APRESENTAÇÃO

Textos e silêncios pretende ser um espaço reflexivo ecumênico, fundamentalmente voltado para a vida concreta das pessoas a partir de textos e livros, mas também do caminhar contemplativo e meditativo, da vivência amorosa e solidária dos que, de alguma forma, partilharam comigo suas vidas, dores, sofrimentos e esperanças. A eles - e a vocês - devo a minha vida, o olhar que desenvolvi de existência e a experiência cristã do encontro com o Cristo servidor que nos salva. A eles sou devedor, minha eterna gratidão.

sábado, 18 de agosto de 2012

Manifesto de Apoio ao povo Xavante de Marãiwatsédé


Manifesto de Apoio ao povo Xavante de Marãiwatsédé

Terça-feira, 14 de agosto de 2012 - 21h01min
"Aguardamos ávidos a comunicação de que Marãiwatsèdè regressou aos seus verdadeiros donos: o povo A'uwe Uptabi ou Povo Xavante como são mais conhecidos", afirma Manifesto da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) sobre  a devolução da Terra Indígena Marãiwatsédé, no nordeste de Mato Grosso aos povos Xavantes.
Eis o manifesto.
O conflito vivido pelo povo Xavante da Terra Indígena de Marãiwatsèdè tornou-se um caso emblemático de violação aos direitos humanos e da truculência praticada pelo Estado e pelos invasores contra os povos indígenas em Mato Grosso e no Brasil.

Essa violação se delonga desde a década de 60 quando o território dos Xavante fora ocupado pela Agropecuária Suiá-Missú (o maior latifúndio do mundo na época). Nesse período os indígenas foram transferidos para a Terra Indígena São Marcos, na região sul de Mato Grosso, e por lá permaneceram cerca de 40 anos, posteriormente, a fazenda foi vendida para a petrolífera italiana Agip. Durante a Rio 92 a empresa italiana foi pressionada a devolver aos Xavante seu território de origem. 

De acordo com a Funai em 1992 (quando começaram os estudos para a demarcação da Terra Indígena Marãiwatsèdè a área passou a ser ocupada por invasores). Mesmo sem o amparo do Estado os guerreiros Xavante retornaram ao seu território e vivem atualmente espremidos em apenas 10% da área homologada em 1998 (com 165.241 hectares) de posse permanente e usufruto exclusivo desse povo. Os 90% restante do território, atualmente, está tomado ilegalmente por fazendeiros e invasores, majoritariamente, criadores de gado e produtores de soja que exaurem o ambiente, acuam e ameaçam os indígenas.

Vivendo as margens do seu território e das políticas públicas os indígenas aguardam fazer valer seus direitos. Sucessivos recursos jurídicos foram tomados para que Marãiwatsèdè volte a ser ocupada pelos primeiros habitantes: o povo Xavante. Recentemente, esse direito foi definitivamente reconhecido pela Justiça Federal de Mato Grosso que homologou o plano de desocupação de não índios da região.

Resumidamente, a referida decisão judicial do processo nº 2007.36.00.012519-0, determina que:

- A FUNAI em um prazo de 48 (quarenta e oito) horas (a partir do dia 31/07) forneça a lista dos ocupantes, não-índios, identificados em Marãiwatsèdè, bem como, informe a data de início do processo de desintrusão, cujo prazo não poderá ser inferior a quinze dias à comunicação a ser feita a este juízo;

- Conhecida a data de início da desocupação, oficie-se de imediato, com prazo não inferior a 10 (dez) dias, à Polícia Federal e à Força Nacional de Segurança, para que prestem auxílio total e irrestrito durante todo o processo de execução da desintrusão;

- Mandados de desocupação da área indígena, com prazo de trinta dias, mantendo-se na área de domínio da UNIÃO somente os índios, conforme já decidido por este juízo.

Na luta por justiça ambiental, a Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) e o Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso (FDHT) vêm a público manifestar seu irrestrito apoio ao povo Xavante de Marãiwatsèdè, solicitar que os prazos sejam rigorosamente cumpridos, e, sobretudo, que a segurança e a dignidade dos indígenas sejam garantidas durante o processo de desintrusão. Aguardamos ávidos a comunicação de que Marãiwatsèdè, regressou aos seus verdadeiros donos: o povo A'uwe Uptabi ou Povo Xavante como são mais conhecidos.


Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso (FDHT-MT)
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

Lugo foi destituído porque buscava a justiça social


CEBI

Lugo foi destituído porque buscava a justiça social

Terça-feira, 14 de agosto de 2012 - 21h05min
O bispo paraguaio Mario Melanio Medina, uma das figuras mais influentes da Igreja católica, disse ontem que a destituição do presidente constitucional, Fernando Lugo, aconteceu porque ele buscava a equidade social no país.
Medina, bispo dos departamentos de Misiones e Ñeembucú, durante sua homilia dominical, afirmou que o ocorrido foi um golpe parlamentar e que tiraram o mandatário de seu cargo por desejar lutar em favor dos pobres. 

Ele acrescentou que os autores do golpe puseram em seu lugar Federico Franco, que não fará nada "porque estará atado com o capitalismo, a estrutura parlamentar e com os que têm o poder econômico".

Destacou que o capitalismo coloca rótulo sobre aqueles que protestam e buscam a igualdade social e os acusam de comunistas, socialistas ou esquerdistas.

Durante a celebração, fez menção ao isolamento internacional do atual governo e expressou que, devido à conjuntura atual, dias difíceis virão, sendo necessário estar preparados. Este governo não é reconhecido pelos países do Mercosul e por muitos outros, em nível mundial, e como agora vivemos na globalização, é importante a cooperação das nações estrangeiras, disse Medina.

Em outra parte de sua manifestação, investiu contra o Congresso, autor do julgamento político de Lugo, e advertiu que o governo de Franco seguirá de tropeço em tropeço porque o Parlamento não responde ao Executivo e atua em favor de seus próprios interesses.

O Paraguai e a América Latina estão entre dois modelos: o que busca a igualdade social e o capitalismo, que somente quer aglutinar fortuna, sendo que a situação dos pobres não o interessa em absolutamente nada, expressou finalmente.
A reportagem é publicada pelo sítio Religión Digital. A tradução é do Cepat.

Politica de alianças


Política de alianças: entre a necessidade e os limites

Terça-feira, 14 de agosto de 2012 - 21h08min
A campanha eleitoral deste ano está nas ruas. Perplexa, a opinião pública assistiu às alianças partidárias feitas para as próximas eleições municipais. A revista IHU On-Line desta semana discute a necessidade e os limites, também necessários, das alianças políticas. Contribuem no debate Luiz Werneck Vianna, Roberto Romano, Renato Janine Ribeiro, Maria Victoria de Mesquita Benevides, Marco Aurélio Nogueira, José Antonio Spinelli e Jairo Nicolau.

Dá para pensar a política eticamente sim ou não?
Para Renato Janine Ribeiro, a questão de os partidos não terem exatamente uma identidade indica o fato de que uma boa parte do eleitorado também não tem
Por: Graziela Wolfart e Patricia Fachin
Antes de analisar a conjuntura política atual, é fundamental que se entenda um pouco das bases teóricas e fundantes de nosso sistema político, partidário e eleitoral. E esta é a contribuição que o filósofo Renato Janine Ribeiro oferece na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. Em sua percepção, temos um sistema no Brasil "em que dois partidos estão firmes, correspondem a anseios, desejos, projetos. Esses dois partidos são os líderes da política brasileira, um de cada lado: o PT e o PSDB. Há 18 anos esses dois partidos se alternam no governo federal. São partidos que expressam algo". Ao argumentar sobre a complexidade do conceito de política, Janine Ribeiro aponta que "uma característica atual muito forte da maneira de pensar a política é vê-la de forma indecente. Há um descontentamento ético hoje com a política democrática e talvez esta seja a principal decepção popular com a política, o que nos impõe um grande desafio em nossos dias: dá para pensar a política eticamente sim ou não?". O professor também reflete sobre os rumos de PT e PSDB e sobre a subordinação da política à economia: "vejamos o governo Lula: foi um governo de distribuição de renda, mas não de redistribuição de renda. Não foi um governo que tirou dos ricos para dar aos mais pobres, o que seria inteiramente lícito. Foi um governo que conseguiu, com o aumento do PIB brasileiro, dar uma parte maior do que foi aumentado para os mais pobres. Mas não houve um enfrentamento do capital. Nesse sentido, podemos dizer que até 2002 havia mais partidos e políticos no Brasil enfrentando o capital do que temos hoje".
Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo, na qual se doutorou após defender mestrado na Sorbonne, Renato Janine Ribeiro tem se dedicado à análise de temas como o caráter teatral da representação política, a ideia de revolução, a democracia, a república e a cultura política brasileira. Entre suas obras destacam-se A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 2000) e A universidade e a vida atual - Fellini não via filmes (Rio de Janeiro: Campus, 2003). Renato Janine Ribeiro é desde 2004 diretor de avaliação da Fundação Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior, órgão do Ministério da Educação).

As alianças políticas, absolutamente necessárias, e seus limites
Werneck Vianna defende que as alianças feitas no presidencialismo de coalizão não servem para que uma determinada orientação seja posta em prática, ou um determinado programa se viabilize, mas apenas para garantir maioria parlamentar para o governante
Por: Graziela Wolfart
Na visão do sociólogo Werneck Vianna, a ampla maioria que hoje o chefe do Executivo tem conseguido lograr no Legislativo tem dado estabilidade à política brasileira. "Mas é uma estabilidade que não faculta a aventura, o risco, a descoberta, a inovação. Certas reformas muito necessárias para que o país dê um avanço, um salto, esbarram nessa larguíssima coalizão que atinge várias dimensões, desde a economia e a política até a sociedade. Os ventos cruzados que se estabelecem no interior da coalizão governamental fazem com que haja um comportamento paquidérmico do governo, que é obrigado a respeitar os limites dados por essa amplíssima base governamental, onde todos cabem e onde tudo cabe". Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line Werneck afirma que o sistema partidário brasileiro "não foi feito para que a sociedade encontre formas expressivas de se incluir no mundo da política. Ele está feito para expressar interesses e diferenças regionais; não é um quadro que favoreça a limpeza e a firmeza de identidade. Ele está voltado para uma grande competição eleitoral. Isso certamente não oferece um bom cenário para a democracia política brasileira". E constata: "estamos vivendo um momento em que os efeitos dessa política de presidencialismo de coalizão começam a se tornar cada vez mais complicados".
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012) (mais informações emhttp://bit.ly/IVmpmg).

"Somos absolutistas anacrônicos. Vivemos sempre sob o regime do favor, dos privilégios, da não república"
Para Roberto Romano, alianças importam, em qualquer hipótese, na luta pelo poder. Mas se elas impedem as mudanças propostas no programa partidário, "temos o realismo de fancaria que sequer merece o epíteto de maquiavelismo"
Por: Graziela Wolfart
Segundo a reflexão do professor da Unicamp, Roberto Romano, "nossos partidos políticos seguem o interesse maior dos líderes nacionais e regionais. Eles julgam não ter explicações a dar para a militância de base. Numa reforma política verdadeira, algumas determinações seriam estratégicas, como a proibição de líderes ficarem nas direções por mais de quatro anos, a exigência de consulta primária aos eleitores dos partidos quando das eleições (escolha dos candidatos, alianças, etc.). E nada falamos, por enquanto, das máquinas eleitoreiras, os partidos ditos ‘nanicos'. Eles são propriedade privada de um ou dois políticos e se vendem (na verdade, vendem seu minuto de propaganda gratuita) em troca de cargos, favores, etc.". Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Roberto Romano acrescenta que a "dita burguesia progressista sempre decepcionou as esperanças dos seus aliados: ela sempre optou pelo lucro, pelos golpes de Estado, pela ruptura com a tênue democracia. A lição de 1964 cabe no quadro. No interior do partido ‘revolucionário', pobre de quem se levantasse contra a política ‘realista' de alianças!". Para ele, as "alianças ‘pela governabilidade' assumidas pelo PT (Sarney, Lobão, ACM e agora Maluf) adiaram, sem prazo de recomeço, a luta do petismo pela justiça no Estado e na vida social". E sobre a foto de Lula com Maluf, um símbolo recente da política de alianças em nosso país, Roberto Romano dispara: "Temos nos dois elementos o retrato impiedoso da prática realista". E conclui: "o resultado está na foto: venceram os contrários ao ‘principismo', ou seja, os alérgicos aos valores éticos, programáticos, socialistas, etc.".
 
Roberto Romano cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, na França, e é professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Escreveu, entre outros, os livros Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979),Conservadorismo romântico (2ª ed. São Paulo: Ed. Unesp, 1997) e Moral e ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: Senac Ed., 2002).
Eis a página em que está a entrevista..

E encheu de bens os famintos


CEBI

E encheu de bens os famintos... (Lucas 1, 39-56)

Segunda-feira, 13 de agosto de 2012 - 11h03min
por Ildo Bohn Gass - Formação CEBI
Para muitas igrejas, a Palavra evangélica proposta para a liturgia do próximo final de semana é a visita de Maria a Isabel (Lucas 1,39-56), que faz parte dos relatos da Infância de Jesus segundo Lucas (Lucas 1-2). Essas narrativas, mais do que dizerem como os fatos aconteceram, indicam para realidades mais profundas que iluminem a caminhada das comunidades a quem se destinam. Em resumo, o primeiro capítulo do Evangelho da Infância mostra como é reconhecida a ação de Deus em meio ao povo excluído, mas cheio de esperança, representado por Zacarias, Isabel e Maria. Dois eram idosos, uma era estéril e a outra ainda não havia tido relações sexuais com homem. Portanto, eram pessoas de quem não se esperava que pudesse nascer vida nova, que pudessem dar à luz uma criança.
A narrativa proposta pode ser dividida em três momentos. O primeiro descreve a ida de Maria à casa de Isabel e de Zacarias, próxima de Jerusalém (Lucas 1,39-41), uma caminhada de mais de 100 km. De um lado, essa saída de casa faz-nos lembrar de tantas jovens que também precisam deixar seus povoados quando engravidam, a fim de encontrar apoio em familiares que moram distante. De outro lado, quando foi chamada para ser a mãe do Messias, Maria havia se disponibilizado para estar a serviço da Palavra de Deus (Lucas 1,38). Agora, ela já está a caminho para servir, para ser solidária com outra mulher, também grávida. É a solidariedade entre as mães que reconhecem em seus corpos o agir do Espírito divino, pois ambas receberam a graça da fecundidade de forma misteriosa. Mas não é somente o encontro de duas mulheres. É também o encontro de duas crianças ainda no útero de suas mães. É o encontro do Precursor com o Salvador. João alegra-se com a visita de Jesus (Lucas 1,41). Ainda no ventre materno, já aponta para seu primo como aquele que vem socorrer o seu povo num momento de forte repressão do império romano.
A segunda parte desta narrativa é a saudação que Isabel faz a Maria (Lucas 1,42-45). Impulsionada pelo Espírito, a mãe de João Batista reconhece Maria como a mãe do Messias. Ao mesmo tempo em que elogia a sua fé (Lucas 1,45), a declara abençoada, bem-aventurada, assim como o fruto do seu ventre (Lucas 1,42). Essa saudação faz lembrar outras mulheres que também foram chamadas de benditas. São os casos de Jael (Juízes 5,24) e de Judite (Judite 13,18), ambas libertadoras de seu povo ameaçado por exércitos poderosos. Em Lucas 1,56, podemos ler que Maria ficou três meses com Isabel. Mais uma vez, os autores do texto fazem memória das Escrituras de Israel e querem nos apresentar Maria como a nova Arca da Aliança, pois em seu útero carrega o Emanuel, o Deus que está em nosso meio. É que, da mesma forma como Maria ficou os três meses com Isabel, também a antiga Arca da Aliança havia ficado durante três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,2-11; cf. v. 11). Em outras palavras: os representantes da antiga Aliança, Zacarias (Javé se lembrou) e Isabel (Deus é plenitude), reconhecem a ação de Deus em Maria (a amada) e Jesus (Javé salva), representantes da nova Aliança. João (Javé é misericórdia) anuncia que a misericórdia de Deus na antiga Aliança vem se realizar plenamente em Jesus de Nazaré. Por isso, seus pulos de alegria no ventre de Isabel (Lucas 1,41.44), acolhendo o novo que está por nascer.
A terceira parte do relato é a reação de Maria à saudação de Isabel, é o cântico de Maria conhecido como Magnificat (Lucas 1,46-55). Ele está recheado de memórias da história de Israel, especialmente do canto de Ana, a mãe do profeta Samuel (1 Samuel 2,1-10). Entre outros textos, recorda também a profecia de Sofonias em favor dos pobres de Javé, o resto fiel a Deus (cf. Sofonias 2,3; 3,11-13).
Maria é a legítima representante de todos os pobres que têm esperança. Da mesma forma como o profeta Habacuc (Hab 3,18), ela percebe a presença de Deus e se alegra com sua grandeza (Lucas 1,46-47). E o motivo dessa alegria é que, tal como na experiência libertadora do Êxodo (Êxodo 3,7-8), Deus viu a humilhação dos pobres e exerce sua misericórdia para com eles, estando a seu lado para libertá-los (Lucas 1,49-50; Salmo 103,17).
Qual é a força capaz de promover essa libertação? É a força do braço de Deus, isto é, a força de sua justiça, que consiste e um projeto revolucionário que subverte relações desiguais. Se antes os poderosos humilhavam os pobres a partir de seus tronos, agora os famintos são exaltados e comem pão com fartura (Lucas 1,51-53). Mais que ser uma mulher submissa e alienada dos conflitos sociais de seu tempo, Maria é uma mulher de luta pela igualdade e pela superação de todas as injustiças. Ela é subversiva porque subverte as relações de humilhação propondo a acolhida e a igualdade. Não é por acaso que seu filho seguiu os passos dela nesse caminho. É no engajamento pela superação de todas as formas de opressão que revelamos a misericórdia divina em nossa prática. A justiça de Deus se revela em seu agir na defesa dos fracos e contra todos os sistemas que os oprimem, sejam eles políticos ou econômicos, culturais ou religiosos. Nesse agir libertador se manifesta a aliança fiel e misericordiosa esperada desde as origens do povo hebreu (Lucas 1,54-55; Miqueias 7,20).
O Magnificat celebra a esperança na realização da vontade de Deus que liberta. E mais. Convida a todas as pessoas discípulas de Jesus a nos juntarmos a Maria para colocar-nos a serviço desse projeto de Deus, de modo que também em nós se realize a sua Palavra (cf. Lucas 1,38). A ação divina em Maria foi possível por que ela acreditou (Lucas 1,45), ela deu a sua contribuição, colocando-se a serviço de Deus na solidariedade. Mais adiante, quando uma mulher também declarara Maria feliz, Jesus dirá a ela que "felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática"(cf. Lucas 11,27-28). E essa bem-aventurança soa forte para nós ainda hoje.

Sete anos sem Roger, da comunidade de Taizé


Sete anos sem o irmão Roger, da Comunidade de Taizé

Sexta-feira, 17 de agosto de 2012 - 11h18min
"O irmão Roger foi um visionário, um grandíssimo homem de Deus que não se importava com adjetivos, mas com a pessoa", destaca Jesús Bastante, que teve a oportunidade de conhecê-lo. 

Eis o artigo.
Hoje, completa sete anos que o irmão Roger Schultz (foto), fundador da Comunidade de Taizé, morria apunhalado por uma jovem romena na Igreja da Reconciliação, da pequena localidade francesa, berço do ecumenismo após a Segunda Guerra Mundial, e que hoje une milhares de jovens (e não jovens), de todo o mundo, em torno da mesma fé.
O irmão Roger foi um visionário, um grandíssimo homem de Deus que não se importava com adjetivos, mas com a pessoa. Tive a oportunidade de brevemente entrevistá-lo pouco antes da morte de João Paulo II, e ficou a impressão de que me encontrava diante de um desses profetas de nosso tempo, capaz de romper barreiras e ficar com o essencial. Um religioso protestante que foi capaz de comungar das mãos de Bento XVI ou confessar ao patriarca ortodoxo Atenágoras. Um cristão sem mais argumentos a não ser os do próprio Cristo. Um exemplo a ser seguido por todos, muito preocupados em ocasiões pela pureza no cumprimento das normas, e não tanto pela clareza do coração.

No dia 20 de agosto de 1940, depois da derrota do exército francês e da ocupação de parte da França, pelo exército alemão, Roger Schultz se estabeleceu em Taizé (Borgonha). Nesse local, viveu até sua morte, com uma interrupção de dois anos, em que durante a Segunda Guerra Mundial se refugiou na Suíça, já que tinha que temer a perseguição da Gestapo por ter escondido, em seu domicílio, judeus e opositores da ocupação alemã na França. Depois da libertação da Borgonha, em 1944, voltou para Taizé, junto com três companheiros, se ocupando com os órfãos de guerra, como também de prisioneiros de guerra, o que trouxe a apreensão dos vizinhos. 

Em 1949, sete homens deste círculo, entre eles Roger Schultz, como prior, comprometeram-se a viver o celibato e a pobreza. Hoje em dia, esta comunidade é integrada por mais de cem irmãos ortodoxos, protestantes e católicos, provenientes de vinte e cinco países, vivendo apenas de seu trabalho (olaria, edição de livros religiosos). Não aceitam doações. 

Sempre é um bom momento para retornar a Taizé e orar junto com a Igreja da Reconciliação, onde paradoxalmente o irmão Roger foi assassinado. Seu sangue, como sua vida, não foram em vão, e nos compromete, como se comprometeu o próprio Cristo, a deixarmos a vida pela unidade, pelos demais, por aqueles que têm o rosto de Deus por trás de si.
O artigo é publicado pelo sítio Religión Digital.

Cartas da vida


Cartas da vida, cartas que nos desafiam a viver junto, sem julgamentos e verdades dogmáticas, sem escutas e encontros que produzam vida e harmonia. Desafios para um cristão que queira seguir os passos do Mestre.

CEBI

Cartas da Vida - cavar túneis e construir sentido

Sexta-feira, 17 de agosto de 2012 - 14h25min
Aprender a ler e escrever as ruas de Salvador, Bahia: este é o desafio de Fernanda Priscila Alves da Silva. Uma escrita real com as cores do dia a dia de mulheres em situação de prostituição. A realidade destas mulheres tal como de muitas empobrecidas é desafiante e difícil, mas também marcada pela ousadia e garra, tão presentes na vida das pessoas empobrecidas do mundo.
Vamos dar uma volta pelo Pelourinho. Vamos observar os corpos que passam por nós: mulheres, crianças e homens à margem. Andando pela Ladeira da Montanha, Conceição, Calçada, Comércio, encontramo-nos com mulheres inseridas em contexto de prostituição. E é neste lugar que nossa missão acontece.
A metodologia da escuta e da escrita do lugar e suas gentes vai traçando a geografia no Centro Histórico Pelourinho e adjacências, área comercial e ao mesmo tempo turística e residencial e vai apresentando personagens da população de baixa renda, assim como muitas mulheres exercendo a prostituição em casarões e hotéis insalubres, sem nenhuma infraestrutura. Ao mesmo tempo que conhece, identifica e analisa Fernanda nos desafia com o silêncio: silenciar para escutar verdadeiramente o que a outra/o outra quer dizer, mesmo que não diga. O silêncio se compromete com a atenção: olhar com carinho! nunca com julgamentos!
Sábado à tarde: Fernanda anota porque vive.  Encontro de mulheres e homens... Gente buscando vida... Gente gestando sonhos. Gente de movimento e em movimento. Era sábado e naquele salão de reunia o movimento de população de rua... Mas o movimento não estava só, havia outros grupos, outros corpos em movimento dançando a dança da luta, dança do compromisso, dança da utopia, os catadores e catadoras de papel também se faziam presentes e a força feminina trazia seu encanto e gingado. Sábado de conflitos: anota aí os relatos de violência policial, de disputa entre os homens e mulheres pobres, entre fracos e fortes!
Fernanda anota o difícil processo de construção de objetivos comuns de defesa da população de ruas, em especial mulheres em situação de prostituição. O direito e a justiça tecidos de ambivalência e ambiguidade:
O mundo da prostituição traz ambiguidades que nos fazem repensar a vida, repensar paradigmas, modelos, formas, jeitos de fazer e construir o cotidiano. Nestas ambiguidades, encontramos mulheres luas, mulheres gente em gestação, mulheres como outras mulheres ou ainda outras mulheres como estas mulheres. Homens mulheres e mulheres homens, tudo misturado, ambíguo, mas ao mesmo tempo tudo inteiro, com sua própria forma, seu próprio jeito.
A partir da metodologia do trabalho de campo, na escrita das cartas, a autora estabelece um diálogo com as mulheres e com os modos de vida na rua. O texto exercita ao extremo a escuta das margens - bares, boates, praças e hotéis - sendo ao mesmo tempo uma afirmação do trabalho pastoral e seus desafios e um exemplo concreto do método da teologia que nasce do meio do povo.
Fernanda supera toda e qualquer idealização do sujeito popular e nos coloca diante da inquieta cara do povo da rua, da mulher de rua. A rua tem sexo e a teologia aprende através da carta de Fernanda a pronunciar "sexo" entre as palavras benditas e malditas de seu vocabulário.
É no café da manhã, no lugar da degustação, que mulheres tomam a palavra. Nesse sentido, vale dizer que é no cotidiano que a transformação acontece. É neste lugar, pois ele está marcado por alegria, cansaços, tristezas, conquistas, prazer, fé. Dentro de uma perspectiva feminista e libertadora, este lugar tem seu matiz, pois é aí mesmo que se pode resgatar a importância concreta dos corpos e de suas relações.
Este resgate da vida, do corpo, da rua, da materialidade das relações... é como cavar túneis, ensina uma mulher: ? "Vocês estão me ajudando a cavar o túnel, é difícil, mas eu vou cavar até chegar à mina, hoje eu me considero cidadã e eu vou chegar lá".
Para Fernanda, "cavar túneis" é experimentar a Páscoa da Libertação, é afirmar "creio na ressurreição do corpo" sem esquecer da noite longa da Paixão.
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Cartas da Vida
Fernanda Priscila Alves da Silva
A partir da convivência nas ruas de Salvador o livro compartilha - no formato de cartas - a vida e o cotidiano de mulheres em situação de prostituição. A partir da metodologia do trabalho de campo, na escrita das cartas, a autora estabelece um diálogo com as mulheres e com os modos de vida na rua. O texto exercita ao extremo a escuta das margens - bares, boates, praças e hotéis - sendo ao mesmo tempo uma afirmação do trabalho pastoral e seus desafios e um exemplo concreto do método da teologia que nasce do meio do povo.
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Conic fortalece a bandeira das mulheres


CEBI

Secretária Geral do CONIC fortalece a bandeira das mulheres

Sexta-feira, 17 de agosto de 2012 - 11h09min
Ao completar 30 anos de fundação, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) passou a ter a primeira mulher à frente da secretaria geral. A pastora luterana Romi Márcia Bencke assumiu suas funções no início de agosto, em Brasília.

Ela assume o organismo ecumênico nacional quando busca reformular sua identidade num contexto religioso e ecumênico muito diferente daquele quando foi criado, em 1982. Mas procura, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao chamado ecumênico original. Além disso, o crescimento das igrejas neopentecostais, o aumento dos que se declaram sem religião e a atual limitação de recursos financeiros do CONIC, forma um cenário desafiador para a nova secretária geral.

Natural de Horizontina, Rio Grande do Sul, Bencke cursou teologia na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, de 1992 a 1997. Durante esse período, realizou um ano de intercâmbio no Seminário Ecumênico de Matanzas, Cuba, onde escreveu dissertação sobre o diálogo inter-religioso com a Santería, uma expressão religiosa afrocubana.

Depois de atuar por um ano numa comunidade de migrantes, em Alta Floresta do Oeste, Rondônia, foi ordenada ministra da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e, entre 1999 a 2006, atuou como pastora em São Sepé, no Rio Grande do Sul, onde, paralelamente colaborou com Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria (CECA), ao assumir o Programa Fé e Cidadania.

Além de Teologia, Bencke tem especialização em Projetos Sociais e Culturais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, atualmente, cursa o mestrado em Ciência da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora, sobre o tema "Ecumenismo, valores sociais e modernidade: a percepção dos agentes eclesiais". Temas como relações de gênero, religião e modernidade estão presentes na teologia e no trabalho de Bencke, cujo mandato à frente da secretaria geral vai até 2015.

A entrevista é de Marcelo Schneider, doutor em Teologia e correspondente de comunicação do Conselho Mundial de Igrejas, publicada na Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 15-08-2012.

Eis a entrevista.
Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma pesquisa sobre o cenário religioso no Brasil. Um dos dados mais expressivos foi o aumento do número de pessoas que se declaram "sem religião". Como é assumir um conselho de igrejas considerando esta realidade?
O aumento do número dos que se declaram "sem religião" é um dado importante para analisar a realidade brasileira. Nosso contexto social ainda é pouco secularizado, pois, mesmo com o aumento desse grupo, ainda somos um país majoritariamente religioso. O censo do IBGE chama a atenção para dois fatores. O primeiro indicador interessante é este, o do aumento dos "sem religião". Esse dado poderia indicar que o Brasil pode estar passando por um processo de secularização. Nesse processo, as pessoas podem assumir, expressar e pautar suas vidas a partir de valores sociais, que não necessariamente possuem uma fundamentação ou inspiração religiosa.

Esse é o primeiro indicador. O outro aspecto que o censo do IBGE aponta é que um número significativo de pessoas se declaram religiosas, mas não assumem uma pertença religiosa institucional, indicando que pode estar em curso no Brasil um processo de desinstitucionalização religiosa. Essas pessoas procuram uma religião, por alguma razão muito específica, e tendem a migrar de uma expressão religiosa a outra conforme as suas necessidades e ofertas do mercado religioso. Essa é uma característica da realidade brasileira. Assumir o CONIC nessa conjuntura é um grande desafio, pois o dado do IBGE nos desafia, nos faz perguntar acerca de como queremos ser igrejas cristãs no contexto brasileiro.
Qual a sua análise da natureza e papel do movimento ecumênico num país que respira tantas expressões religiosas diferentes? Qual o papel do diálogo e inter-religioso?
Sou uma entusiasta do diálogo inter-religioso. Acho que o Brasil vive uma conjuntura grande de desigualdade social e violência, e a religião pode desempenhar um papel positivo nos esforços de superação dessas realidades injustas. Neste sentido, o movimento ecumênico, do qual o CONIC é um dos porta-vozes, é um espaço de articulação importante de temas e ações em torno de questões que são comuns a todas as religiões, como a defesa dos direitos humanos e o cuidado com a natureza. Se ainda encontramos, em algumas igrejas, muita resistência em relação a celebrações inter-religiosas, creio que não há motivos para deixarmos de nos empenhar em torno de causas humanitárias e ecológicas, por exemplo.

Outro aspecto importante é que um conselho de igrejas como o CONIC serve de contraponto diante de expressões religiosas mais exclusivistas ou fundamentalistas. Acho que temos um papel importante a desempenhar nesse debate.

As redes sociais têm transformado não só a forma como as pessoas partilham informações, mas também a comunicação institucional. Você espera o CONIC presente nesses espaços?
Acabamos de lançar uma nova página e criamos perfis em redes sociais, como Twitter e Facebook, com o intuito de dar maior visibilidade para o trabalho do CONIC e mobilizar mais pessoas para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Esperamos que essas mídias possam fortalecer nossas redes e mobilizar mais grupos em torno da Semana de Oração.

Atualmente, cinco igrejas compõem o CONIC: A Igreja Presbiteriana Unida, A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, A Igreja Siriana Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Católica Apostólica Romana, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Você planeja trazer mais igrejas para o CONIC?
Talvez sim, mas isso depende de um processo interno de discussão com as igrejas que compõem o CONIC. Elas devem decidir. A diretoria e o conselho curador (presidentes das igrejas) deveriam estabelecer critérios. Vamos tornar o CONIC mais aberto? Vamos visitar as lideranças de novas igrejas? As respostas a essas perguntas, num contexto como o brasileiro, onde a cada dia surge uma nova igreja, é extremamente importante e tem que vir das lideranças das igrejas que compõem o Conselho. Creio que se a questão for colocada diretamente, sem um debate anterior, haveria certa resistência quase natural a expressões (neo)pentecostais. Por isso, talvez tenhamos que discutir primeiro o cenário religioso brasileiro e, a partir dessa análise, definir critérios e processos para o convite e acolhimento de outras igrejas. Quando olhamos para a história do CONIC, vemos que já tivemos mais igrejas-membro.

Existe outro espaço ecumênico de articulação, diálogo e ação no Brasil chamado Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE ACT Brasil), no qual o CONIC participou com maior ou menos intensidade nos últimos anos. Como você pretende se relacionar com o FE ACT Brasil?
Pessoalmente, acho que o CONIC tem que somar forças neste espaço. A nossa diretoria quer ver o CONIC mais ativo nesta articulação, porque historicamente sempre contribuímos no FE ACT Brasil. Nada mais justo que retomarmos a participação ativa nesse espaço. Agenda do ecumenismo brasileiro está passando muito pelo FE ACT Brasil, com esta união em torno da defesa dos direitos fundamentais das pessoas e da natureza.

Qual o papel da juventude?
Acompanho um pouco o trabalho da Rede Ecumênica da Juventude (REJU) pelo Facebook. Acho ótima a articulação que esta rede promove, articulando os jovens do Brasil inteiro. Percebo que há uma abertura inter-religiosa importante e entendo que é uma iniciativa que deve ser apoiada e motivada.

A maioria dos jovens que participam da REJU não vêm dos grupos de juventude das igrejas-membro do CONIC, mas de projetos apoiados por agências e organismos ecumênicos ou ligados a igrejas, como a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), KOINONIA e a Fundação Luterana de Diaconia, por exemplo. Qual a sua análise dessa realidade?
Vivemos um momento de desinstitucionalização das religiões. As pessoas se assumem como religiosos, mas isto não significa que elas têm um vínculo institucional. Essa é uma mudança interessante no cenário religioso brasileiro. Esse é mais um indicador da importância do movimento ecumênico, que, pode ser tanto um espaço de diálogo entre as igrejas, como um ambiente que congrega pessoas que querem praticar sua fé e estar inseridos em algo, mas que não querem o vínculo institucional. O movimento ecumênico acaba sendo o vínculo indireto que as pessoas têm com as igrejas. Nesse sentido, a REJU é um desafio positivo às juventudes das igrejas.

Você é a primeira mulher a ser secretária geral do CONIC. Qual a sua leitura desse marco?
Uma das principais reivindicações de nós, mulheres ativas no movimento ecumênico, tem sido que as mulheres também passem a ocupar espaços de direção em organismos e espaços ecumênicos e espaços ligados a igrejas. Por isso, o fato de eu assumir este cargo pode sinalizar uma pequena, mas significativa mudança nos espaços de direção das igrejas e dos organismos ecumênicos. Ter sido acolhida no momento em que a presidência do CONIC é exercida por um bispo católico também demonstra uma abertura interessante. Tenho recebido muito apoio de diversas pessoas da Igreja Católica, que demonstram felicidade com o fato de eu assumir esta tarefa.

Outra questão significativa de assumir este cargo neste momento é que a pesquisa do IBGE, da qual falamos acima, também mostrou que a maioria das mulheres no Brasil se assume como religiosas.

O fato de uma mulher ser a secretária geral do CONIC reflete a necessidade de ampliar, cada vez mais, o compromisso do movimento ecumênico com as lutas das mulheres. Também acredito que temos uma grande responsabilidade de refletir sobre a realidade das mulheres no contexto brasileiro, em que a maioria de nós se declara religiosa e que, ao mesmo tempo, vive situações de violência e agressão bastante significativas. Por isso, poder refletir sobre qual o papel das mulheres cristãs e de outras religiões na defesa de todas as mulheres é um desafio grande. Eu me sinto responsabilizada em fortalecer as bandeiras das mulheres.

O Conselho Mundial de Igrejas vai celebrar em 2013 sua 10ª Assembleia, em Busan, República da Coreia, sob o tema "Deus da vida, guia-nos à justiça e à paz". Como essas três categorias (vida, justiça e paz) se refletem na sua teologia?
Ao ler o tema da próxima Assembléia do CMI, imediatamente vem à cabeça temas relacionados à transformação das relações econômicas, sociais, ambientais e de gênero. Não há o que justifique que em um país como o Brasil, que tem indústrias significativamente fortes e riquezas naturais, ainda exista um contingente grande de pessoas que vivem em absoluta pobreza. A concentração da riqueza é uma das causas da injustiça em nosso país: 10% da população mais rica detêm 75,4% de toda riqueza do país. Isso é absurdo.

O segundo tema que vem à cabeça são as restrições culturais, políticas, econômicas que impedem que as mulheres tenham acesso à justiça de maneira ampla. Ainda temos muito que avançar para que as plataformas internacionais relacionadas aos direitos das mulheres sejam concretizadas no Brasil. Ao considerar que 93% das mulheres brasileiras se assumem como religiosas, o compromisso das igrejas se torna essencial para que as reivindicações das mulheres sejam visibilizadas e concretizadas.
Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - A

domingo, 12 de agosto de 2012

Escolhido tema para a Semana da Oração em 2013


CEBI

Escolhido tema para a Semana de Oração em 2013

Terça-feira, 7 de agosto de 2012 - 10h45min
"O que Deus exige de nós?". Este será o tema da SOUC - Semana de Oração para a Unidade dos Cristãos, edição 2013. Inspirado em Mq 6:6-8, o material foi preparado pelo Movimento de Estudantes Cristãos da Índia, com a consultoria da Federação de Universidade Católica de toda a Índia e do Conselho Nacional de Igrejas na Índia. O CONIC, por sua vez, já se encarregou de produzir todo o material que será utilizado por igrejas e movimentos ecumênicos pelo Brasil.
SOUC 2012
Na celebração deste ano, foram adquiridos, pelos grupos ecumênicos do Brasil e igrejas cristãs, cerca de 13 mil livretos da Semana de Oração. Para 2013, o objetivo é que mais pessoas possam celebrar esta data.
Leia a referência bíblica na íntegra:
"Como hei de aparecer diante do Senhor, inclinar-me diante do Deus Altíssimo? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos? Com bezerros de um ano? Desejará o Senhor milhares de carneiros, quantidades de torrentes de óleo? Sacrificarei meu primogênito pela rebeldia, o filho de minha carne pelo pecado que cometi? Foi-te dado a conhecer, ó homem, o que é bom, o que o Senhor exige de ti: nada mais que respeitar o direito, amar a fidelidade e aplicar-te a caminhar com teu Deus."
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Amós, a luta contra a injustiça social e o juízo iminente


CEBI

Amós, a luta contra a injustiça social e o juízo iminente

Quinta-feira, 2 de agosto de 2012 - 11h54min
"O discurso de Amós menciona, talvez, um passado histórico não identificável nem pela forma e nem pelo conteúdo do texto. As pragas do tempo do Êxodo feriam o Egito, não Israel, e de uma maneira diferente da relatada no livro de Amós capítulo 4. Além do mais, as tais "pragas" eram no mundo antigo, e são ainda nas culturas rústicas, o resultado obrigado de situações críticas naturais ou políticas: a fome é o resultado de toda estiagem prolongada e peste nas plantações, assim como a morte dos jovens (Am 4,10) é o efeito de toda batalha militar, no mundo antigo e moderno", escreve Gilvander Luís Moreira, frei e padre Carmelita, mestre em Exegese Bíblica e professor de Teologia Bíblica.
Eis o artigo.
Provavelmente as composições mais antigas do livro do profeta Amós, na Bíblia obviamente (Amós 1-6; 7-9) datam de meados do século VIII a.C., e surgiram como literatura de protesto e resistência. "O acento principal da mensagem de Amós está na crítica social e no anúncio de um juízo iminente de Deus na história, bem como na tênue, mas clara exigência do restabelecimento da justiça como alicerce das relações sociais"[1].
Amós é um profeta precursor, radical, exemplar e paradigmático. A profecia de Amós é, em certo modo, um divisor de águas na história da profecia no sentido de que instaura um novo jeito de ser profeta. O livro de Amós está organizado em duas grandes unidades literárias: I) Am 1-6: Palavras e II) Am 7-9: Visões.
Am 4,4-13 nos ajuda a refletir sobre três aspectos fundamentais da ética profética, intimamente entrelaçados. Esses são: a) a concepção de pecado em relação ao culto; b) em relação à história; c) e os limites de uma possível reconciliação com Deus. A pergunta que se coloca na base e no fim do estudo de Am 4,4-13[2] é: Trata-se de um anúncio de punição in extremis diante da incapacidade de Israel de reagir, ou de uma velada promessa de perdão? Ou existe uma outra interpretação possível?
A declaração final de Javé - Deus solidário com os pisados e libertador dos oprimidos - ao ser humano que fecha a unidade Am 4,4-13 constitui-se quase como uma nova revelação do Sinai, que deve por fim ao conflito entre o ser humano e a divindade, em favor do ser humano. As punições didáticas de Javé deixam lugar a um esclarecimento que abre o coração do ser humano para que veja o conjunto da sua história e possa render-se conta do seu processo de endurecimento.
Am 4,4-13 evoca, portanto, uma situação na qual há certa semelhança com aquela do relato das pragas do Egito, mas não é obviamente, a recordação daqueles fatos. O discurso de Amós menciona, talvez, um passado histórico não identificável nem pela forma e nem pelo conteúdo do texto. As pragas do tempo do Êxodo feriam o Egito, não Israel, e de uma maneira diferente da relatada no livro de Amós capítulo 4. Além do mais, as tais "pragas" eram no mundo antigo, e são ainda nas culturas rústicas, o resultado obrigado de situações críticas naturais ou políticas: a fome é o resultado de toda estiagem prolongada e peste nas plantações, assim como a morte dos jovens (Am 4,10) é o efeito de toda batalha militar, no mundo antigo e moderno.
Às pragas ou punições descritas se reúnem ainda a menção a Sodoma e Gomorra. O discurso de Amós 4 quer, portanto, dar conta de toda a antiga história de Israel, também de Israel patriarcal, para aplicá-la a uma nova situação.
Um ponto particular de relação com o Êxodo é a presença do refrão "mas não retornastes a mim" que estrutura o texto de Amós 4,4-13. Assim, como no relato das pragas o endurecimento do coração do Faraó é o motivo estruturante que faz aumentar as pragas.
No relato do Êxodo, um primeiro grupo de textos, atribuídos tradicionalmente à fonte Javista (J), apresenta de fato Faraó como responsável pelo seu próprio endurecimento, como havia predito Deus (Cf. Ex 7,14.22; 8,11.15.28; 9,7.34). O outro grupo de textos (os chamados "heloístas") atribui a obstinação ora a Faraó (Ex 9,35) ora a Deus mesmo (Ex 10,20.27). O relato sacerdotal (P) o atribui habitualmente a Javé.
Esta diversidade de concepção no atribuir a responsabilidade pelo pecado aparece também em outros textos fora do Êxodo, com diferente vocabulário e problemática. Em 2º Samuel 24,1, Javé é o responsável direto pelo pecado de Davi devido ao recenseamento. Segundo 1º Crônica 21,1 a responsabilidade é, ao invés, de Satanás. O verbo hebraico usado é o mesmo: swt (= incitar, seduzir).
Tanto em Êxodo como em Am 4,4-13 se coloca um grande problema exegético e teológico: É possível e legítimo que Deus continue a aplicar punições que levam a um endurecimento sempre crescente? Não se comporta Javé assim como o pai que exagera, com sua punição, ao seu filho e força-o a se rebelar (Cf. Efésios 6,4)?
É necessário reconhecer que por trás dos textos bíblicos de endurecimento há o mistério da liberdade humana e da "onipotência" divina. Em relação a Deus, há uma consciência profética que as obras e a Palavra de Deus não podem permanecer sem efeito (Cf. Isaías 55,11), mas é sempre eficaz (não eficiente). Se não produzem imediatamente a conversão, devem amadurecer o sujeito para uma nova prova, o que, em última análise, não exclui a possibilidade de conversão.
Em relação à pessoa punida, há uma consciência do fato que a exortação à conversão, quando não ouvida, se torna uma condenação. Isto é, nada mais, nada menos, que a dinâmica das relações interpessoais. Quando duas pessoas percebem uma mútua existência começa uma comunicação humana, que pode progredir, parar ou, eventualmente, morrer. Mas enquanto existe, cada ação e reação levam à evolução ou diminuição daquela relação. Todo ato (ou omissão) nas relações interpessoais somam e cultivam a relação ou a empobrece descultivando-a. Nenhuma atitude fica neutra.
De modo semelhante, na relação do ser humano com Deus, cada ação que não melhora a relação, a piora, mas jamais a deixa igual. Se não se aceita um convite à conversão, como uma oferta de amizade, o recusa. Por um lado, esta recusa tornará mais difícil que aconteça um novo convite.[3] E de outra parte quem recusou dificilmente voltará atrás para aceitar uma nova oferta, o que implicaria em reconhecer o erro precedente, o que é mais difícil.
Em relação aos profetas e profetisas, este processo se explica na medita em que os/as "intérpretes de Javé" sabem do paradoxo da missão deles/as. Os profetas e profetisas sabem que a palavra profética conduz, às vezes, à conversão de alguns poucos, mas na maioria das vezes leva ao endurecimento de muitos. Os oráculos de condenação no futuro, pronunciados com absoluta segurança, implicam nos profetas a consciência que a advertência seria inútil.
A consciência que os profetas e profetisas têm das três realidades descritas acima se apresenta, de modo muito claro, em Isaías 6,9-11: "Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis. Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado. Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada".
Em Am 7,14, o profeta Amós se recusa a ser considerado profeta, nos termos do sacerdote Amasias, cúmplice de um poder político opressor. Amós se define como "vaqueiro" e cultivador de sicômoros. Em Am 7,15, Amós parece ser um pastor que cuida do rebanho miúdo (ovelhas e cabras), mas não um vaqueiro. Em Am 7,10-17[4] não há a intenção primeira de descrever pessoalmente a profissão do profeta, mas enfatiza o fato de que Amós foi retirado da sua vida precedente, do seu mundo, das preocupações domésticas para proclamar a Palavra de Deus.
Am 7,10-17 quer legitimar o conteúdo da profecia de Amós e ajudar a comunidade superar todos os preconceitos que possam existir contra o profeta por causa da sua origem humilde, como se fosse um "nordestino", um sem-terra, um sem-casa, um menor de rua, um portador de HIV, um homossexual etc. O relato de Am 7,10-17 quer nos dizer que a profecia vem da margem, da periferia, do meio dos marginalizados e excluídos. São estes, por excelência, os "intérpretes de Javé".
Na Bíblia este "gênero" é utilizado para descrever de maneira diferente as vocações de Moisés, Gedeão, Eliseu e Saul. Mas uma estreita relação se encontra em 2º Samuel 7,8. Natã transmite a Davi a mensagem de Javé: "Eu te tirei das pastagens, pastoreavas as ovelhas". O elemento que caracteriza estas situações não é o fato do convocado pertencer a um grupo, mas, ao contrário, o fato dele ser um "de fora", um excluído. Assim Am 7,14 quer exprimir a distância de Amós das formas institucionais da profecia e dos profetas "da corte".
O relato do confronto entre o sacerdote Amasias e Amós (com a implicada presença do rei) oferece a justificação da decisão de Javé. O povo não somente não ouviu as diversas palavras transmitidas pelo profeta Amós, mas decidiu silenciá-lo, expulsando-o para sua terra. Já não há nada mais a esperar senão o fim definitivo, e diante desse resta somente a lamentação. O profeta anuncia a necessidade de conversão; pede perdão a Deus pelo povo; pede para parar a punição. O rei (e a monarquia) e o Templo expulsam o profeta, silenciando-o. O povo sofrerá muito mais. Ai de um povo que não escuta seus profetas e profetisas, e pior ainda, que os persegue, expulsa e os silencia.
A perícope de Am 7,10-17 revela a interpretação que setores da classe dominante tinham do conteúdo da profecia de Amós. Aos olhos da elite, o profeta é um "conspirador", interessado em "golpe de estado". Para Javé e o povo empobrecido Amós é um profeta, porta voz do Deus da vida para todos e tudo. Para a elite ele é um "subversivo", um agitador.
Em Am 4,1-3 temos a seguinte profecia:
"OUVI esta palavra, vacas de Basã, que estais sobre o monte de Samaria, que oprimis os fracos, que esmagais os excluídos, que dizeis aos vossos senhores: "Trazei-nos o que beber!". O Senhor Javé jurou, pela sua santidade: sim, dias virão sobre vós, em que vos carregarão com ganchos e a vossos descendentes com arpões (de pesca). E saíreis pelas brechas que cada uma tem diante de si, e sereis empurradas em direção ao Hermon, oráculo de Javé".
Segundo uma interpretação tradicional, Am 4,1-3 seria uma investida do profeta Amós contra as mulheres ricas de Samaria, designadas como "vacas de Basã", mulheres de personagens importantes, que ocupam o tempo em luxuosos banquetes, e ao mesmo tempo são responsáveis pela opressão e exploração dos empobrecidos. A imagem de um banquete só de madames é, no mínimo, algo curioso em uma sociedade reconhecidamente machista e patriarcal, assim como atribuir às mulheres a responsabilidade pela opressão e pela injustiça.
A região de Basã, como o Líbano e o Carmelo, é famosa pela fertilidade do solo. A tristeza causada pela punição divina se manifesta na debilidade do Líbano, do Basã, do Carmelo e do Saron (Cf. Isaías 33,9). Ao contrário, a generosidade divina se expressa no nutrimento do povo com a "manteiga das ovelhas e dos touros de Basã" (Cf. Deuteronômio 32,14). O anúncio messiânico, com o qual se conclui o livro de Miquéias, inclui a promessa de um pasto abundante "em Basã e em Galaad, como nos dias antigos (Cf. Miquéias 7,14). No ambiente de louvor do Salmo 68 o "Basã" são os montes (Sl 68,16) que testemunham, junto com o Sinai e a natureza, a grandeza das obras de Javé. Logo integrar "Basã" em uma imagem depreciativa é algo estranho ao uso corrente de "Basã" na Bíblia.
De "vaca de Basã" não se fala em nenhum outro lugar no Primeiro Testamento da Bíblia. As montanhas de Basã são famosas pelos seus touros, cabritos e carneiros (mas não vacas; cf. Dt 32,14). Por isso os touros de Basã podem ser imagens dos inimigos poderosos (cf. Salmo 22,13 e, sobretudo, Ezequiel 39,18).
A expressão "vacas de Basã" adquire um sentido mais verdadeiro dentro da cultura bíblica se o termo "vacas" não for utilizado em relação a mulheres, mas a homens, aqueles que quiseram ser como os touros de Basã, pela força deles, autoridade e dignidade se tornaram "vacas", com as conotações depreciativas que as formas femininas podem ter no Primeiro Testamento.
Neste contexto, os "seus senhores" (Am 4,1b, com sufixo masculino) se referem provavelmente não aos "maridos", como propõem algumas traduções, um uso pelo qual não se tem nenhuma outra ocorrência, mas refere-se a uma pessoa de mais autoridade (política). "Senhor", além do freqüente uso como título divino, se refere a Acab (2 Reis 10,2.3.6), ao Faraó (Gênesis 40,1), ao Rei da Babilônia (Jeremias 27,4), e em casos isolados a várias pessoas: "outros senhores..." (Isaías 26,13).
Na profecia de Amós está "uma crítica veemente e contundente aos agentes e mecanismos de exploração e opressão dos camponeses empobrecidos sob o governo expansionista do rei Jeroboão II e sob as condições de um incremento de relações de empréstimos e dívidas entre pessoas do próprio povo no século VIII a.C."[5]. Em outros termos, o profeta Amós não apenas critica pessoas corruptas, mas questiona também de modo muito forte o sistema gerador de pessoas corruptas. Não somente as mazelas pessoais estão na mira do "camponês" que entrou para a história como um grande profeta. Amós tem consciência de que o problema fundamental da injustiça reinante na sociedade não é fruto somente de fraquezas e ambigüidades pessoais, mas tem como causa motriz estruturas sócio-econômico-político-cultural e religiosas que engrenam uma máquina de moer pessoas. Na mira do profeta Amós também estão relações comerciais que causam endividamento, aprisionam pessoas e escravizam, retirando a liberdade de ser pessoa humana.
Além das denúncias sociais, a profecia de Amós destaca-se com o anúncio de um juízo iminente de Javé na história do seu povo. Amós inverte as expectativas quanto a um tão sonhado "dia de Javé" (Am 5,18-20). Este não será mais uma "ideologia de segurança político-religiosa" pelos fortes de Israel. A perversão da justiça para os pobres, a opressão dos empobrecidos e a exploração das pessoas mais enfraquecidas clama pelo juízo divino. O "dia de Javé" será um "dia mau" sobre os fortes de Israel, sobre o estado tributário, suas instituições e seus agentes.
Amós critica com coragem a "corrida armamentista" de Israel. Ele anuncia que serão desmanteladas as forças militares dos estados vizinhos (Amós 1,5.8b.14b; 2,2b) e sobretudo de Israel (Amós 2,13-16; 3,11b; 5,2-3; 6,13-14).
O profeta Amós denuncia duramente também as instituições religiosas que estão justificando o processo de extorsão de tributos da população camponesa (Am 4,4-5; 5,21-23). Pelo conluio com a opressão econômica a religião oficial também será dizimada (templos) e seus agentes (Am 5,27; 7,9; 9,1).
"Odeiem o mal e amem o bem: restabeleçam no portão a justiça!" (Am 5,15). "Aqui está a exigência positiva por excelência na profecia de Amós. Os israelitas são conclamados a reconstruir as relações sociais baseadas na justiça e no direito (mishpat / sedaqah - em hebraico). Só assim será possível escapar do juízo vindouro anunciado. O futuro de um "resto" passa pela prática de Justiça"[6]. O juízo abre caminho para a justiça. A presença dos profetas e profetizas no meio do povo deixa Javé livre de qualquer responsabilidade diante da punição que o povo merece. Não precisa nem explicitar a atualidade da profecia de Amós. Que cada leitor/a faça as atualizações necessárias.
Notas:
[1] HAROLDO REIMER, “Amós – profeta de juízo e justiça”, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 171. [2] Para melhor compreensão sugiro ler na Bíblia Am 4,4-13 (capítulo 4, versículos de 4 a 13) antes de prosseguir a leitura do nosso texto. [3] Gato escaldado com água quente tem medo até de água fria, diz a sabedoria popular. [4] Sugiro ler na Bíblia Am 7,1-17 antes de prosseguir a leitura do nosso texto. [5] HAROLDO REIMER, “Amós – profeta de juízo e justiça”, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 188. [6] HAROLDO REIMER, “Amós – profeta de juízo e justiça”, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 189.
Frei Gilvander Moreira é autor da obra :
O bom samaritano: ontem e hoje
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Carlos Mesters e Gilvander Moreira
Mais informações pelo endereço vendas@cebi.org.br
Este livreto nos convida à reflexão sobre o que humaniza as relações e sobre o que dá sentido para fé: quem é o meu próximo? Entre agressores e agredidos (as) escolhas precisam ser feitas: parar e ser solidário? ou passar fingindo que não vê? São perguntas para cada um e todo mundo.
Frei Gilvander Moreira

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Madeireiros dominam terra onde Dorothy Stang foi assassinada


CEBI

Madeireiros dominam terra onde Dorothy Stang foi assassinada

Quarta-feira, 1 de agosto de 2012 - 11h49min
Sete anos após o assassinato da freira norte-americana Dorothy Stang, no município de Anapu (PA), à margem da BR-230, a Rodovia Transamazônica, o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, mesmo com todo o simbolismo e possibilidades que carrega, está praticamente abandonado pelo governo, à mercê de exploradores ilegais de madeira, grileiros de terras e sofre até impactos por conta da hidrelétrica de Belo Monte.
A criação do PDS Esperança foi oficializada em 2004. Das cerca de 200 famílias assentadas, apenas 48 receberam as casas a que têm direito através do crédito habitação, liberado pelo Incra. A energia elétrica prometida há três anos ainda não chegou, e não há ambulância no local.

Para chamar socorro alguns moradores estão há mais de 20 km de um ponto onde há sinal de celular. Não existe transporte público e para ir até Anapu os assentados pagam R$ 15 para viajarem na carroceria de uma camionete particular que passa apenas três vezes por semana - e alguns deles têm que caminhar até 7 km até o ponto onde a camionete passa.

As estradas são ruins, e o escoamento da produção dos assentados é outro entrave. Neste ano foi estabelecido um Grupo de Trabalho especial do Incra em Anapu, mas seus funcionários chegam a ficar mais de um mês sem tirar folga nos finais de semana e invariavelmente trabalham com sobrecarga de horário.

Responsável por regularizar a situação de conflitos fundiários e fomentar o desenvolvimento dentro dos assentamentos, o Incra tem equipe reduzida na região e sofreu um corte de 70% em seu orçamento nacional este ano.

Para complicar ainda mais, o preço dos tijolos na região está inflacionado por causa da demanda das obras de Belo Monte.

- O milheiro do tijolo custava cerca de R$ 350,00 há um ano atrás. Agora custa mais de R$ 700,00, mas o valor para compra de materiais para construção das casas dos assentados continua o mesmo, de R$ 15 mil reais. Os caminhões de Belo Monte vem até às lojas com funcionários para carregar os tijolos e pagam em dinheiro. Já nós precisamos que seja entregue dentro do assentamento - relata um servidor do Incra. Com as estradas ruins, os donos das lojas preferem não correr o risco de arcar com o transporte do material para os assentados.

No dia 6 de junho, Marcio Ribeiro, 25, com a esposa Natalha Almeida, 18, e o filho Jeremias, foram assentados no seu pedaço de terra na área do Lote 55.

Com o capim tendo crescido mais de dois metros de altura, famílias como a de Márcio são assentadas sem ainda ter recebido o crédito de apoio inicial do governo (R$ 3.200 para compra de ferramentas e bens de primeira necessidade) e sem ter uma casa, a que assentados de reforma agrária têm direito. Isoladas, as famílias de assentados o lote têm que desbravar sozinhas o matagal e iniciar sua plantação. Enquanto fazem isso, muitos têm ainda que intercalar seus dias "tirando diárias" para fazendeiros da região, ganhando R$ 25,00 por dia de trabalho para sobreviver.

A imagem de Márcio e Natalha, segurando no colo o pequeno Jeremias, diante de um barraco de madeira coberto com palha, e de suas coisas empilhadas e uma panela de feijão cozinhando no gás que compraram "fiado", se contrapõe àquela dos grandes fazendeiros e madeireiros desfilando pela cidade em suas caminhonetes Hylux 4×4. Contraste visível do modelo de desenvolvimento escolhido, por planejamento ou omissão, para a fronteira de expansão econômica do país.

Assentados resistem

Contrariando todas as expectativas pessimistas, o Esperança tem tudo para dar certo. Ivonildes Santos Sousa, 45, a única mulher a ter participado do bloqueio aos madeireiros no ano passado, vive no PDS Esperança desde que foi criado, em 2004, e já plantou mais de 7 mil pés de cacau em seu terreno. O cacau é uma das principais alternativas para agricultura aliada à conservação ambiental na região, pela maneira como a espécie convive com a floresta. E a terra é boa. Com a compra das sementes subsidiadas pela CEPLAC, órgão ligado ao Ministério da Agricultura, os assentados têm conseguido produzir. Ate hoje Ivonildes não recebeu a casa a que todo assentado de reforma agrária tem direito.

Antônio Silva, 42, ocupa há dois anos sua terra no Lote 55. Com a ajuda da esposa e dos cinco filhos, já plantou 3 mil pés de cacau, mandioca, banana, batata, arroz, feijão e milho. O único recurso que recebeu do governo foi o crédito como apoio inicial, no valor de R$ 3,2 mil. Ele também não teve construída sua casa e vive em um barraco que ergueu aproveitando as estacas da cerca da fazenda que existia ali.

Conhecido pelo apelido de "Índio", Antônio tido como exemplo pelos outros assentados do que um homem pode fazer em sua terra com as próprias mãos. Depois de passar muita dificuldade, já consegue tirar da roça o alimento básico e, para comprar o que não pode plantar (óleo, café, açucar, gás etc) ainda é obrigado a trabalhar em regime de diária para fazendeiros da região.

No ano que vem sua plantação de cacau começa a produzir. Morando na área mais distante do assentamento, ele terá o desafio de transportar a produção para vender em Anapu, ao preço hoje de R$ 4,30 o quilo. Sem as condições mais básicas de infra-estrutura, os assentados também não têm uma organização coletiva para transportar e beneficiar o cacau, o que agregaria maior valor ao produto.

Antônio conta que não gosta de televisão, mas diz que seria bom de tivesse energia elétrica pra ter uma geladeira.

- Aí a comida não estragava. No inverno (meses de chuva) é difícil a gente conservar carne salgando.

E Índio sorri de contentamento por estar trabalhando na própria terra: - Esse apelido de índio me caiu bem, porque eu sou como índio mesmo. Quando estou fora, o que mais quero é voltar pra cá.

Irmã Dorothy

Num contexto em que imensas áreas públicas, com a anuência das autoridades, foram apropriadas por um ciclo econômico cruel, que desviou o recurso público, expulsou e dizimou índios e ribeirinhos, devastou a biodiversidade e transformou a floresta em pasto para a criação de gado, surgiu a semente do PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) Esperança, no município de Anapu (PA), à margem da BR-230, a Rodovia Transamazônica. Pressionados por fazendeiros, madeireiros e grileiros, um grupo de pequenos agricultores passaram também a disputar a ocupação da terra na floresta.

O PDS foi um modelo de reforma agrária idealizado pela freira norte-americana Dorothy Stang, que pretendia conciliar a conservação da Amazônia com o desenvolvimento sócio-econômico dos trabalhadores rurais - a maioria deles migrantes nordestinos transformados pela contingência em "povo da floresta". A irmã Dorothy, como era conhecida, apoiava e estimulava a ocupação da floresta por estes trabalhadores e articulava apoio político e visibilidade para a causa deles em Brasília.

Mas a atuação da freira foi encarada como um obstáculo para alguns fazendeiros e madeireiros da região, por dar aos trabalhadores rurais a consciência de organização e de poder decidir o próprio destino. Na manhã do dia 12 de fevereiro de 2005, Dorothy Stang foi assassinada com seis tiros enquanto percorria à pé, segurando a Bíblia com a mão direita, uma estrada de terra dentro do Esperança.

Em seus momentos finais, Stang teria recitado um trecho do sermão da montanha para os seus assassinos, dois pistoleiros contratados por Vitalmiro Moura, o Bida, que se dizia dono do Lote 55 (3 mil hectares de terra numa área anexa ao PDS Esperança, que estava sendo disputada pelos assentados apoiados pela freira), como provado no processo judicial que culminou com a condenação dos criminosos.

Bida foi condenado, junto com outro fazendeiro, a 30 anos de prisão. No local onde caiu o corpo inerte de Dorothy, está afixada uma cruz em sua homenagem e uma placa, que posteriormente foi alvejada por tiros de espingarda.
Na época, a comoção nacional e internacional causada pela sua morte forçaram os institutos de meio ambiente e de reforma agrária do governo federal à uma atuação forte. O Lote 55 enfim foi retomado pelo Incra e incorporado ao PDS e o Ibama manteve uma certa rotina de fiscalizações nos anos seguintes, incluindo a autuação, em 2009, no valor de R$ 169 milhões, da Agropecuária Vitória Régia S.A., empresa de Délio Fernandes, então vice-prefeito de Anapu, eleito com Chiquinho do PT, o atual governante municipal. Atualmente, Délio Fernandes disputa o cargo de prefeito na vizinha Altamira.

Luta sem fim
Com o passar do tempo, a indústria da madeira ilegal voltou à carga. No início de 2011, diante da invasão desenfreada de madeireiros ao Esperança -relatos indicam que mais de dez caminhões carregados de toras valiosas saíam ilegalmente todos os dias do assentamento-, um grupo de assentados decidiu formar um bloqueio humano na principal estrada de acesso.
O bloqueio foi mantido por sete meses -num conflito em que os assentados sofreram ameaças e intimidações constantes, um deles tendo sua casa incendiada pelos madeireiros- e foi retirado apenas quando o governo federal inaugurou, em agosto último, uma guarita com vigilância armada durante 24 horas para coibir a ação dos madeireiros, tornando o Esperança o primeiro assentamento do país a ter este tipo de guarnição em seu acesso. Uma segunda guarita precisou de reforço de militares da Força Nacional de Segurança durante sua construção.

Mesmo com as guaritas, em maio deste ano, funcionários do Incra verificaram o reinício das atividades de extração ilegal de madeira dentro da reserva de floresta amazônica do PDS Esperança. Em incursão à mata, encontraram trilhas abertas que ligam o PDS à Terra Indígena Trincheira-Bacajá, que faz limite ao sul do assentamento e estaria sendo utilizada como alternativa para driblar as guaritas.

Foram encontradas também árvores de grande valor comercial marcadas para futuro corte (primeiros passos da ação madeireira, etapa chamada de "inventário"). Os seguranças contratados pelo Incra são de uma empresa particular e não tem poder legal para autuar madeireiros.

- O Ibama só vem quando a gente faz pressão e protesto grande. Era para virem mais, ou terem pelo menos um agente aqui - diz um agricultor.
A reportagem é de Lunaé Parracho e publicada por Terra Magazine / Blog da Amazônia e reproduzida por Amazônia.org.br.

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A razão em fase de larva e de casulo - Leonardo Boff


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A razão em fase de larva e de casulo - Leonardo Boff

Quinta-feira, 2 de agosto de 2012 - 11h33min
"O processo da borboleta nos oferece uma sugestiva metáfora. A borboleta não nasce borboleta. Ela é no início um simples ovo que se transforma numa larva, devoradora insaciável de folhas. Depois ela se enrola sobre si mesma na forma de um casulo (crisálida). Dentro dele, a natureza tece seu corpo e desenha suas cores. Quando tudo está pronto, eis que se rompe o casulo e emerge esplêndida borboleta", escreve Leornardo Boff, filósofo, teólogo e escritor.
Segundo ele, "nós estamos ainda no estágio de larva e casulo. Larva, porque, dia e noite, devoramos a natureza; casulo, porque fechados sobre nós mesmos, sem ver nada ao nosso redor".
Eis o artigo.
Quem leu meus últimos textos sobre ecologia e a situação dramática da Terra, colheu talvez a impressão de pessimismo. Não pode ser pessimista quem se dá conta dos reais riscos que pesam sobre nosso destino. Devemos honrar sempre a realidade. Mas, ao mesmo tempo, cumpre alargar a compreensão da realidade. Esta é maior do que se mostra pois o potencial é também parte do real. Há sempre uma reserva utópica, presente em todos os eventos. Se compreendermos a realidade assim enriquecida, não se justifica um pessimismo fechado, mas um realismo esperançador. Este capta a eventual irrupção do novo, escondido dentro do potencial e do utópico. Este novo faz então história e funda um outro estado de consciência e inaugura um ensaio social diferente.

Ademais, se tomarmos distância e medirmos nosso tempo histórico com o tempo cósmico, teremos mais razões ainda para a esperança. Se condensarmos num ano o tempo cósmico, os 13,7 bilhões de anos - a idade presumida de nosso universo - notaríamos que como humanos existimos há apenas uma pequeníssima fracção de tempo. Assim, a 31 de dezembro às 17.00 horas nasceram nossos antepassados pré-humanos. A 31 de dezembro às 22.00 horas entrou em cena o ser humano primitivo. A 31 de dezembro às 23 horas, 58 minutos e 10 segundos surgiu o homem de hoje chamado de sapiens sapiens. A 31 de dezembro às 23.00 horas, 59 minutos e 56 segundos nasceu Jesus Cristo. A 31 de dezembro às 23.00 horas 59 minutos e 59,2 segundos Cabral chegou ao Brasil.

Como se depreende, somos temporalmente quase nada.

Além disso, setomamos em conta as 15 grandes dizimações que a Terra conheceu, especialmente, aquela do Cambriano, há 570 milhões de anos, na qual entre 75-90% do capital biótico desapareceu, verificamos que a vida sempre resistiu e sobreviveu. E se nos concentramos apenas no ser humano, sobreviveu sempre às muitas glaciações. Mais ainda, ocorreu um processoaltamente acelerado de encefalização. A partir de 2,2 milhões de anos emergiram, sucessivamente, o homo habilis, erectus, e nos últimos cem mil anos, o homo sapiens, já plenamente humano. Seus representantes eram seres sociais, se mostravam cooperativos e manejavam a fala, característica humana.

No arco de um milhão de anos, o cérebro destes três tipos de homo duplicou em volume. Após o aparecimento do homo sapiens, surgido há 100 mil anos, o cérebro não mais cresceu. Não havia mais necessidade, pois surgiu o cérebroexterior, a inteligência artificial que é a capacidade de conhecer, criar instrumentos e artefatos para transformar o mundo e criar cultura, característica singular do homo sapiens sapiens.

A partir do neolítico, cerca de dez mil anos atrás, surgiram as primeiras cidades que deram origem à cultura elaborada, ao estado, à burocracia e também à guerra. Começou também uma sistemática utilização da razão instrumental para dominar a natureza, conquistar e subjugar os outros. Obviamente lá estavam também outros tipos de razão como a emocional, a simbólica e a cordial, mas submetidas à regência da razão instrumental que desde então assumiu a hegemonia, até a sua culminância em nosso tempo, razão, a um tempo, criativa é também destrutiva.

O processo da borboleta nos oferece uma sugestiva metáfora. A borboleta não nasce borboleta. Ela é no início um simples ovo que se transforma numa larva, devoradora insaciável de folhas. Depois ela se enrola sobre si mesma na forma de um casulo (crisálida). Dentro dele, a natureza tece seu corpo e desenha suas cores. Quando tudo está pronto, eis que se rompe ocasulo e emerge esplêndida borboleta.

Nós estamos ainda no estágio de larva e casulo. Larva, porque, dia e noite, devoramos a natureza; casulo, porque fechados sobre nós mesmos, sem ver nada ao nosso redor.

Qual a nossa esperança? Que a razão rompa o casulo e emerja qual razão-borboleta. Talvez a situação atual de alto risco force o nascimento da razão-borboleta. Ela zizagueia por ai, não é destrutiva mas cooperativa, pois poliniza as flores.

Estamos ainda em gênese. Não acabamos de nascer. Nascidos, vamos respeitar e conviver com todos os seres. Teremos para sempre superado a fase de larva e de casulo. Como borboletas, seremos portadores da razão sensata que nos concede termos um futuro sem ameaças junto com a Terra..
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

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Os povos indígenas e a Comissão Nacional da Verdade


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Os povos indígenas e a Comissão Nacional da Verdade

Quinta-feira, 2 de agosto de 2012 - 11h45min
"O mês de julho tem sido de duros e doloridos golpes. Mortes súbitas de lutadores imprescindíveis na luta pelos direitos indígenas, em especial os Kaiowá Guarani. Reitero minha homenagem ao companheiro guerreiro Antonio Brand, ao Zezinho de Laranjeira Nhanderu, à liderança de incansáveis lutas pelo tekoha Mbarakaí, Adelio Rodrigues. Diante da cruel Portaria 303, que o governo a revogue imediatamente e não apenas postergue seus efeitos mortíferos. Mas julho também foi um mês de esperanças. Os regionais Norte 1 e Mato Grosso fizeram emocionantes celebrações dos 40 anos do Cimi. É animador sentir o entusiasmo da companheirada, apesar dos enormes desafios que se vislumbram. Os Kaiowá Guarani realizaram importante Aty Guasu, no rancho Jacaré, e os jovens Terena fizeram sua primeira grande Assembleia. Os ventos de agosto já estão chegando. E com ele muito pó e um frio aconchegante", escreve Egon Heck, Cimi-MS, ao nos enviar o artigo que publicamos a seguir.

Eis o artigo.
"Os vários assassinatos de nossas lideranças, nosso Sangue e nossas Lágrimas, a destruição de nossos territórios, tudo não tem preço. Dinheiros algum apagarão as nossas dores e lágrimas derramadas.

Por essa razão,
Não vamos nos calar diante de assassinatos e ameaças de extinção de nossos povos e violações de nossos direitos humanos. Não negociamos nossos direitos conquistados com a nossas lutas e mortes".
(Documento da Aty Guasu do Rancho Jacaré-julho 2012)
"Sugiro a constituição de subgrupos de trabalho para algumas questões mais relevantes, dentre as quais a questão indígena. São milhares deles mortos e desaparecidos durante esse período da ditadura militar. Nunca se abordou com a merecida seriedade e profundidade o que se tem passado com os povos indígenas neste período", disse Rose Nogueira do grupo Tortura Nunca mais, de São Paulo. O grupo liberou uma pessoa para trabalhar especificamente os documentos que tratam das violências contra os povos indígenas neste período. Maurício reforçou a importância de se aprofundar essa questão, sendo a Comissão Nacional da Verdade, um importante instrumento para tanto. E transmitiu uma certa descrença manifestada por uma liderança indígena:"essa aí é mais uma comissão de brancos!"

Egydio Schwade, que foi o primeiro secretário executivo do Cimi, reforçou a denúncia da morte de mais de 2 mil Kiña- Waimiri Atroari, no período de 1970 a 1973, durante a construção da rodovia BR 174, que atravessou o território desse povo. Informou também que já reuniu mais de 150 documentos que comprovam esse massacre, mas manifestou sua esperança de que esse processo da Comissão Nacional da Verdade, traga luzes e divulgue para a sociedade nacional e mundial esses crimes. No decorrer do dia ele deu várias entrevistas à imprensa sobre o assunto e sentiu-se gratificado por ter encontrado muitas pessoas interessados nessa causa e que certamente irão somar nessa busca da verdade e da justiça.
Das muitas sugestões, analises e observações manifestados pelos representantes de entidades de luta pelos direitos humanos em todo o país, houve muita insistência de que a Comissão da Verdade é apenas mais um instrumento na árdua luta que a sociedade civil tem pela frente para evitar que não se repita o terrorismo do Estado e que se conheça a verdade e faça justiça.

Esse primeiro encontro realizado no anexo do Palácio do Planalto, em Brasilia, reunindo dezenas de entidades é apenas uma das inúmeras atividades que a Comissão pretende realizar nesses dois anos que tem para atuar e produzir um relatório.

Mais de cinco milhões de mortos e desaparecidos
Se a Comissão Nacional da Verdade quiser mesmo levar a sério uma investigação sobre os indígenas mortos e desaparecidos, torturados e violentados em sua dignidade, terá pela frente um enorme desafio de começar fazer justiça a esse genocídio secular e atual de povos indígenas no Brasil.

Essas não são apenas práticas e violências do regime ditatorial militar. São realidades vivenciadas pelos povos indígenas hoje, e em especial os Kaiowá Guarani durante quatro séculos e que perdura até os dias atuais.

Embora não se possa afirmar categoricamente que os indígenas por ocasião da invasão do atual território brasileiro, eram 6 milhões de pessoas, esse é uma aproximação de população que fez Darci Ribeiro, e que nos parece ter maior consistência. O mesmo antropólogo estimou a população indígena na década de sessenta, em menos de 100 mil. Significa dizer que foram mais de cinco milhões de indígenas que desapareceram, pelos inúmeros mecanismos de extermínio e morte, desde as guerras justas até os envenenamentos e difusão de surtos de epidemias que dizimavam aldeias inteiras. Foram centenas de povos exterminados.

E não é coisa do passado. Temos no Brasil mais de 70 grupos indígenas em estado de isolamento voluntário que atualmente correm sérios riscos de extermínio diante do avanço acelerado das frontes de expansão agrícola, mineral, geopolíticas... Quem sabe seria esse um momento importante de, uma vez por todas começar a passar a limpo a história desse país, a partir dos povos indígenas, dos negros, dos descartáveis, pelo sistema colonial e o sistema capitalista atual.

Quando a polícia quer
Na semana que passou uma boa notícia veio com a conclusão do inquérito do assassinato do cacique Nisio Gomes. A conclusão foi a que testemunhas oculares afirmaram, tanto indígenas como dos réus, de que o cacique foi morto a tiro, arrastado até uma camionete pelos assassinos e levado para algum esconderijo, no Brasil ou no Paraguai, não tendo sido localizado até hoje.

Segundo o relatório anterior conduzido pela polícia federal regional, não haveria provas de que o cacique teria sido assassinado, e que deveria estar escondido em algum lugar. O relatório acusa o filho de Nisio, o Valmir de ter prestado depoimentos falsos.

Aos leitores não restam dúvidas sobre as razões do desvirtuamento e falta da verdade contida no primeiro relatório. Fica demonstrado que quando a polícia quer, com isenção, esclarecer esse e outros tantos bárbaros crimes contra os indígenas, isso acontece. Esperamos agora que se faça justiça, que se localize o corpo do Nisio, bem como do Rolindo e que se conclua com seriedade e agilidade as dezenas de inquéritos inconclusos dos assassinatos de lideranças Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul.

Que a Comissão da Verdade venha ao território Kaiowá Guarani e contribua com os processos de elucidação de centenas de assassinatos, desaparecimentos e torturas contra esse povo.
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

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