla” (broad church), “a casa mais espaçoso e a Igreja mais flexível na Cristandade”, “a Igreja da integração e a reconciliação”.  O que tem ficado da “mutua responsabilidade e interdependência no Corpo de Cristo”, proclamada no Congresso Anglicano de Toronto, 1963, que afirma a missão da Igreja ao mundo a partir da nossa pluralidade e diversidade cultural?  E isso, em minha opinião tem sido o mais lamentável, e constitui o verdadeiro perigo para nossa Comunhão.  Porque dessa maneira tem-se afirmado as bases e o precedente para que o espírito de intolerância e o abandono ao respeito à diversidade e à pluralidade anglicana, não somente ao discutir o assunto da orientação sexual, senão de qualquer assunto controvertido.
E retomando as idéias do Cônego Odén Marichal, poderíamos dizer, que ninguém pense que Jeffery John ou Gene Robinson são os primeiros Bispos homossexuais nomeados e/ou sagrados.  Talvez sejam os primeiros que admitiram publicamente sua orientação homossexual.  E seria impossível dizer, nem sequer aproximadamente, quantos bispos, presbíteros e diáconos, gays ou lesbianos, têmem nossa Comunhão Anglicana.
Poderia parecer, continua refletindo o Cônego Marichal, que para a Igreja o pecado não é que sejam homossexuais ou lesbianas, senão que o tenham admitido publicamente.  Parece que o que ofende não é que sejam homossexuais, senão que falem que são.  Então o assunto seria: mentir não é pecado, o pecado é dizer a verdade. Enquanto todo esteja na penumbra do âmbito secreto não há problema: se eu não sei nada, nem outros sabem o que eu sei, não o sabe a Igreja, e não o sabe Deus.
Lambeth 1998 fala de não ordenar “pessoas que participem de uniões do mesmo sexo”, mas com relação a esta temática também é aguda a apreciação do Cônego Marichal: Vamos depor do ministério aos homossexuais e lesbianas que, já pelo temor de não ser ordenados, ou pela pressão da discriminação, ao tempo de sua ordenação não foi dito e formam hoje parte do ministério ativo da Igreja? O sabemos ou podemos imaginar-lo, mas indulgentemente ficamos calados, porque são nossos amigos e nossas amigas, ou são boas pessoas ou são muito capazes. Então, vamo-los e vamo-las a deixar? E se fazemos isso, por que os que chegaram primeiro ocultando-o sim, e os que não o ocultaram não? Valeu mais a ocultação que o fato da honestidade?
Certamente essas perguntas devem fazer-nos pensar seriamente até onde pode levar-nos a intolerância e a falta de visão.  E poderíamos colocar muitas mais perguntas: Será que vamos afirmar uma dupla moral com relação ao assunto da orientação sexual? E que palavra pastoral teremos para com os gays e lesbianas que todos os domingos sentam-se nos bancos de nossas igrejas? Serão tratados como “os outros e as outras”, “os estranhos e as estranhas”, parte dos excluídos de hoje que Jesus em seu tempo teria convidado ao banquete do Reino (Mt 14,15-24)? O será também que vamos desatar uma “caça de bruxas” e agora também “caça de bruxos”, ao estilo dos processos de heresia da inquisição medieval? Com relação a isto último, diz a teóloga norte-americana Rosemary Radford Ruethe, que ainda que a heresia já não seja uma categoria oficial, as visões contemporâneas da homossexualidade ainda conservam grande parte dessa paranóia cristã clássica. [18]
E não devemos nos enganar, o assunto da homossexualidade é uma realidade, é um fato. Temos tanto no ministério ordenado como nos bancos das nossas congregações pessoas heterossexuais e homossexuais, mas todos e todas, juntos e juntas, somos Corpo de Cristo. E todas as partes do Corpo são dignas e merecem respeito e consideração. (1 Cor 12,12-30). Então, com as atitudes intolerantes, excludentes e marginalizastes, o que se pretende silenciar ou ignorar?

Ser cristãos anglicanos no começo do século XXI

Tem sido dito que não vivemos em uma época de mudanças, senão em uma mudança de época. Por um lado, nosso mundo cada vez é mais plural e diverso.  Por outro lado, vemos a miséria, o sofrimento e a morte, a que a violência, as guerras e, e as estruturas socialmente injustas estão levando aos setores cada vez maiores da população mundial.  A tudo isto se acrescenta a devastação da natureza, que ameaça a sobrevivência em nosso planeta para as futuras gerações. E como cristãos anglicanos devemos viver à altura dos novos tempos. No meio da violência generalizada, da globalização da exclusão e a exploração, da devastação de nosso lar natural, as igrejas e as religiões em geral têm a responsabilidade de contribuir a desenvolver uma cultura de paz e solidariedade e reconciliação, devemos, primeiro aprender a viver essa cultura dentro de nós mesmos, evitando que a intolerância religiosa seja uma fonte de divisões, conflitos e exclusões na sociedade civil, afastando a atenção dos graves problemas que nós afetam.
A lição que como anglicanos devemos tirar de todo esse debate sobre a orientação sexual, é que se faz uma urgência para nós repensarmos nossa eclesiologia.  Assim, devemos repensar o que significa “ser anglicano”, para recuperar o que em minha opinião poderia se perder: o espírito anglicano.  Vamos pensar seriamente os grandes problemas da humanidade; deixemos que cada Província da nossa Comunhão assuma suas próprias opções, nesse caso, sobre a orientação sexual, tento em conta suas características culturais, sem rejeitar-nos, nem excomungar-nos mutuamente.
Por isso, quando se quere afirmar a tendência à anatematização e à demonização “do outro e da outra”, é preciso, nessa recuperação do “ser anglicano”, que também recuperemos e assumamos em seu verdadeiro sentido uns de nossos mais apreciáveis princípios: “a via média anglicana”.  Esse princípio, que tem sua origem no pensamento de Richard Hooker, é retomado no século XIX pelo Movimento de Oxford, no meio das graves e profundas tensões que passou a Igreja de Inglaterra, nas controvérsias entre as tendências protestantes e romanistas. E será a partir desse momento que a “via média anglicana” afirma-se como o princípio fundamental da unidade e da identidade anglicana.
Mas a “via média anglicana” não é, como muitos anglicanos pensam, ser uma “igreja ponte”, porque o Movimento de Oxford reagiu tanto contra Roma como contra os protestantes puritanos. A “via média anglicana” não é uma vitrine para os de afora, nem para convencer aos outros que somos muito moderados, porque não podemos ser moderados para o exterior e extremistas na casa. A “via média” é um movimento para a unidade, porém, não é um compromisso para conciliar duas partes em discrepâncias, senão que é um método para compreender a diversidade dentro de nós mesmos, com respeito e ética; é ser mais amplos, flexíveis, respeitosos e éticos para com as outras pessoas e suas idéias. [19]
Finalmente gostaria terminar com uma anedota que resulta pertinente na temática que temos estado desenvolvendo.
Um homem ocidental estava colocando flores no túmulo de um parente, quando vê um chinês que estava colocando um prato de arroz no túmulo vizinho.
O homem ocidental perguntou para o chinês:
“Você me desculpe senhor, você acredita que seu defunto vai chegar para comer o arroz”. 
 “Sim, respondeu o chinês quando o seu venha a cheirar suas flores”.
A moral da historia seria: Respeitar as opções do outro e da outra é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter. As pessoas são diferentes, atuam diferente e pensam diferente. 
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[1] Veja o trabalho de John Boswell, Christianity, Social Tolerance and Homosexuality – Gay People in Western Europe from the Biginning of the Christian Era to the Fourteenth Century, The University of Chicago Press, Chicago and London, 1980; também o livro de Daniel A. Helminiak, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Editorial EGALES, Barcelona/Madrid, 2003, (original em Inglês What the Bible really says about homosexuality, Alamo Square Press, San Francisco, 1994); também a coleção de artigos editados por James B. Nelson y Sandra P. Longfellow, no livro, La sexualidad y lo sagrado, Desclée De Brouwer, Bilbao, 1996.
[2] “O Quadrilátero de Chicago” de 1886; “Declarações de Fé e ordem de 1949 da Convenção Geral de Igreja Episcopal nos Estados Unidos de América; artigo IV de “Os Artigos da Religião”; e finalmente “O Quadrilátero de Lambeth de 1888.
[3] Artigo VII de “Os Artigos da Religião”.
[4]ArtigoXX, idem.
[5] Frederichk Houk Borsch, “All Things Necessary to Salvation”, en, Anglicanism and the Bible,MorehouseBarlow,Wilton,Connecticut, 1984, p.211.
[6] Lv18,22 y20,13; Rm1,27; 1 Cor 6,9 y 1 Tm1,10. Ainda que muitas vezes pretendeu-se utilizar também o texto de Sodoma e Gomorra (Gen 19), neste texto, ainda interpretado literalmente, refere-se ao sexo com “anjos”, “mensageiros” de Deus. Por outro lado, não existe um só texto bíblico que fale expressamente do sexo entre mulheres.
[7] Daniel A. Helminiak, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Op. cit., p.237. Veja, também a bibliografía da nota 1.
[8] Veja-se a interpretação que Daniel A.Helminiak faz da cura do escravo do centurião em, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Op. cit., p.227-231.
[9] Rt.Revd.Richard Harries, “Presentation on Human Secuality Anglican Consultative Council X, Panamá City, 1996”, em: Being Anglican in the Third Milleniun, compiled byJames M.Rosenthal and Nicola Currie, Morehouse Publishing, USA, 1997, p.61.
[10] L. William Countryman, “Ética sexual del Nuevo Testamento y mundo actual”, em, La sexualidad y lo sagrado, Op. cit., p.73.
[11] Jorge A. León. Apuntes para una teología de la sexualidad, Psicopastoral, CristianNet.com, 2001.
[12] Abel Sierra Madero, “La policía del sexo – La homofobia durante el siglo XIX en Cuba”, en: Sexología y Sociedad,La Habana, Año 9, No.21, Abril de 2003.
[13] John S. Spong. Prólogo ao livro de Daniel A. Helminiak, Lo que la Biblia realmente dice sobre la homosexualidad, Editorial EGALES, Barcelona/Madrid, 2003. (versão original em inglês, What the Bible really says about homosexuality, Alamo Square Press,San Francisco,CA, 1994.
[14] Odén Marichal, Reitor da Paróquia Episcopal de “Fieles a Jesús”, Matanzas, Cuba e Professor no Seminário Evangélico de Teologia de Matanzas, Cuba, “La sexualidad humana en la Comunión Anglicana – Abriendo la Caja de Pandora en torno a un debate”. (Distribuído eletronicamente).
[15] The Lambeth Conference 1968,S.P.C.K.andSeabury Press,London andNew York, 1968.
[16] The Lambeth Conference 1978. S.P.C.K.,London, p.64-65.
[17] Rt.Revd.Richard Harries, “Presentation on Human Secuality Anglican Consultative Council X, Panamá City,1996”, Op. cit., p.55-66.
[18] Rosemary Radford Ruether, “Homofobia, heterosexismo y práctica pastoral”, em, La sexualidad y lo sagrado, Op. cit., p.585.
[19] Véase “La vía media”, em,  Carta Pastoral, Parroquia de Fieles a Jesús, Matanzas, Cuba,28 de dezembro de 2003 e4 de janeiro de 2004, (distribuída eletronicamente).
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