APRESENTAÇÃO

Textos e silêncios pretende ser um espaço reflexivo ecumênico, fundamentalmente voltado para a vida concreta das pessoas a partir de textos e livros, mas também do caminhar contemplativo e meditativo, da vivência amorosa e solidária dos que, de alguma forma, partilharam comigo suas vidas, dores, sofrimentos e esperanças. A eles - e a vocês - devo a minha vida, o olhar que desenvolvi de existência e a experiência cristã do encontro com o Cristo servidor que nos salva. A eles sou devedor, minha eterna gratidão.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A grande transformação do campo religioso brasileiro


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A grande transformação do campo religioso brasileiro

Terça-feira, 28 de agosto de 2012 - 18h02min
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O Censo 2010, recentemente publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE desenha os contornos que apontam para a grande transformação do campo religioso brasileiro. O mapa religioso que emerge desta publicação, já debatido por pesquisadores e pesquisadoras nas páginas diariamente atualizadas do sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, são tema desta edição da IHU On-Line.
O docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, Faustino Teixeira, comenta que a diminuição da declaração de crença católica vem se acentuando há mais tempo. Para Pierre Sanchis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, é das religiões tradicionais que as pessoas tendem a se afastar.
Já para o professor titular do PPG em Ciências Sociais da Unisinos, José Rogério Lopes, as religiões no Brasil tendem a compor futuramente um campo complexo e difuso de filiações e trânsitos dos fiéis entre elas, com tendências ao acirramento da concorrência religiosa.
O professor titular da Universidade Metodista de São Paulo - Umesp, Leonildo Silveira Campos, por sua vez, acredita que talvez os evangélicos não determinados sejam uma expressão dos "desigrejados" que nos EUA ou Europa são muitos, nestes tempos de individualismo e de formação de um rebanho virtual.
Monica Grin, professora do Departamento de História e da Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e Michel Gherman, doutorando no Programa de História Social na UFRJ, avaliam que o censo de 2010 revela um crescimento da população judaica no Brasil.
Já o professor sênior do Departamento de Sociologia da USP, José Reginaldo Prandi, acredita que as religiões afro-brasileiras possuem participação na cultura nacional não religiosa.
Frank Usarski, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, por sua vez, avalia que, baseado nos dados disponíveis, pode-se dizer que em números absolutos, entre 2000 e 2010, houve um crescimento de brasileiros que se declaram budistas.
Para Bernardo Lewgoy, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o espiritismo é invocado como recurso terapêutico em situações de crise pessoal, como doenças, separações, perdas, desemprego, etc.
Renata Menezes, por sua vez, analisa que o censo é uma fotografia da autodeclaração religiosa em determinado contexto. Por fim, a professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Cecilia Loreto Mariz, frisa que, além de Rondônia, que já se destacou no último censo como o estado mais pentecostal, o Amapá, Pará e Acre têm mais de 20% da população pentecostal.

Igualmente compõem esta edição uma entrevista especial realizada com o professor Ronaldo Henn, que afirma que as redes de relacionamento podem constituir os acontecimentos. Nesta semana recordamos de maneira especial a obra de Robert Kurz, recentemente falecido.
O Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão, estabelecido no Laboratório de Geografia Urbana (Labur), do Departamento de Geografia da FFLCH/USP e Ricardo Antunes, professor da Unicamp, discorrem analiticamente sobre a contribuição de Kurz para a crítica da economia política.

Palestina e Israel: caminhos para uma paz justa é o tema da entrevista com Nancy Cardoso Pereira, filósofa, teóloga, pastora da Igreja Metodista. Ela, juntamente, com Eduardo Minossi de Oliveira, graduado em Gegrafia pela UFRGS e Érico Teixeira de Loyola, graduado em Direito pela UFRGS, abordarão o tema na próxima quinta-feira, no IHU, às 17h30min.
O Instituto Humanitas Unisinos - IHU agradece, de maneira particular, ao Prof. Dr. Faustino Teixeira que inspirou e nos assessorou na construção desta edição da revista IHU On-Line. Clique aqui para saber mais.
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

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As lutas comunitárias retratadas em filme sobre Casaldáliga


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As lutas comunitárias retratadas em filme sobre Casaldáliga

Terça-feira, 28 de agosto de 2012 - 17h56min
Começaram no mês passado as gravações do filme que tratará da vida e obra de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia. Conhecido como o bispo dos pobres e dos sem-terras, Dom Casaldáliga nasceu em 1928, foi ordenado sacerdote em 31de maio de 1952, quando uniu-se aos claretianos. Em junho de 1968, mudou-se como missionário para o estado do Mato Grosso e em 23 de outubro de 1971 foi ordenado bispo de São Félix do Araguaia.
Assista ao início das gravações clicando aqui.
A reportagem que segue é do programa RNA Notícias, da Rede Norte Araguaia

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

“Uma vergonha”, diz Dom Erwin sobre decisão do STF de soltar acusado da morte de irmã Dorothy


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“Uma vergonha”, diz Dom Erwin sobre decisão do STF de soltar acusado da morte de irmã Dorothy

Quinta-feira, 23 de agosto de 2012 - 11h44min
O ministro Marco Aurélio Melo, do Supremo Tribunal Federal (STF), deferiu o pedido de habeas corpus, determinando a expedição de alvará de soltura para Regivaldo Pereira Galvão, condenado pelo Tribunal do Júri de Belém (PA) a 30 anos de reclusão pelo homicídio que vitimou a missionária Dorothy Stang. "Recebo essa informação com espanto", declarou o bispo da prelazia do Xingu (PA), dom Erwin Kräutler.
"Não posso admitir que seja esta a Justiça de nosso país. Que Deus tenha pena de todos nós", afirma o bispo, que avalia que a decisão do STF desconsidera o que foi determinado pelo Tribunal de Júri do Pará. "Esta notícia envergonha a todos".

Com a decisão do STF, o juiz de Altamira (PA) Raimundo Moisés Flexa, expediu o alvará de soltura. Regivaldo foi solto na tarde desta quarta-feira. Está marcado, para o próximo dia 3, o depoimento do policial federal Fernando Luiz Raiol, que recentemente protocolou documento em cartório, revelando fatos sobre o assassinato da missionária que poderão ensejar a reabertura do caso.
A informação é publicada pelo Boletim da CNBB

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Condenado pela morte de Dorothy é solto no Pará


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Condenado pela morte de Dorothy é solto no Pará

Quinta-feira, 23 de agosto de 2012 - 11h42min
Acusado de ser um dos mandantes do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em 2005, Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão, foi solto na tarde de ontem no Pará, por determinação do STF (Supremo Tribunal Federal). O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo, concedeu na última segunda uma decisão liminar (provisória) favorável à soltura, em resposta a um pedido de habeas corpus.
Segundo seu advogado, Jânio Siqueira, Galvão estava "abatido" e foi direto para sua casa, que fica em Altamira (a 900 km de Belém). Galvão foi condenado, em maio de 2010, a 30 anos de prisão em regime inicialmente fechado. Há um recurso da defesa, ainda em tramitação, tentando anular a condenação.

O ministro do STF entendeu que Galvão só pode ser preso quando o processo contra ele transitar em julgado (não couber mais recursos). Ainda de acordo com o ministro, não há provas de que, em liberdade, ele ofereça risco ao andamento do processo. O advogado de Galvão já havia pedido a liberdade ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), sem sucesso.

A missionária Dorothy Stang foi morta em fevereiro de 2005 na região de Anapu (a 766 km de Belém). O motivo, segundo a Promotoria, foi a disputa por terras com fazendeiros da região.


OUTROS ACUSADOS
Com a decisão do Supremo, Galvão será o segundo dos cinco condenados pela morte da missionária a ser colocado em liberdade. O outro que está livre, Clodoaldo Batista -acusado de coautoria no crime-, está foragido desde fevereiro do ano passado.

Além de Galvão, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, também foi condenado sob a acusação de ser o outro mandante do assassinato. Amair Feijoli da Cunha foi acusado de ser intermediário. Já Rayfran das Neves Sales, de ser o autor do crime.
A reportagem é de Aguirre Talento e foi publicada pelo jornal Folha de S. Paulo.

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Acompanhando nosso caminhar teológico latino-americano


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Acompanhando nosso caminhar teológico latino-americano

Terça-feira, 21 de agosto de 2012 - 13h19min
O Congresso Americano de Teologia "será um espaço para renovar a força do pequeno e do frágil e a capacidade de transformação da palavra de Deus com a boa nova de libertação que encerra", escreve Consuelo Vélez, teóloga colombiana, comentando a realização deste evento nos dias 7 a 11 de outubro, na Unisinos, São Leopoldo, RS.
Segundo ela, "será um congresso no qual a esperança se avivará e o amor estará presente porque, por trás da reflexão teológica, está a vida e o compromisso de muitas pessoas que chegaram até o martírio por defenderem os mais pobres e por comprometerem sua vida com a defesa de seus mais elementares direitos"
Eis o artigo.
Pouco a pouco nosso continente latino-americano tem ido se posicionando como um interlocutor válido frente aos países do primeiro mundo e tem fortalecido sua identidade cultural e religiosa, deixando de se sentir receptor de tudo o que venha de fora, para oferecer suas próprias riquezas. No campo teológico, isso tem sido claro na chamada teologia latino-americana que, partindo do método ver-julgar-agir, produziu uma teologia capaz de assumir a realidade da pobreza e da exclusão que tem marcado tanto a vida do continente e tem ido além, assumindo os novos desafios que se percebem, tais como a questão ecológica, a questão indígena, a realidade da mulher, a realidade afro-americana, o pluralismo cultural e religioso, etc. Vale a pena recordar a valoração que a 5ª Conferência do Episcopado latino-americano e caribenho deu a tal método pastoral, afirmando ele "que tem colaborado para viver mais intensamente nossa vocação e missão na Igreja, que tem enriquecido o trabalho teológico e pastoral e que, em geral, tem motivado a assumir nossas responsabilidades ante as situações concretas de nosso continente" (DA 19).
É por isso que a celebração, em outubro, do Congresso Continental de Teologia em São Leopoldo, é motivo de gozo e esperança. Com este congresso procura-se comemorar os 50 anos da inauguração do Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação. Perspectivas, de Gustavo Gutierrez. Ambos os acontecimentos permitem entender o surgimento e o desenvolvimento da reflexão teológica latino-americana, resultado de um sincero compromisso com a colocação em prática do Vaticano II no continente.
Como preparação ao congresso, foram realizadas, durante 2011, quatro Jornadas teológicas regionais que reuniram os diversos países: na Guatemala (América Central e Caribe), no Chile (Cone Sul e Brasil), no México (Estados Unidos e México) e em Bogotá (países andinos). A partir desses encontros, a iniciativa do congresso pretende ser a de um congresso prospectivo "que mobilize a comunidade teológica para enfrentar os desafios que a emergência do novo paradigma civilizatório, as profundas mudanças culturais, os diversos movimentos sociais e as inovações científicas levantam para a teologia, como serviço às igrejas e à humanidade num mundo globalizado e excludente" (cf. Carta Convocatória do congresso).
Será um congresso católico, com abertura ecumênica, dirigido a teólogos e teólogas de caráter popular, pastoral e acadêmico, e a todos aqueles que se sentem comprometidos com o caminhar social e eclesial. Sua metodologia incluirá conferências, oficinas de participação temática, painéis abertos e cinefóruns. Temas como economia, novos movimentos sociais, sujeitos emergentes, espiritualidade, opção pelos pobres, método teológico, novos paradigmas, migrações, direitos humanos, questões de gênero, entre muitos outros, serão analisados e refletidos a partir da fé, para se avançar num discurso teológico significativo e atual para a realidade que nos desafia.
Assistirão a este congresso muitos teólogos e teólogas da primeira hora, como também muitos outros/as das novas gerações. Em todos existe essa fé inquebrantável no evangelho de Jesus, esse evangelho lido a partir dos pobres, do sofrimento dos últimos, dos excluídos e marginalizados, a partir dos desafios e questionamentos atuais que urgem crer em "outro mundo possível", organizado, não a partir do poder e do ter, mas a partir do serviço e do compartilhar. Será um espaço para renovar a força do pequeno e do frágil e a capacidade de transformação da palavra de Deus com a boa nova de libertação que encerra. Será um congresso no qual a esperança se avivará e o amor estará presente porque, por trás da reflexão teológica, está a vida e o compromisso de muitas pessoas que chegaram até o martírio por defenderem os mais pobres e por comprometerem sua vida com a defesa de seus mais elementares direitos. Esse congresso continental, que desde já vale a pena acompanhar com oração e disposição de fazê-lo possível, afirma, uma vez mais, o Deus da Vida, esse Deus comprometido com os mais pobres e pequenos, o Deus que nos salva a partir deles e com eles.
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

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INTEGRA DO MANIFESTO DOS POVOS DO XINGU


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Íntegra do manifesto dos povos do Xingu

Terça-feira, 21 de agosto de 2012 - 13h08min
Manifesto dos Povos do Xingu, reunidas na cerimônia do Kuarup, encaminhado à presidente Dilma Rousseff. Na cerimônia esteve presente Ana Buarque de Hollanda, ministra da Cultura, ocasionando um incidente.
Eis o manifesto.
À Excelentíssima Srª Presidenta da República do Brasil
Dilma Roussef
CC: À Ministra da Cultura
Srª Ana Maria Buarque de Hollanda
CC: Ao Governador do Mato Grosso
Silval da Cunha Barbosa

Nós, as organizações e lideranças indígenas do Xingu, reunidas na cerimônia do Kuarup, em 18 de agosto de 2012, na Aldeia Yawalapíti, Território Indígena do Xingu (TIX), Mato Grosso, vimos manifestar nossa insatisfação diante dos seguintes atos de violação aos direitos indígenas: a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 215; o não-cumprimento da Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho, na realização de grandes projetos com impactos sobre terras indígenas, como Belo Monte; as modificações realizadas no Código Florestal; as propostas em tramitação para regulamentação das atividades de mineração em terras indígenas e a mais recente e grave Portaria nº 303 da Advocacia-Geral da União.

Sendo assim, os povos indígenas do Xingu reforçam as manifestações de outros movimentos indígenas do Brasil e exigem: a) imediata revogação da Portaria nº 303 da AGU; b) pleno cumprimento da Convenção nº 169 da OIT, com destaque para o direito de consulta livre, prévia e informada dos povos indígenas; c) ação enérgica do Governo Federal para garantir a proteção de Matas Ciliares e Áreas de Preservação Permanente (APPs), tendo em vista a crescente degradação das cabeceiras dos rios que atravessam e alimentam as terras indígenas.

No momento em que o Brasil se prepara para sediar um evento de caráter mundial, as Olimpíadas de 2016, o Governo Federal usa, como estratégia de marketing, a imagem de povos indígenas, especificamente xinguanos, o que contrasta com o crescente e assustador retrocesso de nossos direitos.

É urgente que o Estado brasileiro faça mais do que valorizar as culturas indígenas de forma simbólica. É preciso que, na prática, sejam garantidos a manutenção e o cumprimento dos direitos já conquistados. Esta, sim, seria uma manifestação verdadeira de respeito aos povos indígenas, algo de que o Brasil poderia se orgulhar de mostrar ao mundo.

Assinam as organizações: Associação Terra Indígena Xingu (ATIX); Instituto de Pesquisa Etnoambiental do Xingu (IPEAX); Portal do Xingu; Associação Yawalapíti Awapá (AYA); Associação Tulukai Waurá; Associação Mavutsinim Kamayurá; Associação Indígena Kuikuro do Alto Xinzu (AIKAX); Associação Moygu Comunidade Ikpeng (AMCI); Associação Indígena Kisêdjê (AIK); Associação Uyaipiuku Mehinako; Associação Indígena Yarikayu Yudjá; Centro de Organização Kawaiwetê; Associação Aweti.

E os Povos indígenas do Xingu: Yawalapíti, Trumai, Ikpeng, Waurá, Kamayurá, Kuikuro, Kalapalo, Nahukwá, Matipu, Aweti, Mehinako, Yudjá, Kisêdjê, Kawaiwetê, Naruvutu, Tapayuna.
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

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Para Casaldáliga filme não deve ser pessoal, mas retratar as verdadeiras causas da luta


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Para Casaldáliga filme não deve ser pessoal, mas retratar as verdadeiras causas da luta

Segunda-feira, 20 de agosto de 2012 - 13h14min
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A vida de Pedro Casaldáliga, o bispo espanhol reconhecido como um dos grandes expoentes da Teologia da Libertação latino-americana e radicado, desde 1968, no distante São Félix do Araguaia (Brasil), está sendo filmada numa coprodução brasileira-espanhola para a televisão.
"Nesta terra é fácil nascer e morrer, o difícil é viver", disse Casaldáliga, da região que há 44 anos adotou, quando chegou a São Félix (no Estado de Mato Grosso, na Amazônia) e encontrou-se com um mundo de tensões sociais, onde grandes latifundiários se empunhavam sobre os pobres, camponeses e indígenas.

Hoje, com 84 anos e ainda radicado em São Félix, continua empenhado em sua luta. "Nós nos conformamos com este sistema que faz da humanidade um negócio", declarou à agência AFP, com a voz fragilizada pelo Parkinson, mas com uma lucidez intacta.

Casaldáliga também continua defendendo uma Igreja comprometida com o povo. "Hoje, mais do que nunca, a Igreja teria que ser a voz da esperança", disse, e defendeu que "o Vaticano não seja Estado, o Papa não seja chefe de Estado, que reconheça os direitos da mulher, que não seja uma Igreja de poder e sim de serviço", disse.

Este padre catalão, que nunca voltou para a Espanha, enfrentou os latifundiários, o governo e até o Vaticano em sua denúncia ao latifúndio e defesa dos camponeses, indígenas e por uma Igreja mais comprometida. Viveu ameaçado de morte por pistoleiros, e foi fundador da Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista, marcos na luta pela reforma agrária e pelos direitos dos indígenas.

"A [vida] de Casaldáliga é uma história de luta e conquista da terra, no Brasil, e a de compromisso de um homem que diante de uma situação extrema, deu uma resposta extrema, entregando sua vida para resolver essa situação. É uma história universal e isso é o que dá força ao filme", conta à agência AFP, Francesc Escribano, escritor e jornalista catalão, autor do livro "Descalço na terra roxa", que dá título ao filme, do qual também é produtor.

Uma equipe de 100 pessoas chegou a São Félix do Araguaia para as filmagens, até início de setembro. A cidade, distante 24 horas de ônibus de Brasília, hoje possui cerca de 10.000 habitantes e carece de estradas asfaltadas.

Para o filme, foram reconstruídos cenários que procuram voltar a como era 40 anos atrás: uma terra em processo de colonização, com prostíbulos e pistoleiros, explica Escribano.

O autor catalão, Eduard Fernández, interpreta Casaldáliga na que será uma minissérie de dois capítulos, com um orçamento de 3,5 milhões de euros, contando com o roteirista do premiado filme "Central do Brasil", Marcos Bernstein, em que participam a Televisión Espanhola, a catalã TV3 e a TV Brasil.

Em 1988, Casaldáliga foi chamado a Roma e submetido a um duro interrogatório pelo então cardeal Joseph Ratzinger. Interpretado como um empuxo entre dois pesos pesados da Igreja, esse diálogo é o ponto de partida do filme. Em 1985, o bispo catalão viajou a Nicarágua para apoiar a greve de fome do chanceler e sacerdote Miguel d'Escotto, e para Cuba a convite do então presidente Fidel Castro. Dele, o teólogo brasileiro frei Betto, um símbolo da esquerda católica latino-americana, afirmou: "Há no Brasil um santo e herói, Pedro Casaldáliga. Santo por sua fidelidade radical ao Evangelho, herói pelos riscos de vida enfrentados e as adversidades sofridas".

"Não façam um filme sobre mim, que seja um filme sobre as verdadeiras causas desta luta: a vida, a liberdade e a dignidade", pediu Casaldáliga ao seu amigo Escribano, quando soube que produziria o filme.
A reportagem é publicada pelo sítio Religión Digital

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Mães da Igreja!


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Mães da redenção

Segunda-feira, 16 de julho de 2012 - 9h24min
Qual é a diferença entre Proba, a Poetisa, e Proba, a Viúva? Será que Santa Helena realmente encontrou a Verdadeira Cruz? Qual foi a oração de Santa Mônica por Agostinho? Essas e outras questões são abordadas em um novo e fascinante livro chamado Mothers of the Church [Mães da Igreja] (Ed. Our Sunday Visitor), de Mike Aquilina e Christopher Bailey. Todos nós já ouvimos falar dos Padres da Igreja, e agora vamos ouvir falar das Mães da Igreja.

Embora o catolicismo seja acusado nestes dias de discriminação contra as mulheres por não ordená-las sacerdotisas e por fazê-las pagar por sua própria contracepção (o controverso mandato do Departamento de Saúde e Serviço Social dos EUA - HHS), o fato é que a Igreja praticamente inventou a ideia de igualdade entre os sexos com o famoso dito de São Paulo de que em Cristo "não há homem nem mulher" (Gálatas 3, 28).

Romanos do primeiro século zombavam dos cristãos por falarem e ouvirem as fracas mulheres, mas a visão cristã do mundo prevaleceu. Para conhecer a história interna desse instigante livro, o sítio Fathers for Good contatou o autor Mike Aquilina.


Eis a entrevista.

Você escreveu um livro sobre os Padres da Igreja, e agora sobre as Mães. Existe alguma substância real nas vidas das cristãs primitivas?

As vidas das mulheres cristãs são mais substanciais do que a minha vida jamais será. E elas provavelmente foram tão responsáveis quanto quaisquer homens pelo rápido crescimento da Igreja ao longo dos primeiros três séculos. A sua história não foi contada porque elas tenderam a trabalhar de formas que foram ignoradas pelos relatos históricos-padrão. Elas não foram guerreiras ou pregadoras ou legisladoras. Mas elas não sentiram necessidade de sê-lo. Elas viveram o cristianismo heroico e prodigioso em seus próprios termos.
É tão perigoso fazer generalizações sobre as primeiras mulheres cristãs quanto fazer generalizações sobre as mulheres cristãs que vivem na minha casa (eu tenho uma esposa e cinco filhas). As mulheres do nosso livro são maravilhosamente muito variadas. Há Tecla, que foi companheira de São Paulo em suas viagens. Há Proba, que foi uma poetisa, e outra mulher chamada Proba, que era uma administradora de negócios. Todos conhecem e amam as santas Mônica e Perpétua, que foram mães. As santas Marcela, Paula e Eustóquia eram estudiosas e contemplativas. As santas Blandina e Felicidade eram servas domésticas, mas nós as conhecemos melhor como mártires. Macrina foi uma guia espiritual e mestra de um (e talvez de dois) dos grandes Padres e Doutores da Igreja [São Gregório de Nissa e São Pedro de Sebaste].

Você diz que o cristianismo estimava as mulheres e as libertava. Como assim?
A frase comum aos dramaturgos romanos usada para as filhas do sexo feminino era "odiosa filha". As culturas pagãs tinham pouco respeito pelas mulheres e pelas meninas. Elas eram consideradas um vazamento na economia familiar, já que as meninas exigiam um dote, mas nunca contribuiriam com renda e prestígio para a família. Assim, elas se casavam o mais cedo possível, geralmente aos 11 ou 12 anos, com um homem escolhido pelo seu pai. Elas eram livres para recusar a sua escolha, mas raramente o faziam, já que o pai era livre para condenar à morte uma filha que o desobedecia. E essa possibilidade não era tão improvável. Muitas, se não a maioria, das filhas nascidas em famílias pagãs eram mortas ao nascer. O infanticídio feminino era rotineiro na sociedade greco-romana. Ele era legal e até mesmo elogiado pelos filósofos.
No mundo pagão, o valor de uma mulher vinha da sua relação com um homem - primeiro o seu pai, depois o seu marido, por último pelos seus filhos. Suas obras não significavam nada. De fato, ela tinha pouca oportunidade para realizar obras. O cristianismo virou tudo isso de cabeça para baixo. Na verdade, o cristianismo começa com a Virgem Maria, que tem sido reverenciada acima de todos os outros seres humanos. Os cristãos exaltavam as mulheres como heroínas do seu grande épico, os Atos dos Mártires. E a Igreja promovia a liberdade vocacional das mulheres. De repente, surgiu uma classe de mulheres, as virgens e viúvas consagradas, que se declararam independentes de qualquer coisa que um homem terreno tinha para oferecer. Isso foi revolucionário. Isso fez da Igreja o que ela é. Isso assustou o mundo pagão e selou o seu fim.

Hoje, a Igreja é acusada de travar uma "guerra contra as mulheres", porque se opõe à contracepção. As mulheres da Igreja primitiva demandavam a contracepção?
Não! As mulheres greco-romanas eram oprimidas pela contracepção, oprimidas pelo aborto, oprimidas pelo infanticídio. Essas três práticas vinham como um pacote único. A menos que algo radical mude na nossa sociedade, logo teremos todos os três juntos de novo. A maioria das pessoas não sabe que a contracepção era uma prática comum no mundo antigo, e os métodos eram provavelmente muito eficazes. E os métodos também não eram tão diferentes do que se oferece em nossos supermercados e farmácias. Havia os métodos de barreira e abortivos. Os primeiros escritos cristãos se referem a eles e condenam a todos.
A contracepção, então como agora, mutila as mulheres. Ele faz com que elas sejam menos do que são, de modo que elas possam servir de brinquedos de ninar para os homens. Na Roma antiga, o controle da natalidade era um componente essencial em uma cultura pornográfica que objetivava as mulheres. Também era uma forma lenta de suicídio cultural. Os romanos estavam acostumados a um estilo de vida sem amarras, sem se incomodar com obrigações como filhos ou fidelidade conjugal. Assim, os casais não podiam ser persuadidos nem mesmo coagidos a se reproduzir. Isso desempenhou um papel de destruição demográfica sobre o império, com consequências terríveis para a economia para a segurança interna.
E o que era ruim para o império era pior para as mulheres. Em uma economia ruim ou em uma guerra, as mulheres muitas vezes sofriam primeiro e pior. Lembremo-nos do que uma cultura contraceptiva faziam com as suas mulheres. Lembremo-nos que essas mulheres eram pressionadas a assistir, um após o outro, os seus filhos serem afogados ao nascer. As mulheres queriam sair desse mundo. O cristianismo oferecia a única forma de libertação das mulheres.

Há alguma mensagem especial que podemos extrair desse livro?
Para as mulheres: conheçam essas ancestrais mais antigas na fé. Elas ainda são modelos de feminilidade. Elas ainda são intercessoras. Como irmãs como elas, a irmandade é realmente poderosa. Para os homens: respeitem as mulheres da sua vida. Deixem-nas ser para vocês o que Marcela foi para Jerônimo, o que Mônica foi para Agostinho, o que Macrina foi para Gregório de Nissa. Em Cristo, não há homem nem mulher. Nenhuma dessas mulheres antigas foram sacerdotisas. Elas não precisam ser. Elas foram mães - mesmo aquelas que nunca tiveram filhos em seus próprios corpos. Elas ainda estão sendo nossas mães hoje.
A reportagem é do sítio Fathers for Good. A tradução é de Moisés Sbardelotto

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Surge na Internet rede cristã de relacionamento


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Surge na Internet rede cristã de relacionamento

Terça-feira, 21 de agosto de 2012 - 13h21min
Cristãos e pessoas de boa vontade têm à disposição uma nova rede de relacionamento: o Hizby, criada pelo empresário Júnior Gonçalves, 26 anos, com o propósito de estimular valores de respeito e ética, e combater a maldade e a corrupção.
Internautas podem postar, como numa rede social qualquer, mensagens, fotos, textos, vídeos, participar de grupos. Mas o Hizby possibilita, ainda, motivos de oração e testemunhos, além de eventos das igrejas. Ele se propõe a discutir religião na rede social.

Outro detalhe: palavrões, pornografia, marketing, pirâmides, bullying, assédios de quaisquer tipos contra usuários são vedados no Hizby, que tem seus mecanismos de bloqueio para evitar tais ações. A adoção à rede é vetada para pessoas com menos de 13 anos de idade.

O site também abre espaços para as igrejas se cadastrarem e montarem o seu perfil. A sede do Hizby fica em Porto Velho, Rondônia, um dos Estados com maior concentração de evangélicos no Brasil. Com um investimento de 300 mil reais, bancado por um grupo de empreendedores cristãos, o Hizby pretende chegar a 200 mil internautas até o final do ano.
Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)

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nova evangelização


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A nova evangelização e os novos profetas da desgraça - Enzo Bianchi

Terça-feira, 21 de agosto de 2012 - 13h24min
Nas últimas décadas, caíram as ideologias portadoras de uma esperança messiânica intra-humana, fracassou a transmissão da fé cristã pela geração que está desaparecendo às novas gerações que se assomam ao horizonte, tornou-se muito fraco o anúncio do evangelho como boa notícia aqui e hoje.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de agosto de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Já está próxima a celebração do Sínodo dos Bispos que irá refletir sobre o tema da evangelização de modo a poder dar indicações à Igreja universal, indicações que depois deverão ser concretizadas, traduzidas e realizadas de modo diferenciados e específico nas diversas áreas culturais do mundo. No entanto, continua sendo verdade que esse tema, quando é anunciado como "nova evangelização", diz respeito sobretudo ao Ocidente europeu e norte-americano, as terras de mais ou menos antiga cristianização, terras em que se viveu um sólida pertencimento às Igrejas cristãs, mas que hoje - depois do fenômeno da secularização e do desencanto religioso - estão contaminadas pelo indiferentismo.

Nas últimas décadas, caíram as ideologias portadoras de uma esperança messiânica intra-humana, fracassou a transmissão da fé cristã pela geração que está desaparecendo às novas gerações que se assomam ao horizonte, tornou-se muito fraco o anúncio do evangelho como boa notícia aqui e hoje.

Eis, portanto, a urgência de repensar as palavras de Jesus, que enviava os seus discípulos em missão no mundo inteiro (cf. Mc 16, 15), até as extremidades da terra (cf. Atos 1, 8), entre todos os povos e até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 19-20). Isso na convicção de que o nosso tempo, a contemporaneidade - o único tempo que conhecemos ao viver imersos neles - é sempre um "momento favorável" para o anúncio da boa notícia de Jesus Cristo, o único Filho de Deus e o autêntico homem.

No tempo oportuno ou não oportuno (eúkairos - Ákairos, cf. 2Tm 4, 2), se há em nós uma humanização que ocorre na sinergia entre a graça do Senhor - isto é, o Espírito Santo - e o nosso espírito, então nós devemos testemunhá-lo, anunciá-lo a quem nos pede conta do nosso modo de viver, dessa esperança que nos habita (cf. 1Pd 3, 15), dessa prática do amor que Jesus nos pede para viver cotidianamente.

Então, é inútil procurar estratégias ou táticas de nova evangelização, é pernicioso ter medo da nossa fraqueza devida a uma diminutio numérica, mas não de significado, é mundano esperar em um retorno da cristandade tranquilizante dos tempos passados.

Mas então o que devemos procurar, como devemos nos mover nesse êxodo de uma terra que deixamos para trás para nos dirigir rumo a uma margem que não conhecemos, mas que sabemos que é um horizonte habitado pela potência de Jesus ressuscitado e vivo, à espera do nosso desembarque para iniciar um outro êxodo, para passar de êxodo em êxodo até o reino?

Acredito que, acima de tudo, devemos mudar a nossa atitude para com a humanidade em que estamos imersos e da qual fazemos parte: uma humanidade não mais cristã, mas que devemos ouvir nas suas manifestações mais impressionantes e nos seus gemidos. Como Igreja, devemos nos exercer a uma leitura sábia da história, sem ceder à tentação de assumir posições defensivas, de encastelar-nos em cidadelas que forçosamente contam com o número e com os recintos: é fácil ceder a essa falta de fé no Senhor da história, o Senhor amante dos seres humanos, o Senhor, que "quer que todos os seres humanos sejam salvos" (1Tm 2, 4), e se tornar profetas da desgraça, como advertia João XXIII há 50 anos atrás, no início do Concílio.

Devemos ouvir para aprender, na consciência da autonomia da história e na liberdade da humanidade que, no entanto, continua sendo querida por Deus, composta por pessoas cada uma "criada à imagem de Deus" (cf. Gn 1, 26): esse selo impresso por Deus em cada ser humano, justo ou pecador, nunca poderá falhar. Trata-se também de não alimentar ingenuidade, de não ser desprovido de humanidade, mas capaz de discernir a presença do mal reconhecendo, porém, o caminho de humanização e de autocorreção do qual o ser humano é capaz, como nos recorda Christoph Theobald.

É nesse espaço em que a Igreja encontra o mundo na escuta e no diálogo recíproco que os cristãos munidos de uma fé madura, exercitada, pensada, dizem e vivem o evangelho, acima de tudo como escola de humanidade, caminho de humanização: cristãos que sabem despertar confiança naqueles que encontram, naqueles dos quais se fazem próximos; cristãos que sabem discernir nos outros a fé humana que os habita e aos quais podem doar palavras, atitudes e ações que narram Jesus de Nazaré.

A crise de fé hoje, antes de ser crise de fé em Deus, é uma crise de confiança humana, é a falta de confiança nos outros, na vida, no futuro e, acima de tudo, é fraqueza em acreditar no amor (cf. 1Jo 4, 16). Apenas em um terreno tão humanizado e predisposto, Deus pode então realizar o que só Ele é capaz de operar: doar a fé, isto é, iniciar uma relação com quem ouve a sua palavra, que quem encontra Jesus Cristo, porque "a fé nasce da escuta" (fides ex auditu: Rm 10, 17).

Então, a Igreja encontrará em seu limiar aqueles que desejam e pedem para ser introduzidos em Jesus Cristo, que pedem para se tornar o seu corpo através do batismo e da eucaristia... Assim ocorre a geração em Cristo e na Igreja, assim a evangelização se torna evento de encontro, de relação viva entre Deus e o ser humano: no tecido de relações humanas cotidianas entre cristão testemunha evangelizador e o ser humano de hoje. A evangelização, de fato, sempre depende do testemunho pessoal de quem evangeliza: o evangelho, a boa notícia só acontece no encontro, na relação com uma pessoa.

Os homens e as mulheres de hoje continuam perguntando: "como viver?". Nós não lhes respondemos procurando novos métodos mais refinados, não respondemos com a expectativa de um percurso fácil: tentamos apenas viver a fé e, portanto, despertar confiança, sem ter medo, porque o Senhor está conosco, e quanto mais nos sentimos fracos, mais opera em nós a sua força (2Cor 12, 10).
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
www.cebi.org.br 

sábado, 18 de agosto de 2012

Manifesto de Apoio ao povo Xavante de Marãiwatsédé


Manifesto de Apoio ao povo Xavante de Marãiwatsédé

Terça-feira, 14 de agosto de 2012 - 21h01min
"Aguardamos ávidos a comunicação de que Marãiwatsèdè regressou aos seus verdadeiros donos: o povo A'uwe Uptabi ou Povo Xavante como são mais conhecidos", afirma Manifesto da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) sobre  a devolução da Terra Indígena Marãiwatsédé, no nordeste de Mato Grosso aos povos Xavantes.
Eis o manifesto.
O conflito vivido pelo povo Xavante da Terra Indígena de Marãiwatsèdè tornou-se um caso emblemático de violação aos direitos humanos e da truculência praticada pelo Estado e pelos invasores contra os povos indígenas em Mato Grosso e no Brasil.

Essa violação se delonga desde a década de 60 quando o território dos Xavante fora ocupado pela Agropecuária Suiá-Missú (o maior latifúndio do mundo na época). Nesse período os indígenas foram transferidos para a Terra Indígena São Marcos, na região sul de Mato Grosso, e por lá permaneceram cerca de 40 anos, posteriormente, a fazenda foi vendida para a petrolífera italiana Agip. Durante a Rio 92 a empresa italiana foi pressionada a devolver aos Xavante seu território de origem. 

De acordo com a Funai em 1992 (quando começaram os estudos para a demarcação da Terra Indígena Marãiwatsèdè a área passou a ser ocupada por invasores). Mesmo sem o amparo do Estado os guerreiros Xavante retornaram ao seu território e vivem atualmente espremidos em apenas 10% da área homologada em 1998 (com 165.241 hectares) de posse permanente e usufruto exclusivo desse povo. Os 90% restante do território, atualmente, está tomado ilegalmente por fazendeiros e invasores, majoritariamente, criadores de gado e produtores de soja que exaurem o ambiente, acuam e ameaçam os indígenas.

Vivendo as margens do seu território e das políticas públicas os indígenas aguardam fazer valer seus direitos. Sucessivos recursos jurídicos foram tomados para que Marãiwatsèdè volte a ser ocupada pelos primeiros habitantes: o povo Xavante. Recentemente, esse direito foi definitivamente reconhecido pela Justiça Federal de Mato Grosso que homologou o plano de desocupação de não índios da região.

Resumidamente, a referida decisão judicial do processo nº 2007.36.00.012519-0, determina que:

- A FUNAI em um prazo de 48 (quarenta e oito) horas (a partir do dia 31/07) forneça a lista dos ocupantes, não-índios, identificados em Marãiwatsèdè, bem como, informe a data de início do processo de desintrusão, cujo prazo não poderá ser inferior a quinze dias à comunicação a ser feita a este juízo;

- Conhecida a data de início da desocupação, oficie-se de imediato, com prazo não inferior a 10 (dez) dias, à Polícia Federal e à Força Nacional de Segurança, para que prestem auxílio total e irrestrito durante todo o processo de execução da desintrusão;

- Mandados de desocupação da área indígena, com prazo de trinta dias, mantendo-se na área de domínio da UNIÃO somente os índios, conforme já decidido por este juízo.

Na luta por justiça ambiental, a Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) e o Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso (FDHT) vêm a público manifestar seu irrestrito apoio ao povo Xavante de Marãiwatsèdè, solicitar que os prazos sejam rigorosamente cumpridos, e, sobretudo, que a segurança e a dignidade dos indígenas sejam garantidas durante o processo de desintrusão. Aguardamos ávidos a comunicação de que Marãiwatsèdè, regressou aos seus verdadeiros donos: o povo A'uwe Uptabi ou Povo Xavante como são mais conhecidos.


Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso (FDHT-MT)
Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

Lugo foi destituído porque buscava a justiça social


CEBI

Lugo foi destituído porque buscava a justiça social

Terça-feira, 14 de agosto de 2012 - 21h05min
O bispo paraguaio Mario Melanio Medina, uma das figuras mais influentes da Igreja católica, disse ontem que a destituição do presidente constitucional, Fernando Lugo, aconteceu porque ele buscava a equidade social no país.
Medina, bispo dos departamentos de Misiones e Ñeembucú, durante sua homilia dominical, afirmou que o ocorrido foi um golpe parlamentar e que tiraram o mandatário de seu cargo por desejar lutar em favor dos pobres. 

Ele acrescentou que os autores do golpe puseram em seu lugar Federico Franco, que não fará nada "porque estará atado com o capitalismo, a estrutura parlamentar e com os que têm o poder econômico".

Destacou que o capitalismo coloca rótulo sobre aqueles que protestam e buscam a igualdade social e os acusam de comunistas, socialistas ou esquerdistas.

Durante a celebração, fez menção ao isolamento internacional do atual governo e expressou que, devido à conjuntura atual, dias difíceis virão, sendo necessário estar preparados. Este governo não é reconhecido pelos países do Mercosul e por muitos outros, em nível mundial, e como agora vivemos na globalização, é importante a cooperação das nações estrangeiras, disse Medina.

Em outra parte de sua manifestação, investiu contra o Congresso, autor do julgamento político de Lugo, e advertiu que o governo de Franco seguirá de tropeço em tropeço porque o Parlamento não responde ao Executivo e atua em favor de seus próprios interesses.

O Paraguai e a América Latina estão entre dois modelos: o que busca a igualdade social e o capitalismo, que somente quer aglutinar fortuna, sendo que a situação dos pobres não o interessa em absolutamente nada, expressou finalmente.
A reportagem é publicada pelo sítio Religión Digital. A tradução é do Cepat.

Politica de alianças


Política de alianças: entre a necessidade e os limites

Terça-feira, 14 de agosto de 2012 - 21h08min
A campanha eleitoral deste ano está nas ruas. Perplexa, a opinião pública assistiu às alianças partidárias feitas para as próximas eleições municipais. A revista IHU On-Line desta semana discute a necessidade e os limites, também necessários, das alianças políticas. Contribuem no debate Luiz Werneck Vianna, Roberto Romano, Renato Janine Ribeiro, Maria Victoria de Mesquita Benevides, Marco Aurélio Nogueira, José Antonio Spinelli e Jairo Nicolau.

Dá para pensar a política eticamente sim ou não?
Para Renato Janine Ribeiro, a questão de os partidos não terem exatamente uma identidade indica o fato de que uma boa parte do eleitorado também não tem
Por: Graziela Wolfart e Patricia Fachin
Antes de analisar a conjuntura política atual, é fundamental que se entenda um pouco das bases teóricas e fundantes de nosso sistema político, partidário e eleitoral. E esta é a contribuição que o filósofo Renato Janine Ribeiro oferece na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. Em sua percepção, temos um sistema no Brasil "em que dois partidos estão firmes, correspondem a anseios, desejos, projetos. Esses dois partidos são os líderes da política brasileira, um de cada lado: o PT e o PSDB. Há 18 anos esses dois partidos se alternam no governo federal. São partidos que expressam algo". Ao argumentar sobre a complexidade do conceito de política, Janine Ribeiro aponta que "uma característica atual muito forte da maneira de pensar a política é vê-la de forma indecente. Há um descontentamento ético hoje com a política democrática e talvez esta seja a principal decepção popular com a política, o que nos impõe um grande desafio em nossos dias: dá para pensar a política eticamente sim ou não?". O professor também reflete sobre os rumos de PT e PSDB e sobre a subordinação da política à economia: "vejamos o governo Lula: foi um governo de distribuição de renda, mas não de redistribuição de renda. Não foi um governo que tirou dos ricos para dar aos mais pobres, o que seria inteiramente lícito. Foi um governo que conseguiu, com o aumento do PIB brasileiro, dar uma parte maior do que foi aumentado para os mais pobres. Mas não houve um enfrentamento do capital. Nesse sentido, podemos dizer que até 2002 havia mais partidos e políticos no Brasil enfrentando o capital do que temos hoje".
Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo, na qual se doutorou após defender mestrado na Sorbonne, Renato Janine Ribeiro tem se dedicado à análise de temas como o caráter teatral da representação política, a ideia de revolução, a democracia, a república e a cultura política brasileira. Entre suas obras destacam-se A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 2000) e A universidade e a vida atual - Fellini não via filmes (Rio de Janeiro: Campus, 2003). Renato Janine Ribeiro é desde 2004 diretor de avaliação da Fundação Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior, órgão do Ministério da Educação).

As alianças políticas, absolutamente necessárias, e seus limites
Werneck Vianna defende que as alianças feitas no presidencialismo de coalizão não servem para que uma determinada orientação seja posta em prática, ou um determinado programa se viabilize, mas apenas para garantir maioria parlamentar para o governante
Por: Graziela Wolfart
Na visão do sociólogo Werneck Vianna, a ampla maioria que hoje o chefe do Executivo tem conseguido lograr no Legislativo tem dado estabilidade à política brasileira. "Mas é uma estabilidade que não faculta a aventura, o risco, a descoberta, a inovação. Certas reformas muito necessárias para que o país dê um avanço, um salto, esbarram nessa larguíssima coalizão que atinge várias dimensões, desde a economia e a política até a sociedade. Os ventos cruzados que se estabelecem no interior da coalizão governamental fazem com que haja um comportamento paquidérmico do governo, que é obrigado a respeitar os limites dados por essa amplíssima base governamental, onde todos cabem e onde tudo cabe". Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line Werneck afirma que o sistema partidário brasileiro "não foi feito para que a sociedade encontre formas expressivas de se incluir no mundo da política. Ele está feito para expressar interesses e diferenças regionais; não é um quadro que favoreça a limpeza e a firmeza de identidade. Ele está voltado para uma grande competição eleitoral. Isso certamente não oferece um bom cenário para a democracia política brasileira". E constata: "estamos vivendo um momento em que os efeitos dessa política de presidencialismo de coalizão começam a se tornar cada vez mais complicados".
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012) (mais informações emhttp://bit.ly/IVmpmg).

"Somos absolutistas anacrônicos. Vivemos sempre sob o regime do favor, dos privilégios, da não república"
Para Roberto Romano, alianças importam, em qualquer hipótese, na luta pelo poder. Mas se elas impedem as mudanças propostas no programa partidário, "temos o realismo de fancaria que sequer merece o epíteto de maquiavelismo"
Por: Graziela Wolfart
Segundo a reflexão do professor da Unicamp, Roberto Romano, "nossos partidos políticos seguem o interesse maior dos líderes nacionais e regionais. Eles julgam não ter explicações a dar para a militância de base. Numa reforma política verdadeira, algumas determinações seriam estratégicas, como a proibição de líderes ficarem nas direções por mais de quatro anos, a exigência de consulta primária aos eleitores dos partidos quando das eleições (escolha dos candidatos, alianças, etc.). E nada falamos, por enquanto, das máquinas eleitoreiras, os partidos ditos ‘nanicos'. Eles são propriedade privada de um ou dois políticos e se vendem (na verdade, vendem seu minuto de propaganda gratuita) em troca de cargos, favores, etc.". Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Roberto Romano acrescenta que a "dita burguesia progressista sempre decepcionou as esperanças dos seus aliados: ela sempre optou pelo lucro, pelos golpes de Estado, pela ruptura com a tênue democracia. A lição de 1964 cabe no quadro. No interior do partido ‘revolucionário', pobre de quem se levantasse contra a política ‘realista' de alianças!". Para ele, as "alianças ‘pela governabilidade' assumidas pelo PT (Sarney, Lobão, ACM e agora Maluf) adiaram, sem prazo de recomeço, a luta do petismo pela justiça no Estado e na vida social". E sobre a foto de Lula com Maluf, um símbolo recente da política de alianças em nosso país, Roberto Romano dispara: "Temos nos dois elementos o retrato impiedoso da prática realista". E conclui: "o resultado está na foto: venceram os contrários ao ‘principismo', ou seja, os alérgicos aos valores éticos, programáticos, socialistas, etc.".
 
Roberto Romano cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, na França, e é professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Escreveu, entre outros, os livros Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979),Conservadorismo romântico (2ª ed. São Paulo: Ed. Unesp, 1997) e Moral e ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: Senac Ed., 2002).
Eis a página em que está a entrevista..

E encheu de bens os famintos


CEBI

E encheu de bens os famintos... (Lucas 1, 39-56)

Segunda-feira, 13 de agosto de 2012 - 11h03min
por Ildo Bohn Gass - Formação CEBI
Para muitas igrejas, a Palavra evangélica proposta para a liturgia do próximo final de semana é a visita de Maria a Isabel (Lucas 1,39-56), que faz parte dos relatos da Infância de Jesus segundo Lucas (Lucas 1-2). Essas narrativas, mais do que dizerem como os fatos aconteceram, indicam para realidades mais profundas que iluminem a caminhada das comunidades a quem se destinam. Em resumo, o primeiro capítulo do Evangelho da Infância mostra como é reconhecida a ação de Deus em meio ao povo excluído, mas cheio de esperança, representado por Zacarias, Isabel e Maria. Dois eram idosos, uma era estéril e a outra ainda não havia tido relações sexuais com homem. Portanto, eram pessoas de quem não se esperava que pudesse nascer vida nova, que pudessem dar à luz uma criança.
A narrativa proposta pode ser dividida em três momentos. O primeiro descreve a ida de Maria à casa de Isabel e de Zacarias, próxima de Jerusalém (Lucas 1,39-41), uma caminhada de mais de 100 km. De um lado, essa saída de casa faz-nos lembrar de tantas jovens que também precisam deixar seus povoados quando engravidam, a fim de encontrar apoio em familiares que moram distante. De outro lado, quando foi chamada para ser a mãe do Messias, Maria havia se disponibilizado para estar a serviço da Palavra de Deus (Lucas 1,38). Agora, ela já está a caminho para servir, para ser solidária com outra mulher, também grávida. É a solidariedade entre as mães que reconhecem em seus corpos o agir do Espírito divino, pois ambas receberam a graça da fecundidade de forma misteriosa. Mas não é somente o encontro de duas mulheres. É também o encontro de duas crianças ainda no útero de suas mães. É o encontro do Precursor com o Salvador. João alegra-se com a visita de Jesus (Lucas 1,41). Ainda no ventre materno, já aponta para seu primo como aquele que vem socorrer o seu povo num momento de forte repressão do império romano.
A segunda parte desta narrativa é a saudação que Isabel faz a Maria (Lucas 1,42-45). Impulsionada pelo Espírito, a mãe de João Batista reconhece Maria como a mãe do Messias. Ao mesmo tempo em que elogia a sua fé (Lucas 1,45), a declara abençoada, bem-aventurada, assim como o fruto do seu ventre (Lucas 1,42). Essa saudação faz lembrar outras mulheres que também foram chamadas de benditas. São os casos de Jael (Juízes 5,24) e de Judite (Judite 13,18), ambas libertadoras de seu povo ameaçado por exércitos poderosos. Em Lucas 1,56, podemos ler que Maria ficou três meses com Isabel. Mais uma vez, os autores do texto fazem memória das Escrituras de Israel e querem nos apresentar Maria como a nova Arca da Aliança, pois em seu útero carrega o Emanuel, o Deus que está em nosso meio. É que, da mesma forma como Maria ficou os três meses com Isabel, também a antiga Arca da Aliança havia ficado durante três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,2-11; cf. v. 11). Em outras palavras: os representantes da antiga Aliança, Zacarias (Javé se lembrou) e Isabel (Deus é plenitude), reconhecem a ação de Deus em Maria (a amada) e Jesus (Javé salva), representantes da nova Aliança. João (Javé é misericórdia) anuncia que a misericórdia de Deus na antiga Aliança vem se realizar plenamente em Jesus de Nazaré. Por isso, seus pulos de alegria no ventre de Isabel (Lucas 1,41.44), acolhendo o novo que está por nascer.
A terceira parte do relato é a reação de Maria à saudação de Isabel, é o cântico de Maria conhecido como Magnificat (Lucas 1,46-55). Ele está recheado de memórias da história de Israel, especialmente do canto de Ana, a mãe do profeta Samuel (1 Samuel 2,1-10). Entre outros textos, recorda também a profecia de Sofonias em favor dos pobres de Javé, o resto fiel a Deus (cf. Sofonias 2,3; 3,11-13).
Maria é a legítima representante de todos os pobres que têm esperança. Da mesma forma como o profeta Habacuc (Hab 3,18), ela percebe a presença de Deus e se alegra com sua grandeza (Lucas 1,46-47). E o motivo dessa alegria é que, tal como na experiência libertadora do Êxodo (Êxodo 3,7-8), Deus viu a humilhação dos pobres e exerce sua misericórdia para com eles, estando a seu lado para libertá-los (Lucas 1,49-50; Salmo 103,17).
Qual é a força capaz de promover essa libertação? É a força do braço de Deus, isto é, a força de sua justiça, que consiste e um projeto revolucionário que subverte relações desiguais. Se antes os poderosos humilhavam os pobres a partir de seus tronos, agora os famintos são exaltados e comem pão com fartura (Lucas 1,51-53). Mais que ser uma mulher submissa e alienada dos conflitos sociais de seu tempo, Maria é uma mulher de luta pela igualdade e pela superação de todas as injustiças. Ela é subversiva porque subverte as relações de humilhação propondo a acolhida e a igualdade. Não é por acaso que seu filho seguiu os passos dela nesse caminho. É no engajamento pela superação de todas as formas de opressão que revelamos a misericórdia divina em nossa prática. A justiça de Deus se revela em seu agir na defesa dos fracos e contra todos os sistemas que os oprimem, sejam eles políticos ou econômicos, culturais ou religiosos. Nesse agir libertador se manifesta a aliança fiel e misericordiosa esperada desde as origens do povo hebreu (Lucas 1,54-55; Miqueias 7,20).
O Magnificat celebra a esperança na realização da vontade de Deus que liberta. E mais. Convida a todas as pessoas discípulas de Jesus a nos juntarmos a Maria para colocar-nos a serviço desse projeto de Deus, de modo que também em nós se realize a sua Palavra (cf. Lucas 1,38). A ação divina em Maria foi possível por que ela acreditou (Lucas 1,45), ela deu a sua contribuição, colocando-se a serviço de Deus na solidariedade. Mais adiante, quando uma mulher também declarara Maria feliz, Jesus dirá a ela que "felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática"(cf. Lucas 11,27-28). E essa bem-aventurança soa forte para nós ainda hoje.

Sete anos sem Roger, da comunidade de Taizé


Sete anos sem o irmão Roger, da Comunidade de Taizé

Sexta-feira, 17 de agosto de 2012 - 11h18min
"O irmão Roger foi um visionário, um grandíssimo homem de Deus que não se importava com adjetivos, mas com a pessoa", destaca Jesús Bastante, que teve a oportunidade de conhecê-lo. 

Eis o artigo.
Hoje, completa sete anos que o irmão Roger Schultz (foto), fundador da Comunidade de Taizé, morria apunhalado por uma jovem romena na Igreja da Reconciliação, da pequena localidade francesa, berço do ecumenismo após a Segunda Guerra Mundial, e que hoje une milhares de jovens (e não jovens), de todo o mundo, em torno da mesma fé.
O irmão Roger foi um visionário, um grandíssimo homem de Deus que não se importava com adjetivos, mas com a pessoa. Tive a oportunidade de brevemente entrevistá-lo pouco antes da morte de João Paulo II, e ficou a impressão de que me encontrava diante de um desses profetas de nosso tempo, capaz de romper barreiras e ficar com o essencial. Um religioso protestante que foi capaz de comungar das mãos de Bento XVI ou confessar ao patriarca ortodoxo Atenágoras. Um cristão sem mais argumentos a não ser os do próprio Cristo. Um exemplo a ser seguido por todos, muito preocupados em ocasiões pela pureza no cumprimento das normas, e não tanto pela clareza do coração.

No dia 20 de agosto de 1940, depois da derrota do exército francês e da ocupação de parte da França, pelo exército alemão, Roger Schultz se estabeleceu em Taizé (Borgonha). Nesse local, viveu até sua morte, com uma interrupção de dois anos, em que durante a Segunda Guerra Mundial se refugiou na Suíça, já que tinha que temer a perseguição da Gestapo por ter escondido, em seu domicílio, judeus e opositores da ocupação alemã na França. Depois da libertação da Borgonha, em 1944, voltou para Taizé, junto com três companheiros, se ocupando com os órfãos de guerra, como também de prisioneiros de guerra, o que trouxe a apreensão dos vizinhos. 

Em 1949, sete homens deste círculo, entre eles Roger Schultz, como prior, comprometeram-se a viver o celibato e a pobreza. Hoje em dia, esta comunidade é integrada por mais de cem irmãos ortodoxos, protestantes e católicos, provenientes de vinte e cinco países, vivendo apenas de seu trabalho (olaria, edição de livros religiosos). Não aceitam doações. 

Sempre é um bom momento para retornar a Taizé e orar junto com a Igreja da Reconciliação, onde paradoxalmente o irmão Roger foi assassinado. Seu sangue, como sua vida, não foram em vão, e nos compromete, como se comprometeu o próprio Cristo, a deixarmos a vida pela unidade, pelos demais, por aqueles que têm o rosto de Deus por trás de si.
O artigo é publicado pelo sítio Religión Digital.

Cartas da vida


Cartas da vida, cartas que nos desafiam a viver junto, sem julgamentos e verdades dogmáticas, sem escutas e encontros que produzam vida e harmonia. Desafios para um cristão que queira seguir os passos do Mestre.

CEBI

Cartas da Vida - cavar túneis e construir sentido

Sexta-feira, 17 de agosto de 2012 - 14h25min
Aprender a ler e escrever as ruas de Salvador, Bahia: este é o desafio de Fernanda Priscila Alves da Silva. Uma escrita real com as cores do dia a dia de mulheres em situação de prostituição. A realidade destas mulheres tal como de muitas empobrecidas é desafiante e difícil, mas também marcada pela ousadia e garra, tão presentes na vida das pessoas empobrecidas do mundo.
Vamos dar uma volta pelo Pelourinho. Vamos observar os corpos que passam por nós: mulheres, crianças e homens à margem. Andando pela Ladeira da Montanha, Conceição, Calçada, Comércio, encontramo-nos com mulheres inseridas em contexto de prostituição. E é neste lugar que nossa missão acontece.
A metodologia da escuta e da escrita do lugar e suas gentes vai traçando a geografia no Centro Histórico Pelourinho e adjacências, área comercial e ao mesmo tempo turística e residencial e vai apresentando personagens da população de baixa renda, assim como muitas mulheres exercendo a prostituição em casarões e hotéis insalubres, sem nenhuma infraestrutura. Ao mesmo tempo que conhece, identifica e analisa Fernanda nos desafia com o silêncio: silenciar para escutar verdadeiramente o que a outra/o outra quer dizer, mesmo que não diga. O silêncio se compromete com a atenção: olhar com carinho! nunca com julgamentos!
Sábado à tarde: Fernanda anota porque vive.  Encontro de mulheres e homens... Gente buscando vida... Gente gestando sonhos. Gente de movimento e em movimento. Era sábado e naquele salão de reunia o movimento de população de rua... Mas o movimento não estava só, havia outros grupos, outros corpos em movimento dançando a dança da luta, dança do compromisso, dança da utopia, os catadores e catadoras de papel também se faziam presentes e a força feminina trazia seu encanto e gingado. Sábado de conflitos: anota aí os relatos de violência policial, de disputa entre os homens e mulheres pobres, entre fracos e fortes!
Fernanda anota o difícil processo de construção de objetivos comuns de defesa da população de ruas, em especial mulheres em situação de prostituição. O direito e a justiça tecidos de ambivalência e ambiguidade:
O mundo da prostituição traz ambiguidades que nos fazem repensar a vida, repensar paradigmas, modelos, formas, jeitos de fazer e construir o cotidiano. Nestas ambiguidades, encontramos mulheres luas, mulheres gente em gestação, mulheres como outras mulheres ou ainda outras mulheres como estas mulheres. Homens mulheres e mulheres homens, tudo misturado, ambíguo, mas ao mesmo tempo tudo inteiro, com sua própria forma, seu próprio jeito.
A partir da metodologia do trabalho de campo, na escrita das cartas, a autora estabelece um diálogo com as mulheres e com os modos de vida na rua. O texto exercita ao extremo a escuta das margens - bares, boates, praças e hotéis - sendo ao mesmo tempo uma afirmação do trabalho pastoral e seus desafios e um exemplo concreto do método da teologia que nasce do meio do povo.
Fernanda supera toda e qualquer idealização do sujeito popular e nos coloca diante da inquieta cara do povo da rua, da mulher de rua. A rua tem sexo e a teologia aprende através da carta de Fernanda a pronunciar "sexo" entre as palavras benditas e malditas de seu vocabulário.
É no café da manhã, no lugar da degustação, que mulheres tomam a palavra. Nesse sentido, vale dizer que é no cotidiano que a transformação acontece. É neste lugar, pois ele está marcado por alegria, cansaços, tristezas, conquistas, prazer, fé. Dentro de uma perspectiva feminista e libertadora, este lugar tem seu matiz, pois é aí mesmo que se pode resgatar a importância concreta dos corpos e de suas relações.
Este resgate da vida, do corpo, da rua, da materialidade das relações... é como cavar túneis, ensina uma mulher: ? "Vocês estão me ajudando a cavar o túnel, é difícil, mas eu vou cavar até chegar à mina, hoje eu me considero cidadã e eu vou chegar lá".
Para Fernanda, "cavar túneis" é experimentar a Páscoa da Libertação, é afirmar "creio na ressurreição do corpo" sem esquecer da noite longa da Paixão.
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Cartas da Vida
Fernanda Priscila Alves da Silva
A partir da convivência nas ruas de Salvador o livro compartilha - no formato de cartas - a vida e o cotidiano de mulheres em situação de prostituição. A partir da metodologia do trabalho de campo, na escrita das cartas, a autora estabelece um diálogo com as mulheres e com os modos de vida na rua. O texto exercita ao extremo a escuta das margens - bares, boates, praças e hotéis - sendo ao mesmo tempo uma afirmação do trabalho pastoral e seus desafios e um exemplo concreto do método da teologia que nasce do meio do povo.
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Conic fortalece a bandeira das mulheres


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Secretária Geral do CONIC fortalece a bandeira das mulheres

Sexta-feira, 17 de agosto de 2012 - 11h09min
Ao completar 30 anos de fundação, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) passou a ter a primeira mulher à frente da secretaria geral. A pastora luterana Romi Márcia Bencke assumiu suas funções no início de agosto, em Brasília.

Ela assume o organismo ecumênico nacional quando busca reformular sua identidade num contexto religioso e ecumênico muito diferente daquele quando foi criado, em 1982. Mas procura, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao chamado ecumênico original. Além disso, o crescimento das igrejas neopentecostais, o aumento dos que se declaram sem religião e a atual limitação de recursos financeiros do CONIC, forma um cenário desafiador para a nova secretária geral.

Natural de Horizontina, Rio Grande do Sul, Bencke cursou teologia na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, de 1992 a 1997. Durante esse período, realizou um ano de intercâmbio no Seminário Ecumênico de Matanzas, Cuba, onde escreveu dissertação sobre o diálogo inter-religioso com a Santería, uma expressão religiosa afrocubana.

Depois de atuar por um ano numa comunidade de migrantes, em Alta Floresta do Oeste, Rondônia, foi ordenada ministra da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e, entre 1999 a 2006, atuou como pastora em São Sepé, no Rio Grande do Sul, onde, paralelamente colaborou com Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria (CECA), ao assumir o Programa Fé e Cidadania.

Além de Teologia, Bencke tem especialização em Projetos Sociais e Culturais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, atualmente, cursa o mestrado em Ciência da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora, sobre o tema "Ecumenismo, valores sociais e modernidade: a percepção dos agentes eclesiais". Temas como relações de gênero, religião e modernidade estão presentes na teologia e no trabalho de Bencke, cujo mandato à frente da secretaria geral vai até 2015.

A entrevista é de Marcelo Schneider, doutor em Teologia e correspondente de comunicação do Conselho Mundial de Igrejas, publicada na Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 15-08-2012.

Eis a entrevista.
Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma pesquisa sobre o cenário religioso no Brasil. Um dos dados mais expressivos foi o aumento do número de pessoas que se declaram "sem religião". Como é assumir um conselho de igrejas considerando esta realidade?
O aumento do número dos que se declaram "sem religião" é um dado importante para analisar a realidade brasileira. Nosso contexto social ainda é pouco secularizado, pois, mesmo com o aumento desse grupo, ainda somos um país majoritariamente religioso. O censo do IBGE chama a atenção para dois fatores. O primeiro indicador interessante é este, o do aumento dos "sem religião". Esse dado poderia indicar que o Brasil pode estar passando por um processo de secularização. Nesse processo, as pessoas podem assumir, expressar e pautar suas vidas a partir de valores sociais, que não necessariamente possuem uma fundamentação ou inspiração religiosa.

Esse é o primeiro indicador. O outro aspecto que o censo do IBGE aponta é que um número significativo de pessoas se declaram religiosas, mas não assumem uma pertença religiosa institucional, indicando que pode estar em curso no Brasil um processo de desinstitucionalização religiosa. Essas pessoas procuram uma religião, por alguma razão muito específica, e tendem a migrar de uma expressão religiosa a outra conforme as suas necessidades e ofertas do mercado religioso. Essa é uma característica da realidade brasileira. Assumir o CONIC nessa conjuntura é um grande desafio, pois o dado do IBGE nos desafia, nos faz perguntar acerca de como queremos ser igrejas cristãs no contexto brasileiro.
Qual a sua análise da natureza e papel do movimento ecumênico num país que respira tantas expressões religiosas diferentes? Qual o papel do diálogo e inter-religioso?
Sou uma entusiasta do diálogo inter-religioso. Acho que o Brasil vive uma conjuntura grande de desigualdade social e violência, e a religião pode desempenhar um papel positivo nos esforços de superação dessas realidades injustas. Neste sentido, o movimento ecumênico, do qual o CONIC é um dos porta-vozes, é um espaço de articulação importante de temas e ações em torno de questões que são comuns a todas as religiões, como a defesa dos direitos humanos e o cuidado com a natureza. Se ainda encontramos, em algumas igrejas, muita resistência em relação a celebrações inter-religiosas, creio que não há motivos para deixarmos de nos empenhar em torno de causas humanitárias e ecológicas, por exemplo.

Outro aspecto importante é que um conselho de igrejas como o CONIC serve de contraponto diante de expressões religiosas mais exclusivistas ou fundamentalistas. Acho que temos um papel importante a desempenhar nesse debate.

As redes sociais têm transformado não só a forma como as pessoas partilham informações, mas também a comunicação institucional. Você espera o CONIC presente nesses espaços?
Acabamos de lançar uma nova página e criamos perfis em redes sociais, como Twitter e Facebook, com o intuito de dar maior visibilidade para o trabalho do CONIC e mobilizar mais pessoas para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Esperamos que essas mídias possam fortalecer nossas redes e mobilizar mais grupos em torno da Semana de Oração.

Atualmente, cinco igrejas compõem o CONIC: A Igreja Presbiteriana Unida, A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, A Igreja Siriana Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Católica Apostólica Romana, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Você planeja trazer mais igrejas para o CONIC?
Talvez sim, mas isso depende de um processo interno de discussão com as igrejas que compõem o CONIC. Elas devem decidir. A diretoria e o conselho curador (presidentes das igrejas) deveriam estabelecer critérios. Vamos tornar o CONIC mais aberto? Vamos visitar as lideranças de novas igrejas? As respostas a essas perguntas, num contexto como o brasileiro, onde a cada dia surge uma nova igreja, é extremamente importante e tem que vir das lideranças das igrejas que compõem o Conselho. Creio que se a questão for colocada diretamente, sem um debate anterior, haveria certa resistência quase natural a expressões (neo)pentecostais. Por isso, talvez tenhamos que discutir primeiro o cenário religioso brasileiro e, a partir dessa análise, definir critérios e processos para o convite e acolhimento de outras igrejas. Quando olhamos para a história do CONIC, vemos que já tivemos mais igrejas-membro.

Existe outro espaço ecumênico de articulação, diálogo e ação no Brasil chamado Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE ACT Brasil), no qual o CONIC participou com maior ou menos intensidade nos últimos anos. Como você pretende se relacionar com o FE ACT Brasil?
Pessoalmente, acho que o CONIC tem que somar forças neste espaço. A nossa diretoria quer ver o CONIC mais ativo nesta articulação, porque historicamente sempre contribuímos no FE ACT Brasil. Nada mais justo que retomarmos a participação ativa nesse espaço. Agenda do ecumenismo brasileiro está passando muito pelo FE ACT Brasil, com esta união em torno da defesa dos direitos fundamentais das pessoas e da natureza.

Qual o papel da juventude?
Acompanho um pouco o trabalho da Rede Ecumênica da Juventude (REJU) pelo Facebook. Acho ótima a articulação que esta rede promove, articulando os jovens do Brasil inteiro. Percebo que há uma abertura inter-religiosa importante e entendo que é uma iniciativa que deve ser apoiada e motivada.

A maioria dos jovens que participam da REJU não vêm dos grupos de juventude das igrejas-membro do CONIC, mas de projetos apoiados por agências e organismos ecumênicos ou ligados a igrejas, como a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), KOINONIA e a Fundação Luterana de Diaconia, por exemplo. Qual a sua análise dessa realidade?
Vivemos um momento de desinstitucionalização das religiões. As pessoas se assumem como religiosos, mas isto não significa que elas têm um vínculo institucional. Essa é uma mudança interessante no cenário religioso brasileiro. Esse é mais um indicador da importância do movimento ecumênico, que, pode ser tanto um espaço de diálogo entre as igrejas, como um ambiente que congrega pessoas que querem praticar sua fé e estar inseridos em algo, mas que não querem o vínculo institucional. O movimento ecumênico acaba sendo o vínculo indireto que as pessoas têm com as igrejas. Nesse sentido, a REJU é um desafio positivo às juventudes das igrejas.

Você é a primeira mulher a ser secretária geral do CONIC. Qual a sua leitura desse marco?
Uma das principais reivindicações de nós, mulheres ativas no movimento ecumênico, tem sido que as mulheres também passem a ocupar espaços de direção em organismos e espaços ecumênicos e espaços ligados a igrejas. Por isso, o fato de eu assumir este cargo pode sinalizar uma pequena, mas significativa mudança nos espaços de direção das igrejas e dos organismos ecumênicos. Ter sido acolhida no momento em que a presidência do CONIC é exercida por um bispo católico também demonstra uma abertura interessante. Tenho recebido muito apoio de diversas pessoas da Igreja Católica, que demonstram felicidade com o fato de eu assumir esta tarefa.

Outra questão significativa de assumir este cargo neste momento é que a pesquisa do IBGE, da qual falamos acima, também mostrou que a maioria das mulheres no Brasil se assume como religiosas.

O fato de uma mulher ser a secretária geral do CONIC reflete a necessidade de ampliar, cada vez mais, o compromisso do movimento ecumênico com as lutas das mulheres. Também acredito que temos uma grande responsabilidade de refletir sobre a realidade das mulheres no contexto brasileiro, em que a maioria de nós se declara religiosa e que, ao mesmo tempo, vive situações de violência e agressão bastante significativas. Por isso, poder refletir sobre qual o papel das mulheres cristãs e de outras religiões na defesa de todas as mulheres é um desafio grande. Eu me sinto responsabilizada em fortalecer as bandeiras das mulheres.

O Conselho Mundial de Igrejas vai celebrar em 2013 sua 10ª Assembleia, em Busan, República da Coreia, sob o tema "Deus da vida, guia-nos à justiça e à paz". Como essas três categorias (vida, justiça e paz) se refletem na sua teologia?
Ao ler o tema da próxima Assembléia do CMI, imediatamente vem à cabeça temas relacionados à transformação das relações econômicas, sociais, ambientais e de gênero. Não há o que justifique que em um país como o Brasil, que tem indústrias significativamente fortes e riquezas naturais, ainda exista um contingente grande de pessoas que vivem em absoluta pobreza. A concentração da riqueza é uma das causas da injustiça em nosso país: 10% da população mais rica detêm 75,4% de toda riqueza do país. Isso é absurdo.

O segundo tema que vem à cabeça são as restrições culturais, políticas, econômicas que impedem que as mulheres tenham acesso à justiça de maneira ampla. Ainda temos muito que avançar para que as plataformas internacionais relacionadas aos direitos das mulheres sejam concretizadas no Brasil. Ao considerar que 93% das mulheres brasileiras se assumem como religiosas, o compromisso das igrejas se torna essencial para que as reivindicações das mulheres sejam visibilizadas e concretizadas.
Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - A

domingo, 12 de agosto de 2012

Escolhido tema para a Semana da Oração em 2013


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Escolhido tema para a Semana de Oração em 2013

Terça-feira, 7 de agosto de 2012 - 10h45min
"O que Deus exige de nós?". Este será o tema da SOUC - Semana de Oração para a Unidade dos Cristãos, edição 2013. Inspirado em Mq 6:6-8, o material foi preparado pelo Movimento de Estudantes Cristãos da Índia, com a consultoria da Federação de Universidade Católica de toda a Índia e do Conselho Nacional de Igrejas na Índia. O CONIC, por sua vez, já se encarregou de produzir todo o material que será utilizado por igrejas e movimentos ecumênicos pelo Brasil.
SOUC 2012
Na celebração deste ano, foram adquiridos, pelos grupos ecumênicos do Brasil e igrejas cristãs, cerca de 13 mil livretos da Semana de Oração. Para 2013, o objetivo é que mais pessoas possam celebrar esta data.
Leia a referência bíblica na íntegra:
"Como hei de aparecer diante do Senhor, inclinar-me diante do Deus Altíssimo? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos? Com bezerros de um ano? Desejará o Senhor milhares de carneiros, quantidades de torrentes de óleo? Sacrificarei meu primogênito pela rebeldia, o filho de minha carne pelo pecado que cometi? Foi-te dado a conhecer, ó homem, o que é bom, o que o Senhor exige de ti: nada mais que respeitar o direito, amar a fidelidade e aplicar-te a caminhar com teu Deus."
CONIC - www.conic.org.br
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
www.cebi.org.br 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Amós, a luta contra a injustiça social e o juízo iminente


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Amós, a luta contra a injustiça social e o juízo iminente

Quinta-feira, 2 de agosto de 2012 - 11h54min
"O discurso de Amós menciona, talvez, um passado histórico não identificável nem pela forma e nem pelo conteúdo do texto. As pragas do tempo do Êxodo feriam o Egito, não Israel, e de uma maneira diferente da relatada no livro de Amós capítulo 4. Além do mais, as tais "pragas" eram no mundo antigo, e são ainda nas culturas rústicas, o resultado obrigado de situações críticas naturais ou políticas: a fome é o resultado de toda estiagem prolongada e peste nas plantações, assim como a morte dos jovens (Am 4,10) é o efeito de toda batalha militar, no mundo antigo e moderno", escreve Gilvander Luís Moreira, frei e padre Carmelita, mestre em Exegese Bíblica e professor de Teologia Bíblica.
Eis o artigo.
Provavelmente as composições mais antigas do livro do profeta Amós, na Bíblia obviamente (Amós 1-6; 7-9) datam de meados do século VIII a.C., e surgiram como literatura de protesto e resistência. "O acento principal da mensagem de Amós está na crítica social e no anúncio de um juízo iminente de Deus na história, bem como na tênue, mas clara exigência do restabelecimento da justiça como alicerce das relações sociais"[1].
Amós é um profeta precursor, radical, exemplar e paradigmático. A profecia de Amós é, em certo modo, um divisor de águas na história da profecia no sentido de que instaura um novo jeito de ser profeta. O livro de Amós está organizado em duas grandes unidades literárias: I) Am 1-6: Palavras e II) Am 7-9: Visões.
Am 4,4-13 nos ajuda a refletir sobre três aspectos fundamentais da ética profética, intimamente entrelaçados. Esses são: a) a concepção de pecado em relação ao culto; b) em relação à história; c) e os limites de uma possível reconciliação com Deus. A pergunta que se coloca na base e no fim do estudo de Am 4,4-13[2] é: Trata-se de um anúncio de punição in extremis diante da incapacidade de Israel de reagir, ou de uma velada promessa de perdão? Ou existe uma outra interpretação possível?
A declaração final de Javé - Deus solidário com os pisados e libertador dos oprimidos - ao ser humano que fecha a unidade Am 4,4-13 constitui-se quase como uma nova revelação do Sinai, que deve por fim ao conflito entre o ser humano e a divindade, em favor do ser humano. As punições didáticas de Javé deixam lugar a um esclarecimento que abre o coração do ser humano para que veja o conjunto da sua história e possa render-se conta do seu processo de endurecimento.
Am 4,4-13 evoca, portanto, uma situação na qual há certa semelhança com aquela do relato das pragas do Egito, mas não é obviamente, a recordação daqueles fatos. O discurso de Amós menciona, talvez, um passado histórico não identificável nem pela forma e nem pelo conteúdo do texto. As pragas do tempo do Êxodo feriam o Egito, não Israel, e de uma maneira diferente da relatada no livro de Amós capítulo 4. Além do mais, as tais "pragas" eram no mundo antigo, e são ainda nas culturas rústicas, o resultado obrigado de situações críticas naturais ou políticas: a fome é o resultado de toda estiagem prolongada e peste nas plantações, assim como a morte dos jovens (Am 4,10) é o efeito de toda batalha militar, no mundo antigo e moderno.
Às pragas ou punições descritas se reúnem ainda a menção a Sodoma e Gomorra. O discurso de Amós 4 quer, portanto, dar conta de toda a antiga história de Israel, também de Israel patriarcal, para aplicá-la a uma nova situação.
Um ponto particular de relação com o Êxodo é a presença do refrão "mas não retornastes a mim" que estrutura o texto de Amós 4,4-13. Assim, como no relato das pragas o endurecimento do coração do Faraó é o motivo estruturante que faz aumentar as pragas.
No relato do Êxodo, um primeiro grupo de textos, atribuídos tradicionalmente à fonte Javista (J), apresenta de fato Faraó como responsável pelo seu próprio endurecimento, como havia predito Deus (Cf. Ex 7,14.22; 8,11.15.28; 9,7.34). O outro grupo de textos (os chamados "heloístas") atribui a obstinação ora a Faraó (Ex 9,35) ora a Deus mesmo (Ex 10,20.27). O relato sacerdotal (P) o atribui habitualmente a Javé.
Esta diversidade de concepção no atribuir a responsabilidade pelo pecado aparece também em outros textos fora do Êxodo, com diferente vocabulário e problemática. Em 2º Samuel 24,1, Javé é o responsável direto pelo pecado de Davi devido ao recenseamento. Segundo 1º Crônica 21,1 a responsabilidade é, ao invés, de Satanás. O verbo hebraico usado é o mesmo: swt (= incitar, seduzir).
Tanto em Êxodo como em Am 4,4-13 se coloca um grande problema exegético e teológico: É possível e legítimo que Deus continue a aplicar punições que levam a um endurecimento sempre crescente? Não se comporta Javé assim como o pai que exagera, com sua punição, ao seu filho e força-o a se rebelar (Cf. Efésios 6,4)?
É necessário reconhecer que por trás dos textos bíblicos de endurecimento há o mistério da liberdade humana e da "onipotência" divina. Em relação a Deus, há uma consciência profética que as obras e a Palavra de Deus não podem permanecer sem efeito (Cf. Isaías 55,11), mas é sempre eficaz (não eficiente). Se não produzem imediatamente a conversão, devem amadurecer o sujeito para uma nova prova, o que, em última análise, não exclui a possibilidade de conversão.
Em relação à pessoa punida, há uma consciência do fato que a exortação à conversão, quando não ouvida, se torna uma condenação. Isto é, nada mais, nada menos, que a dinâmica das relações interpessoais. Quando duas pessoas percebem uma mútua existência começa uma comunicação humana, que pode progredir, parar ou, eventualmente, morrer. Mas enquanto existe, cada ação e reação levam à evolução ou diminuição daquela relação. Todo ato (ou omissão) nas relações interpessoais somam e cultivam a relação ou a empobrece descultivando-a. Nenhuma atitude fica neutra.
De modo semelhante, na relação do ser humano com Deus, cada ação que não melhora a relação, a piora, mas jamais a deixa igual. Se não se aceita um convite à conversão, como uma oferta de amizade, o recusa. Por um lado, esta recusa tornará mais difícil que aconteça um novo convite.[3] E de outra parte quem recusou dificilmente voltará atrás para aceitar uma nova oferta, o que implicaria em reconhecer o erro precedente, o que é mais difícil.
Em relação aos profetas e profetisas, este processo se explica na medita em que os/as "intérpretes de Javé" sabem do paradoxo da missão deles/as. Os profetas e profetisas sabem que a palavra profética conduz, às vezes, à conversão de alguns poucos, mas na maioria das vezes leva ao endurecimento de muitos. Os oráculos de condenação no futuro, pronunciados com absoluta segurança, implicam nos profetas a consciência que a advertência seria inútil.
A consciência que os profetas e profetisas têm das três realidades descritas acima se apresenta, de modo muito claro, em Isaías 6,9-11: "Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis. Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado. Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada".
Em Am 7,14, o profeta Amós se recusa a ser considerado profeta, nos termos do sacerdote Amasias, cúmplice de um poder político opressor. Amós se define como "vaqueiro" e cultivador de sicômoros. Em Am 7,15, Amós parece ser um pastor que cuida do rebanho miúdo (ovelhas e cabras), mas não um vaqueiro. Em Am 7,10-17[4] não há a intenção primeira de descrever pessoalmente a profissão do profeta, mas enfatiza o fato de que Amós foi retirado da sua vida precedente, do seu mundo, das preocupações domésticas para proclamar a Palavra de Deus.
Am 7,10-17 quer legitimar o conteúdo da profecia de Amós e ajudar a comunidade superar todos os preconceitos que possam existir contra o profeta por causa da sua origem humilde, como se fosse um "nordestino", um sem-terra, um sem-casa, um menor de rua, um portador de HIV, um homossexual etc. O relato de Am 7,10-17 quer nos dizer que a profecia vem da margem, da periferia, do meio dos marginalizados e excluídos. São estes, por excelência, os "intérpretes de Javé".
Na Bíblia este "gênero" é utilizado para descrever de maneira diferente as vocações de Moisés, Gedeão, Eliseu e Saul. Mas uma estreita relação se encontra em 2º Samuel 7,8. Natã transmite a Davi a mensagem de Javé: "Eu te tirei das pastagens, pastoreavas as ovelhas". O elemento que caracteriza estas situações não é o fato do convocado pertencer a um grupo, mas, ao contrário, o fato dele ser um "de fora", um excluído. Assim Am 7,14 quer exprimir a distância de Amós das formas institucionais da profecia e dos profetas "da corte".
O relato do confronto entre o sacerdote Amasias e Amós (com a implicada presença do rei) oferece a justificação da decisão de Javé. O povo não somente não ouviu as diversas palavras transmitidas pelo profeta Amós, mas decidiu silenciá-lo, expulsando-o para sua terra. Já não há nada mais a esperar senão o fim definitivo, e diante desse resta somente a lamentação. O profeta anuncia a necessidade de conversão; pede perdão a Deus pelo povo; pede para parar a punição. O rei (e a monarquia) e o Templo expulsam o profeta, silenciando-o. O povo sofrerá muito mais. Ai de um povo que não escuta seus profetas e profetisas, e pior ainda, que os persegue, expulsa e os silencia.
A perícope de Am 7,10-17 revela a interpretação que setores da classe dominante tinham do conteúdo da profecia de Amós. Aos olhos da elite, o profeta é um "conspirador", interessado em "golpe de estado". Para Javé e o povo empobrecido Amós é um profeta, porta voz do Deus da vida para todos e tudo. Para a elite ele é um "subversivo", um agitador.
Em Am 4,1-3 temos a seguinte profecia:
"OUVI esta palavra, vacas de Basã, que estais sobre o monte de Samaria, que oprimis os fracos, que esmagais os excluídos, que dizeis aos vossos senhores: "Trazei-nos o que beber!". O Senhor Javé jurou, pela sua santidade: sim, dias virão sobre vós, em que vos carregarão com ganchos e a vossos descendentes com arpões (de pesca). E saíreis pelas brechas que cada uma tem diante de si, e sereis empurradas em direção ao Hermon, oráculo de Javé".
Segundo uma interpretação tradicional, Am 4,1-3 seria uma investida do profeta Amós contra as mulheres ricas de Samaria, designadas como "vacas de Basã", mulheres de personagens importantes, que ocupam o tempo em luxuosos banquetes, e ao mesmo tempo são responsáveis pela opressão e exploração dos empobrecidos. A imagem de um banquete só de madames é, no mínimo, algo curioso em uma sociedade reconhecidamente machista e patriarcal, assim como atribuir às mulheres a responsabilidade pela opressão e pela injustiça.
A região de Basã, como o Líbano e o Carmelo, é famosa pela fertilidade do solo. A tristeza causada pela punição divina se manifesta na debilidade do Líbano, do Basã, do Carmelo e do Saron (Cf. Isaías 33,9). Ao contrário, a generosidade divina se expressa no nutrimento do povo com a "manteiga das ovelhas e dos touros de Basã" (Cf. Deuteronômio 32,14). O anúncio messiânico, com o qual se conclui o livro de Miquéias, inclui a promessa de um pasto abundante "em Basã e em Galaad, como nos dias antigos (Cf. Miquéias 7,14). No ambiente de louvor do Salmo 68 o "Basã" são os montes (Sl 68,16) que testemunham, junto com o Sinai e a natureza, a grandeza das obras de Javé. Logo integrar "Basã" em uma imagem depreciativa é algo estranho ao uso corrente de "Basã" na Bíblia.
De "vaca de Basã" não se fala em nenhum outro lugar no Primeiro Testamento da Bíblia. As montanhas de Basã são famosas pelos seus touros, cabritos e carneiros (mas não vacas; cf. Dt 32,14). Por isso os touros de Basã podem ser imagens dos inimigos poderosos (cf. Salmo 22,13 e, sobretudo, Ezequiel 39,18).
A expressão "vacas de Basã" adquire um sentido mais verdadeiro dentro da cultura bíblica se o termo "vacas" não for utilizado em relação a mulheres, mas a homens, aqueles que quiseram ser como os touros de Basã, pela força deles, autoridade e dignidade se tornaram "vacas", com as conotações depreciativas que as formas femininas podem ter no Primeiro Testamento.
Neste contexto, os "seus senhores" (Am 4,1b, com sufixo masculino) se referem provavelmente não aos "maridos", como propõem algumas traduções, um uso pelo qual não se tem nenhuma outra ocorrência, mas refere-se a uma pessoa de mais autoridade (política). "Senhor", além do freqüente uso como título divino, se refere a Acab (2 Reis 10,2.3.6), ao Faraó (Gênesis 40,1), ao Rei da Babilônia (Jeremias 27,4), e em casos isolados a várias pessoas: "outros senhores..." (Isaías 26,13).
Na profecia de Amós está "uma crítica veemente e contundente aos agentes e mecanismos de exploração e opressão dos camponeses empobrecidos sob o governo expansionista do rei Jeroboão II e sob as condições de um incremento de relações de empréstimos e dívidas entre pessoas do próprio povo no século VIII a.C."[5]. Em outros termos, o profeta Amós não apenas critica pessoas corruptas, mas questiona também de modo muito forte o sistema gerador de pessoas corruptas. Não somente as mazelas pessoais estão na mira do "camponês" que entrou para a história como um grande profeta. Amós tem consciência de que o problema fundamental da injustiça reinante na sociedade não é fruto somente de fraquezas e ambigüidades pessoais, mas tem como causa motriz estruturas sócio-econômico-político-cultural e religiosas que engrenam uma máquina de moer pessoas. Na mira do profeta Amós também estão relações comerciais que causam endividamento, aprisionam pessoas e escravizam, retirando a liberdade de ser pessoa humana.
Além das denúncias sociais, a profecia de Amós destaca-se com o anúncio de um juízo iminente de Javé na história do seu povo. Amós inverte as expectativas quanto a um tão sonhado "dia de Javé" (Am 5,18-20). Este não será mais uma "ideologia de segurança político-religiosa" pelos fortes de Israel. A perversão da justiça para os pobres, a opressão dos empobrecidos e a exploração das pessoas mais enfraquecidas clama pelo juízo divino. O "dia de Javé" será um "dia mau" sobre os fortes de Israel, sobre o estado tributário, suas instituições e seus agentes.
Amós critica com coragem a "corrida armamentista" de Israel. Ele anuncia que serão desmanteladas as forças militares dos estados vizinhos (Amós 1,5.8b.14b; 2,2b) e sobretudo de Israel (Amós 2,13-16; 3,11b; 5,2-3; 6,13-14).
O profeta Amós denuncia duramente também as instituições religiosas que estão justificando o processo de extorsão de tributos da população camponesa (Am 4,4-5; 5,21-23). Pelo conluio com a opressão econômica a religião oficial também será dizimada (templos) e seus agentes (Am 5,27; 7,9; 9,1).
"Odeiem o mal e amem o bem: restabeleçam no portão a justiça!" (Am 5,15). "Aqui está a exigência positiva por excelência na profecia de Amós. Os israelitas são conclamados a reconstruir as relações sociais baseadas na justiça e no direito (mishpat / sedaqah - em hebraico). Só assim será possível escapar do juízo vindouro anunciado. O futuro de um "resto" passa pela prática de Justiça"[6]. O juízo abre caminho para a justiça. A presença dos profetas e profetizas no meio do povo deixa Javé livre de qualquer responsabilidade diante da punição que o povo merece. Não precisa nem explicitar a atualidade da profecia de Amós. Que cada leitor/a faça as atualizações necessárias.
Notas:
[1] HAROLDO REIMER, “Amós – profeta de juízo e justiça”, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 171. [2] Para melhor compreensão sugiro ler na Bíblia Am 4,4-13 (capítulo 4, versículos de 4 a 13) antes de prosseguir a leitura do nosso texto. [3] Gato escaldado com água quente tem medo até de água fria, diz a sabedoria popular. [4] Sugiro ler na Bíblia Am 7,1-17 antes de prosseguir a leitura do nosso texto. [5] HAROLDO REIMER, “Amós – profeta de juízo e justiça”, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 188. [6] HAROLDO REIMER, “Amós – profeta de juízo e justiça”, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 189.
Frei Gilvander Moreira é autor da obra :
O bom samaritano: ontem e hoje
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Carlos Mesters e Gilvander Moreira
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Este livreto nos convida à reflexão sobre o que humaniza as relações e sobre o que dá sentido para fé: quem é o meu próximo? Entre agressores e agredidos (as) escolhas precisam ser feitas: parar e ser solidário? ou passar fingindo que não vê? São perguntas para cada um e todo mundo.
Frei Gilvander Moreira

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