APRESENTAÇÃO

Textos e silêncios pretende ser um espaço reflexivo ecumênico, fundamentalmente voltado para a vida concreta das pessoas a partir de textos e livros, mas também do caminhar contemplativo e meditativo, da vivência amorosa e solidária dos que, de alguma forma, partilharam comigo suas vidas, dores, sofrimentos e esperanças. A eles - e a vocês - devo a minha vida, o olhar que desenvolvi de existência e a experiência cristã do encontro com o Cristo servidor que nos salva. A eles sou devedor, minha eterna gratidão.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Não desviar Jesus (Lc 4,1-13) - José Pagola


Não desviar Jesus (Lc 4,1-13) - José Pagola

Terça-feira, 12 de fevereiro de 2013 - 21h47min
As primeiras gerações cristãs mostraram grande interesse pelas provações e tensões que teve que superar Jesus para manter-se fiel a Deus a viver sempre colaborando no sem projeto de uma vida mais humana e digna para todos.
O relato das tentações de Jesus não é um episódio fechado, que acontece num momento e num lugar determinado. Lucas nos adverte que, ao terminar estas tentações "o diabo afastou-se dele até o tempo oportuno".  As tentações voltarão na vida de Jesus e na de seus seguidores.
Por isso, os evangelistas colocam o relato antes de narrar a atividade profética de Jesus. Os seguidores dele devem conhecer bem estas tentações desde o começo, pois são as mesmas que eles terão que superar ao longo dos séculos, se não querem se desviar dele.
Na primeira tentação fala-se de pão. Jesus recusa-se a se valer de Deus para saciar sua própria fome. "não só de pão vive o homem". O mais importante para Jesus é buscar o reino de Deus e sua justiça: que haja pão para todos. Por isso vai um dia se valer de Deus, mas será para alimentar uma multidão faminta.
Também hoje a nossa tentação é pensar só no nosso pão e preocupar-nos exclusivamente de nossa crise. Desviamo-nos de Jesus quando acreditamos ter o direito de possuí-lo e nos esquecemos do drama, os medos e sofrimentos daqueles que carecem de quase tudo.
Na segunda tentação fala-se do poder e da glória. Jesus renuncia a tudo isso. Não vai se prostrar diante do diabo que lhe oferece o domínio sobre todos os reinos do mundo: "Adorarás o Senhor teu Deus". Jesus não buscará nunca ser servido, mas servir.

A eleição de um novo papa e o Espírito Santo - Ivone Gebara


A eleição de um novo papa e o Espírito Santo - Ivone Gebara

Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013 - 16h11min
por Artigo publicado por Adital
"Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece", escreve Ivone Gebara, escritora, filósofa e teóloga, em artigo publicado por Adital, 13-02-2013.
(Conheça o livro Terra - Eco Sagrado, de Ivone Gebara e Arno Kayser)
Eis o artigo.


Depois da louvável atitude do ancião Bento XVI renunciando ao governo da Igreja Católica Romana sucederam-se entrevistas com alguns bispos e sacerdotes nas rádios e televisões de todo o país. Sem dúvida, um acontecimento de tal importância para a Igreja Católica Romana é notícia e leva a previsões, elucubrações de variados tipos, sobretudo de suspeitas, intrigas e conflitos dentro dos muros do Vaticano que teriam apressado a decisão do papa.

No contexto das primeiras notícias, o que chamou a minha atenção foi algo à primeira vista pequeno e insignificante para os analistas que tratam dos assuntos do Vaticano. Trata-se da forma como alguns padres entrevistados ou padres liderando uma programação televisiva, quando perguntados sobre quem seria o novo papa saíssem pela tangente. Apelavam para a inspiração ou vontade do Espírito Santo como aquele do qual dependia a escolha do novo pontífice romano. Nada de pensar em pessoas concretas para responder a situações mundiais desafiantes, nada de suscitar uma reflexão na comunidade, nada de falar dos problemas atuais da Igreja que a tem levado a um significativo marasmo, nada de ouvir os clamores da comunidade católica por uma democratização significativa das estruturas anacrônicas de sustentação da Igreja institucional.
A formação teológica desses padres comunicadores não lhes permite sair de um discurso padrão trivial e abstrato bem conhecido, um discurso que continua fazendo apelo a forças ocultas e de certa forma confirmando seu próprio poder. A contínua referência ao Espírito Santo a partir de um misterioso modelo hierárquico é uma forma de camuflar os reais problemas da Igreja e uma forma de retórica religiosa para não desvendar os conflitos internos que a instituição tem vivido. A teologia do Espírito Santo continua para eles mágica e expressando explicações que já não conseguem mais falar aos corações e às consciências de muitas pessoas que têm apreço pelo legado do Movimento de Jesus de Nazaré. É uma teologia que continua igualmente a provocar a passividade do povo crente frente às muitas dominações inclusive as religiosas. Continuam repetindo fórmulas como se estas satisfizessem a maioria das pessoas.

Entristece-me o fato de verificar mais uma vez que os religiosos e alguns leigos atuando nos meios de comunicação não percebam que estamos num mundo em que os discursos precisam ser mais assertivos e marcados por referências filosóficas para além da tradicional escolástica. Um referencial humanista os tornaria bem mais compreensivos para o comum das pessoas incluindo-se aqui os não católicos e os não religiosos.
A responsabilidade da mídia religiosa é enorme e inclui a importância de mostrar o quanto a história da Igreja depende das relações e interferências de todas as histórias dos países e das pessoas individuais. Já é tempo de sairmos dessa linguagem metafísica abstrata como se um Deus iria se ocupar especialmente de eleger o novo papa prescindindo dos conflitos, desafios, iniqüidades e qualidades humanas. Já é tempo de enfrentarmos um cristianismo que admita o conflito das vontades humanas e que no final de um processo eletivo, nem sempre a escolha feita pode ser considerada a melhor para o conjunto. Enfrentar a história da Igreja como uma história construída por todos e todas nós é testemunhar respeito por nós mesmas/os e mostrar a responsabilidade que todas e todos que nos consideramos membros da comunidade católica romana temos.
A eleição de um novo papa é algo que tem a ver com o conjunto das comunidades católicas espalhadas pelo mundo e não apenas com uma elite idosa minoritária e masculina. Por isso, é preciso ir mais além de um discurso justificativo do poder papal e enfrentar-se aos problemas e desafios reais que estamos vivendo. Sem dúvida, para isso as dificuldades são muitas e enfrentá-las exige novas convicções e o desejo real de promover mudanças que favoreçam a convivência humana.

Preocupa-me mais uma vez que não se discuta de forma mais aberta o fato de o governo da Igreja institucional ser entregue a pessoas idosas que apesar de suas qualidades e sabedoria já não conseguem mais enfrentar com vigor e desenvoltura os desafios que estas funções representam. Até quando a gerontocracia masculina papal será o doublé da imagem de um Deus branco, idoso e de barbas brancas? Haveria alguma possibilidade de sair desse esquema ou de ao menos começar uma discussão em vista de uma organização futura diferente? Haveria alguma possibilidade de abrir essas discussões nas comunidades cristãs populares que têm o direito à informação e à formação cristã mais ajustada aos nossos tempos?

Sabemos o quanto a força das religiões depende de desafios e comportamentos frutos de convicções capazes de sustentar a vida de muitos grupos. Entretanto, as convicções religiosas não podem se reduzir a uma visão estática das tradições e nem a uma visão deliberadamente ingênua das relações humanas. As convicções religiosas igualmente não podem ser reduzidas a onda de devoções as mais variadas que se propagam através dos meios de comunicação. E mais, não podemos continuar tratando o povo como ignorante e incapaz de perguntas inteligentes e astutas em relação à Igreja. Entretanto, os padres comunicadores acreditam tratar com pessoas passivas e entre elas estão muitos jovens que desenvolvem um culto romântico em torno da figura do papa.
Os religiosos mantêm essa situação muitas vezes cômoda por ignorância ou por avidez de poder. Provar a interferência divina nas escolhas que a Igreja Católica hierárquica, prescindindo da vontade das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo é um exemplo flagrante dessa situação. É como se quisessem reafirmar erroneamente que a Igreja é em primeiro lugar o clero e as autoridades cardinalícias às quais é dado o poder de eleger o novo papa e que esta é a vontade de Deus. Aos milhares de fiéis cabe apenas rezar para que o Espírito Santo escolha o melhor e esperar até que a fumaça branca anuncie uma vez mais o "habemus papam”. De maneira hábil sempre estão tentando fazer os fiéis escapar da história real, de sua responsabilidade coletiva e apelar para forças superiores que dirijam a história e a Igreja.

É pena que esses formadores de opinião pública estejam ainda vivendo num mundo teologicamente e talvez até historicamente pré-moderno em que o sagrado parece se separar do mundo real e pousar numa esfera superior de poderes à qual apenas alguns poucos têm acesso quase direto. É desolador ver como a consciência crítica em relação às suas próprias crenças infantis não tenha sido acordada em beneficio próprio e em benefício da comunidade cristã. Parece até que acentuamos os muitos obscurantismos religiosos presentes em todas as épocas enquanto o Evangelho de Jesus continuamente convoca para a responsabilidade comum de uns em relação aos outros.

Sabendo das muitas dificuldades enfrentadas pelo papa Bento XVI durante seu curto ministério papal, as empresas de comunicação católica apenas ressaltam suas qualidades, sua doação à Igreja, sua inteligência teológica, seu pensamento vigoroso como se quisessem mais uma vez esconder os limites de sua personalidade e de sua postura política não apenas como pontífice, mas também por muitos anos, como presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício. Não permitem que as contradições humanas do homem Joseph Ratzinger apareçam e que sua intransigência legalista e o tratamento punitivo que caracterizaram, em parte, sua pessoa sejam lembrados. Falam desde sua eleição, sobretudo de um papado de transição. Sem dúvida de transição, mas de transição para que?

Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece. Estes privilégios tanto do ponto de vista econômico quanto político e sócio cultural mantêm o papado e o Vaticano como um Estado masculino à parte. Mas um Estado masculino com representação diplomática influente e servido por milhares de mulheres através do mundo nas diferentes instâncias de sua organização. Esse fato nos convida igualmente a pensar sobre o tipo de relações sociais de gênero que esse Estado continua mantendo na história social e política da atualidade.

As estruturas pré-modernas que ainda mantém esse poder religioso precisam ser confrontadas com os anseios democráticos de nossos povos na busca de novas formas de organização que se coadunem melhor com os tempos e grupos plurais de hoje. Precisam ser confrontadas com as lutas das mulheres, das minorias e maiorias raciais, de pessoas de diferentes orientações sexuais e escolhas, de pensadores, de cientistas e de trabalhadores das mais distintas profissões. Precisam ser retrabalhadas na linha de um diálogo maior e mais profícuo com outros credos religiosos e sabedorias espalhadas pelo mundo.

E para terminar, quero voltar ao Espírito Santo, a esse vento que sopra em cada uma/um de nós, a esse sopro em nós e maior do que nós que nos aproxima e nos faz interdependentes de todos os viventes. Um sopro de muitas formas, cores, sabores e intensidades. Sopro de compaixão e ternura, sopro de igualdade e diferença. Este sopro não pode mais ser usado para justificar e manter estruturas privilegiadas de poder e tradições mais antigas ou medievais como se fossem uma lei ou uma norma indiscutível e imutável.
O vento, o ar, o espírito sopra onde quer e ninguém deve se atrever a querer ser ainda uma vez seu proprietário. O espírito é a força que nos aproxima uns dos outros, é a atração que permite que nos reconheçamos como semelhantes e diferentes, como amigas e amigos e que juntos/as busquemos caminhos de convivência, de paz e justiça.
Esses caminhos do espírito são os que nos permitem reagir às forças opressoras que nascem de nossa própria humanidade, os que nos levam a denunciar as forças que impedem a circulação da seiva da vida, os que nos levam a des-cobrir os segredos ocultos dos poderosos. Por isso, o espírito se mostra em ações de misericórdia, em pão partilhado, em poder partilhado, em cura das feridas, em reforma agrária, em comércio justo, em armas transformadas em arados, enfim, em vida em abundância para todas/os. Esse parece ser o poder do espírito em nós, poder que necessita ser acordado a cada novo momento de nossa história e ser acordado por nós, entre nós e para nós.
(Conheça o livro Terra - Eco Sagrado, de Ivone Gebara e Arno Kayser)

Boff: Que tipo de Papa? As tensões internas da Igreja atual


Boff: Que tipo de Papa? As tensões internas da Igreja atual

Quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013 - 15h07min
Não me proponho apresentar uma balanço do pontificado de Bento XVI, coisa que foi feito com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada Papa. A questão central é esta: qual a posição e a missão da Igreja no mundo?
Antecipamos dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente.
Como viver esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo. O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos os sacramentos que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação.
Os cristãos deste modelo, desde Papas até os simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão e é um gesto de civilidade. O modelo do diálogo parte de outros pressupostos: O Reino é maior que a Igreja e conhece também uma realização secular, sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história e nas pessoas do bem; Ele chega antes do missionário, pois estava nos povos na forma de solidariedade, amor e compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia vive rem felizes no Reino dos libertos. A missão da Igreja é ser sinal desta história de Deus dentro da história humana e também um instrumento de sua implementação junto com outros caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto secular está empapada de Deus devemos todos dialogar: trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura.
O primeiro modelo do testemunho é da Igreja da tradição, que promoveu as missões na África, na Ásia e na América latina, sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e dominação de muitos povos originários, africanos e asiáticos. Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o mundo, empunhando a cruz como testemunho de que ai vinha a salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento XVI que negou o título de "Igreja" às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade pois a via negativamente como relativista e secularista. Logicamente não lhe negou todos os valores mas via neles como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados contra os quais importa se defender.
O modelo do diálogo é do Concílio Vaticano II, de Paulo VI e de Medellin e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo não como um depósito, sistema fechado com o risco de ficar fossilizado, mas como uma fonte de águas vivas e cristalinas que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um lugar de aprendizado mútuo porque todos são portadores do Espírito Criador e da essência do sonho de Jesus. O primeiro modelo, do testemunho, assustou a muitos cristãos que se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição mas não do Cristianismo como valor e utopia generosa de Jesus.
O segundo modelo, do diálogo, aproximou a muitos pois se sentiam em casa, ajudando a construir uma Igreja-aprendiz e aberta ao diálogo com todos. O efeito era o sentimento de liberdade e de criatividade. Assim vale a pena ser cristão. Esse modelo do diálogo se faz urgente caso a instituição-Igreja quiser sair da crise em que se meteu e que atingiu seu ponto de honra: a moralidade (os pedófilos) e a espiritualidade (roubo de documentos secretos e problemas graves de transparência no Banco do Vaticano). Devemos discernir com inteligência o que atualmente melhor serve à mensagem cristã no interior de uma crise ecológica e social de gravíssimas consequências. O problema central não é a Igreja mas o futuro da Mãe Terra, da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda nessa travessia? Só dialogando e somando forças com todos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Quaresma: que eu procure mais amar, que ser amado (Leonardo Boff)


Quaresma: que eu procure mais amar, que ser amado (Leonardo Boff)

Segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013 - 0h10min
Fazei com que eu procure mais amar, que ser amado.
Sentir-se amado é mais gratificante que amar, pois basta apenas acolher o amor gratuito do outro, sem ser necessário conquistá-lo ou dar-lhe provas de amor. Sentir-se amado é sentir-se importante e precioso para alguém. Aumenta a auto-estima e reforça o sentido de ser.

De repente, sei que estou no coração e na mente de outra pessoa. Sou para ela um valor inestimável. Acompanha-me em cada gesto, procura saber cada pormenor da minha história, valoriza cada palavra minha e intui amorosamente cada intenção, por mais secreta que seja.
Aquele que ama vive num estado de consciência alterado. Perde o interesse por si mesmo e entrega-se a forças que o arrastam irrefreavelmente na direcção da pessoa amada. Esta aparece aos seus olhos como única e diferente de todas as demais no Universo. Experimenta um estado de arrebatamento e de potencialização de sentido que, em função da pessoa amada, reorganiza toda a vida.
Todos querem ser amados; pois todos anseiam ser únicos para alguém. A frase mais triste que ouvi foi de uma jovem assistente social, mulher simples do povo, sem grandes dotes de beleza, segundo as pobres convenções da nossa cultura material: "Eu nunca fui amada; nunca fui interessante para ninguém; ninguém até hoje olhou para mim." E os seus olhos traíam uma tristeza infinita. Uma mágoa profunda com a vida ingrata e cruel pesava em cada uma das suas palavras. O Universo parecia ter desabado sobre ela.
Sem amor, a vida perde significado e densidade. Tudo fica irrelevante e sem valor. É fundamental para o brilho da existência sentirmo-nos amados e acolhidos com enternecimento por aqueles que nos cercam. Por detrás do ateísmo, do gnosticismo e do indiferentismo talvez esteja essa experiência devastadora: a incapacidade de alguém se sentir acolhido como num útero, aceite como no seio de uma família e amado incondicionalmente por uma pessoa.
Porque temos esta necessidade inarredável de sermos amados? Porque nós, seres humanos, desde que nascemos mostramos a tendência para nos unirmos a algo que nos realize, a algo que nos transcenda. As ciências da Terra dizem que esse algo representa a acção da seta do tempo e do impulso da evolução a empurrar-nos sempre para a frente e para cima, de convergência em convergência, na direcção de uma culminância suprema. Os especialistas da psique humana aventam a ideia de que esse desejo de união representa a memória ancestral da nossa vida no útero materno. As religiões ensinam que esse algo é a ânsia por Deus como Alfa e Omega da nossa vida. Seja como for, o ser humano, ao sentir-se amado, vive a experiência de ter resgatado o paraíso terrestre ou ter chegado à Terra da Promissão.
Que significa procurar mais amar, que ser amado? É o convite para darmos o salto por cima de nós mesmos, para podermos propiciar amor ao outro e aos outros. Ao amar o outro, queremos que ele experimente uma absolutarealização - ser amado - e se sinta existencialmente o centro afectivo do nosso universo. Pois é exactamente essa a experiência que o amor nos permite fazer.
Amar mais do que ser amado é, então, a força de sairmos de nós mesmos e de nos centrarmos no outro por causa do outro - dando-lhe valor, cuidado, ternura, cordialidade e convivialidade. São Francisco conseguiu amar os leprosos e todas as criaturas como irmãos e irmãs muito queridos. Por isso o seu universo é cheio de unção, enternecimento e respeito, porque permite que todos se sintam amados.

Esta atitude de um amor maior pode resgatar a humanidade ameaçada e salvar a vida do planeta Terra. Quem tem este tipo de amor superabundante conquista tudo: o próprio coração, a salvação eterna e Deus mesmo.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais amar, que ser ser amor. Que eu acolha com generosidade e alegria o amor que me é dado, mas que me empenhe sobre tudo em fazer com que os que me cercam se sintam amados. Fazei que nos sintamos amados por Vós para experimentarmos a suprema felicidade concedida nesta vida. Amém.  
(Publicado em A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual. Ed. Sextante)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Leitura da palavra de Deus do dia 10 de fevereiro


Êxodo 34, 29-35     I Corintios 12, 27 – 13, 13 Lucas 9, 28-36
Queridos e amados,
O Novo Testamento em Lucas mostra, assim como no Antigo Testamento, que a oração transfigura o ser humano. Neste caso, entretanto, João e Tiago perceberam a grandeza de Jesus e sua ligação com Moisés e Elias, baluartes e referências do povo judaico. Pedro pediu para montar ali uma tenda e ficar ali em convívio com Jesus, Moisés E Elias. Este não era o caminho. Estar ali, parados, com Jesus não era – e segue não sendo – o caminho para os seguidores de Jesus.  Acomodar-se neste estado, que certamente implica um perceber-se melhor que os outros não é o caminho que o seguimento do Senhor aponta. E significa. Nenhuma acomodação é possível neste caminho. Nem a religiosa, nem em privilégios de status, poder, dinheiro e luxo. É preciso que a Igreja e cada um de nós estejam existencialmente, e na mente, e no coração com os excluídos.
Moises, lá no Êxodo, transfigurou-se após ter falado com Javé e estar com as duas tábuas da aliança. Aliança que segue sendo válida. A presença com o Senhor nos transforma, transfigura, ilumina. Esta experiência de transfiguração permite a cada um que se transforme em luz e alegria ao mundo, e isto, ainda hoje, é possível a cada um de nós. Temos várias formas de acessar, encontrar e construir esta relação íntima e amorosa com Deus, nosso Salvador.
A primeira delas é a oração, portal que nos insere num processo de paulatina transformação mística de conformação de si em espaço de manifestação de amor e acolhimento. A oração, derivada da Palavra rezada e meditada, transforma nossa vida e a torna um anúncio da justiça de Deus, num ícone do amor de Deus que salva.
Para que isso ocorra, entretanto, devemos mergulhar nesta experiência em comunidade ou sozinhos, requer uma postura de humildade e busca de permanente conversão. Assim fala Frei Mariano Ceras, no livro A Oração no Carmelo, a pagina 64 diz:
 “Para uma pessoa que não está disposta a renunciar à sua própria ética, à sua própria pretensão de autosuficiência é impossível entender o livro das Escrituras. Qualquer um pode ler a Bíblia. Mas, se não está disposto a colocar uma discussão a si mesmo, suas próprias certezas e riquezas, o livro permanece fechado para ele, ainda que materialmente, pareça aberto: é preciso esvaziar o coração para que a Palavra de Deus possa enchê-lo com a sua riqueza.”.
A outra forma existente de transfigurar-se não pode – nem deve – desligar-se da oração, mas manifestar-se socialmente e na relação objetiva com as pessoas concretas com quem vivemos. Como belamente relata a segunda leitura de hoje, de nada vale todos os dons, capacidades, presentes, conhecimentos, bens e títulos de um ser humano se este não tiver amor. Amor que não seja abstrato, teórico ou discursivo, mas ativo, operante, que leve vida onde impera a morte.
“Não se alegre com a injustiça, mas se regozije com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará...”
Um amor que passa pela honradez com o real, com a honestidade para com a realidade. Supõe, como bem fala Jon Sobrino, no belíssimo livro Onde está Deus?:
“estamos abertos para que a realidade nos interpele, nos questione e nos leve a uma conversão, que capta a real extensão do pecado e de graça na realidade. O Evangelho caracteriza-se por uma luta permanente contra toda forma de mentira e dissimulação da realidade para que a luz da verdade sobressaia. (...) Trata-se de deixar a realidade falar (escutar, ver, discernir) e dar voz (grifo meu) à realidade (anunciar, pregar, testemunhar).”
É preciso, de fato, olhar a realidade com lucidez e sem fantasias auto impostas ou ideologicamente inculcadas a nós pelos meios de comunicação de massa: jornal, televisão etc. É preciso olhar, olhar com mentes e olhos bem abertos (e nem precisa tanto assim porque a crua realidade está aí a bater em nossos olhos nas calçadas e cracolândias) que vivemos em um mundo em que poucos, de fato, têm direito à vida. O direito à vida, no discurso, é evidente a todos. No discurso apenas. Como diz Jon sobrinho a verdadeira expressão do que é ser humano é decidida a partir das vítimas, pois não tomam a vida como algo pressuposto. Claro, tem de lutar, e lutar muito, para poder, apenas, sobreviver. E chegar aos 40, 50, 60 anos “em cacos”, aos pedaços, e seguir a triste sina de ser jogado para lá e para cá pelo sistema de saúde pública precária e aviltante. Isso os que até lá chegaram, pois tiveram a sorte de não serem assassinados por bandidos ou policiais, de não terem sido sugados pela vida sem sentido ou pelas drogas, de serem deformados pela péssima educação pública.
Sobreviventes, heróis da vida diária. O lugar onde se decide o humano, o lugar das vítimas. Os amigos de Jesus. É lá onde Deus se revela, se encontra, se manifesta. No agir amoroso a estes a glória de Deus se manifesta, se expressa, transforma e transfigura. Não um encontro apenas pessoal e eventual, que mantém a tragédia estrutural do dia a dia. Um encontro com Deus nas vítimas, que transforma a vida e o momento dramático, nossas relações éticas e pessoais e as estruturas de pecado e morte, que mantém este estado de coisas terrífico e cruel.
Como disse em palestra o atual Mestre Geral da Ordem dos
Dominicanos – cujo nome me esqueci - devemos seguir:
1.    Nunca sem os pecadores, pois somos – todos- pecadores, frágeis e insuficientes.
2.    Nunca sem os pagãos, nunca sem o espírito de missão de ser e levar a Boa Nova – de amor, paz, justiça, encontro a todos – religiosos ou não – que tenham se afastado da dura realidade e do Deus encarnado e misericordioso Jesus Cristo.
3.    Nunca sem os excluídos, nunca sem os esquecidos, nunca sem os favoritos de Jesus, nunca sem enfrentar aqueles que mantêm a estrutura de morte.
Que a experiência de Deus nos leve ao encontro amoroso com todos, à percepção da Graça de Deus que nos acolhe e envolve e a entrega de nossas vidas a Ele. Tal é o caminho, acredito firmemente, para a nossa felicidade.
Alegres e felizes a orar e dançar pela vida, no meio de libertos de toda escravidão.
Amém!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Comissão começa a expor verdades da ditadura


Comissão começa a expor verdades da ditadura

Quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013 - 15h56min
por Terra Magazine
Contestada severamente por militares, com um formato considerado tímido por parentes de vítimas, a Comissão Nacional da Verdade começa aos poucos a expor a tétrica realidade dos anos de chumbo. O comentário é de Marcelo Semer em artigo publicado pelo Terra Magazine, 07-02-2013.

Eis o artigo.

Nesta terça-feira, o coordenador da comissão, o ex-procurador-geral da República Cláudio Fontelles, disse que não há mais dúvidas em relação ao assassinato do ex-deputado Rubens Paiva, dentro do DOI/Codi, no Rio de Janeiro, por agentes da ditadura. Fontelles afirmou, ainda, que a comissão terá condições de identificar, inclusive, os autores do homicídio –dois dos quais ainda vivos.

A versão oficial, de que Paiva teria conseguido escapar depois de preso, está sendo destruída pelo conjunto de documentos analisados pela Comissão. Um deles, exposto por Fontelles, confirma a prisão do ex-deputado no dia 21 de janeiro de 1971, no DOI/CODI; outro, publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, mostra que no dia 25 do mesmo mês, quando ele foi morto, nenhuma referência se fazia à inverossímil versão da fuga.

A reconstrução histórica oficial é uma tarefa indispensável da democracia. Não se trata, apenas, de buscar a reconstituição de crimes, mas descortinar a história que o próprio Estado buscou ocultar durante muitos anos. Como Rubens Paiva, ainda existe mais de uma centena de pessoas desaparecidas após terem sido presas pelos agentes da repressão. O Estado brasileiro deve a verdade a essas famílias, que têm vivido décadas destroçadas pela dor e pela dúvida, pela subtração da vida e dos corpos de seus entes queridos.

Também pela Comissão da Verdade, veio à tona documento emitido pelo gabinete do ex-presidente Garrastazu Médici, assinado pelo general João Baptista Figueiredo, que seria presidente anos depois. O comando determinava que os agentes públicos não atendessem a pedidos de esclarecimentos de organizações nacionais ou internacionais sobre mortos e desaparecidos, conforme noticiou o Estado de S. Paulo.

O governo entendia que o objetivo destas organizações era “colocar no banco dos réus os elementos responsáveis pelo quase total desbaratamento das organizações subversivas”. A ocultação das atrocidades, portanto, não foi resultado de atos isolados, mas uma política de governo, que não apenas convivia com as torturas, sequestros, desaparecimentos e assassinatos, como pretendia escondê-los justamente para evitar que seus autores fossem um dia levados para o banco dos réus.

Isso é o que faz tais atos serem caracterizados como crimes contra a humanidade: produzidos por uma política de terror instalada para reprimir o indivíduo com o descomunal peso do Estado tanto no seu cometimento, quanto na sua ocultação. Afinal, se o ditador manda esconder, que polícia iria investigar?

Não é por outra razão que a farta jurisprudência internacional impede que tais crimes possam ser objeto de anistia pelo próprio Estado que impedia seu povo de conhecê-los e suas autoridades de apurá-los.

O trabalho da Comissão da Verdade é apenas o de restabelecer a história que, covardemente, se buscou esconder. Mas, certamente, com os reflexos da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a apuração das responsabilidades também deverá ser reapreciada pela Justiça.

Reformados e batistas oferecem curso de Diaconia para a Paz


Reformados e batistas oferecem curso de Diaconia para a Paz

Quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013 - 16h00min
por Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
A Corporação Universitária Reformada (CUR) e a Fundação Universitária Batista (FUB) firmaram convênio para a oferta de curso, nos seus programas de teologia, sobre Diaconia para a Paz.
Voltado a assistentes sociais, teólogos, pastores, pesquisadores sociais, líderes comunitários, o curso tem por propósito fortalecer a incidência pública e política das comunidades eclesiais na construção da paz na Colômbia, a partir de uma perspectiva bíblica teológica. Ele levará em conta experiências locais e do movimento ecumênico internacional de não-violência e busca da justiça.
O curso é uma decorrência da pesquisa "Iniciativas de Paz de Igrejas Evangélicas e Ecumênicas na Colômbia", realizada em 2011, e conta com a cooperação da Rede Ecumênica da Colômbia, Conselho Mundial de Igrejas, Conselho Latino-Americano de Igrejas e do Centro Regional Ecumênico de Assessoria e Serviço (CREIAS).

A força do Evangelho - José Pagola


A força do Evangelho - José Pagola

Quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013 - 16h10min
O episódio de uma pesca surpreendente e inesperada no lago da Galileia foi redactada pelo evangelista Lucas para infundir alento à Igreja quando verifica que todos os Seus esforços para comunicar a Sua mensagem fracassam. O que se nos diz é muito claro: temos de colocar a nossa esperança na força e no atrativo do Evangelho.
O relato começa com uma cena insólita. Jesus está de pé na margem do lago, e "as pessoas vão-se aglomerando à Sua volta para ouvir a Palavra de Deus". Não vêm atraídos pela curiosidade. Não se aproximam para ver prodígios. Só querem escutar de Jesus a Palavra de Deus.
Não é sábado. Não estão congregados na sinagoga próxima, de Cafarnaum para ouvir as leituras que se leem ao povo ao longo do ano. Não subiram a Jerusalém para escutar os sacerdotes do Templo. O que os atrai tanto é o Evangelho do Profeta Jesus, rejeitado pelos habitantes de Nazaré.
Também a cena da pesca é insólita. Quando de noite, no momento mais favorável para pescar, Pedro e os seus companheiros trabalham por sua conta, não obtêm resultado algum. Quando, já é de dia, atiram as redes confiando apenas na Palavra de Jesus que orienta o seu trabalho, produz-se uma pesca abundante, contra todas as suas expectativas.
No ruido de fundo dos dados que tornam cada vez mais patente a crise do cristianismo entre nós, há um fato inegável: a Igreja está a perder de modo imparável o poder de atração e a credibilidade que tinham até recentemente.
Os cristãos, temos vindo a verificar que a nossa capacidade para transmitir a fé às novas gerações é cada vez menor. Não faltaram esforços e iniciativas. Mas, ao que parece, não se trata só nem primordialmente de inventar novas estratégias.
Chegou o momento de recordar que no Evangelho de Jesus há uma força de atração que não há em nós. Esta é a pregunta mais decisiva: Continuamos a "fazer coisas" a partir de uma Igreja que vai perdendo atrativo e credibilidade, ou colocamos todas as nossas energias em recuperar o Evangelho como a única força capaz de engendrar fé nos homens e mulheres de hoje?
Não temos de colocar o Evangelho no primeiro plano de tudo? O mais importante nestes momentos críticos não são as doutrinas elaboradas ao longo dos séculos, mas a vida e a pessoa de Jesus. O decisivo não é que as pessoas venham a tomar parte nas nossas coisas mas que possam entrar em contato com Ele. A fé cristã só se desperta quando as pessoas descobrem o fogo de Jesus.
José Antonio Pagola

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Chavismo


Haiti por si_
01.02.13 - Mundo
Entrevista – Chavismo, guerra midiática e a lição popular que a Venezuela segue dando (Parte 2)
 
Rogéria Araújo
Jornalista da Adital
Adital
Indubitavelmente, no atual marco político e independente latino-americano, a Venezuela – através de seu presidente Hugo Chávez Frías – reacendeu a chama bolivariana no continente, no caminho da unidade pela qual tanto lutou Simón Bolívar. Em meio a um cerco midiático de oposição e os claros interesses das classes dominantes, a nação venezuelana segue dando exemplo de como se manter erguida contra a hegemonia injusta e opressora.Confira a segunda parte desta entrevista feita com o educador e analista político nicaraguense, Ricardo Zúniga, integrante da Rede Universitária de Pesquisadores sobre a América Latina, com sede no Ceará (Brasil), sobre a conjuntura venezuelana e sua importante repercussão para o mundo.

Adital - Na conjuntura política latino-americana, o que significa mais uma vitória de Hugo Chávez em eleições presidenciais na Venezuela?
Ricardo Zúniga - Em meio de uma confrontação de projetos de nação e de modelos de integração latino-americana a vitória de Chávez significa a continuidade do projeto bolivariano, que tem como uma expressão característica a consolidação de uma comunidade de nações na Alba, baseada na solidariedade, complementaridade e intercâmbio justo. Também implica um forte respaldo a processos de integração mais abrangentes: Celac, Unasul, e Mercosul, como espaços de afirmação da unidade e protagonismos latino-americanos.
Uma das contribuições mais importantes da Alba é que representa uma alternativa viável de integração latino-americana pensada simultaneamente em função dos projetos nacionais com a priorização das necessidades básicas das maiorias, e da autodeterminação da América Latina numa perspectiva realmente popular, solidária, anti-neoliberal, anti-imperialista e pós-capitalista. Ainda vivendo no metabolismo do capital, porém a perspectiva é ir construindo caminhos pós-capitalistas, no fortalecimento das economias comunitárias, da autossuficiência alimentaria, cuidado com o equilíbrio ecológico, da garantia do abastecimento energético aos países da America Latina.
Um aspecto marcante da cooperação exercida na Alba é que permite que pequenos povos empobrecidos de America Central e Caribe tenham acesso a creditos para seu desenvolvimento nacional, sem passar pelas condicionantes do
FMI e do Banco Mundial. Isto introduz uma diferença fundamental no continente.
Um elemento importantíssimo da continuidade da vitória chavista é o firme apoio ao povo cubano com projetos estratégicos para garantir e fortalecer o funcionamento sustentável da economia cubana.
Na presente cojuntura da enfermidade de Chávez, a direção política está trabalhando pelo fortalecimento de uma equipe do governo unido e fiel à inspiração do líder, na construção e defesa coletiva da revolução bolivariana. Ante uma previsível presença diminuída do presidente no território e, inclusive, ante uma ausência definitiva, se está dando um salto de qualidade com um funcionamento mais coletivo da direção e ênfase na participação popular a todos os níveis.
Adital - Há muitas manifestações populares e de solidariedade pela saúde do presidente venezuelano, que desde dezembro está em Cuba. O fato de não estar presente em sua posse acirrou os ânimos da oposição. Como o senhor vê a força da oposição neste momento?
Ricardo Zúniga - Efetivamente as manifestações populares em solidariedade com o presidente Chávez e a revolução bolivariana têm sido impressionantes, em diversas partes do mundo, inclusive em alguns países muçulmanos. Na América Latina, do México ao Chile e Argentina, assembleias de pessoas de boa vontade sentem Chávez como alguém próprio, e reconhecem sua grande contribuição à transformação da Venezuela e à integração e unidade latino-americana.
Ante a impossibilidade do presidente reeleito, de tomar posse na data indicada pela constituição, grupos de oposição pretenderam interpretar a ausência do ritual da posse, como um rompimento da ordem constitucional, o que resulta falso, já que a própria Constituição Nacional prevê em situações de força maior, por eventos ‘sobrevindos’ que o presidente pode tomar posse posteriormente ante a Corte Suprema de Justiça.
A oposição também divulgou que havia enfrentamentos no interior da equipe superior de governo, especialmente entre o vice-presidente [Nicolás] Maduro, e o presidente da Assembleia Legislativa. Na realidade, a equipe do governo está trabalhando de maneira harmoniosa, cumprindo cada um suas próprias funções legalmente estabelecidas.
O problema é político, não jurídico. Chávez e seu partido triunfaram nas eleições por uma inquestionável maioria. O fato de não comparecer à cerimônia de posse, não invalida a vontade popular. A Corte Suprema da Justiça tem considerado que o presidente reeleito exerce seu mandato com a equipe de governo que ele confirmou, no marco legal, depois de ser releito. Também estabeleceu que o ritual da posse pudesse se efetuar posteriormente, quando tenha condições apropriadas de saúde.
A oposição na Venezuela mostrou uma força considerável nas recentes eleições de 7 outubro nas que seu candidato presidencial, Enrique Capriles, contou com mais do 44% dos votos. Mas na presente cojuntura tem certo enfraquecimento. Já nas eleições para governadores (16/12/12), o PSUV, o partido de Chávez, se impôs em 20 dos 23 estados que conformam a federação. Além disso, por defender um projeto neocolonial, que beneficia as grandes corporações transnacionais, na medida em que se aprofunde num debate político sério e criterioso, e aumente a consciência política dos empobrecidos, é previsível uma maior fortaleza do chavismo.
Por outra parte, neste momento, a oposição está dividida enquanto à estratégia a seguir. Uma parte pretende desconhecer a legitimidade do atual governo, já o grupo de Capriles, numa atitude mais lúcida, aceita o veredito da Corte de Justiça. Eles estão conscientes que, em caso de uma desaparição física do presidente, se houvesse que convocar novas eleições em curto prazo, seguramente o triunfo seria novamente do chavismo. Finalmente também estão ativos os setores extremistas e criminosos. Órgãos de inteligência venezuelana denunciaram ter descoberto planos para assassinar ao vice-presidente Maduro e ao presidente do poder legislativo Diosdado Cabello.
A debilidade estratégica da oposição é que dificilmente pode apresentar um projeto credível, que supere a proposta bolivariana que vem mostrando consistência, consequência e ganhando crescente credibilidade por mais de 12 anos, e por outra parte, sua dependência das orientações e ajuda da política externa dos Estados Unidos.
Adital - Populista para uns e popular para outros. Em que pontos o governo e presidente Hugo Chávez se diferencia de outros líderes da América Latina? Até que ponto pode-se dizer que ele redesenhou um novo olhar voltado para os países latino-americanos, sobretudo partindo dos países ditos desenvolvidos, considerados grandes potências econômicas e políticas?
Ricardo Zúniga - Penso que o conjunto das políticas sociais implementadas na Venezuela são autenticamente populares. Tem sido estratégicas e duradouras, em modo algum são ações oportunistas visando eleições. São ações tendentes a erradicar a miséria, a atingir um desenvolvimento econômico sustentável. Trata-se de pagar a histórica dívida social acumulada em décadas por uma estrutura econômico-social, que manteve na miséria a mais da metade da população, em meio de um mar de riquezas acumuladas por classes dominantes parasitárias e "vende-pátria”.
O projeto bolivariano trabalha coerentemente contra a desigualdade, a pobreza, a marginalidade social, não apenas na Venezuela. Essa luta é visível nos países da Alba e em outros países empobrecidos em nossa América, basta assinalar a exemplar ajuda que a Venezuela, em conjunto com Cuba, oferece ao povo haitiano. Muito maior em termos proporcionais à dos países do G-8, com métodos coerentes e visando à restituição a esse povo dos recursos naturais historicamente saqueados e empobrecidos por dívidas injustas. Mas principalmente visando a restituição de sua dignidade.
Com certeza o processo bolivariano tem contribuído substantivamente para criar nos povos latino-americanos um novo olhar, que supera as visões coloniais e neocoloniais, para instaurar uma atitude de povos que resgatam desde sua história, sua dignidade para construir um projeto próprio que atenda às necessidades e interesses de suas grandes maiorias. É muito difícil falar em diferença de Chávez com outros líderes latino-americanos. Mas posso apontar uma: Chávez e sua equipe próxima têm uma profunda vocação bolivariana o que significa, entre outras coisas, uma atitude de profunda disponibilidade a partilhar os grandes recursos naturais da Venezuela e de saber pensar em função da grande pátria latino-americana.
Confira a primeira parte desta entrevista em http://www.adital.com.br/?n=chwe

Homilia de 03.02.2013 Uma Igreja Profética


Texto feito por mim para homilia a ser feita amanhã na Paróquia Anglicana Santa Cruz. Pode haver algum erro de português. Perdão!
Jer. 1, 4-10          I Cor. 14,12 - 20             Lucas 4, 21 - 32

Queridos e queridas, amados e amadas por Deus,
Na semana passada vimos que Jesus fora ungido pelo Espírito de Deus, impregnado por sua força, que o enviou a espalhar a Boa Nova aos pobres, cativos, cegos e oprimidos. São os que ele traz no mais fundo de seu coração.
Somos chamados a seguir a Jesus, viver no Espírito de Jesus. A igreja – e somos Igreja – deve se ocupar com os que sofrem – é delas a igreja de Jesus – ou não somos e nem seremos jamais cristãos. Devemos semear liberdade, luz – um novo olhar sobre a vida e o viver – e graça.
A prática de Jesus não é focada no pecado das pessoas, mas no sofrimento que arruína suas vidas. O teólogo Joham Baptist Metz denuncia o grave deslocamento ocorrido no cristianismo: “a doutrina cristã da salvação dramatizou demasiadamente o problema do pecado, enquanto relativizou o problema do sofrimento”.
Nazaré era uma aldeia pequena, com cerca de 300 pessoas, todos conheciam a Jesus, um homem afinal de contas. Queriam que provasse, por milagres, ser um homem de Deus. Já naquela época pensavam apenas em si mesmos, em seu bem estar, em vantagens para si mesmo. Confundiam milagres, vitórias, curas com a prática amorosa de Deus.
Jesus cura, protege, guia, mas não é este o cerne, o centro de sua fala ou vida, mas a prática e a construção do Reino de Deus. É a inclusão de todos na vida, é o carinho e o amor a todos, é enfrentar a hipocrisia moralista e legalista, é ir contra as estruturas religiosas e politicas que oprimiam o povo e gerava sofrimento.
Todo profeta gera problemas, pois nos confronta com a verdade de Deus e exige mudança de postura. Jesus não age como sacerdote, como mestre da lei, mas como profeta. Ao contrário dos reis e sacerdotes, o profeta não é nomeado nem ungido por ninguém. Sua autoridade provém de Deus, empenhado em guiar, proteger e servir aos sofridos, sua autoridade vem do próprio agir salvífico de Deus no tecido social.
Quando a religião se cristaliza, se mumifica, se esteriliza, se alia aos poderosos, Deus envia um profeta para sacudir estas estruturas.
Uma igreja cristã é uma igreja profética. Peçamos a Deus que envie seus profetas e saibamos acolher Sua palavra e converter nossas estruturas.
Nossa igreja, a Anglicana, tem algumas coisas absolutamente fantásticas. Olhemos para sua estrutura e veremos que o Santo Espírito operou de forma especial nela. Temos um bispo e uma comunhão de bispos e dioceses. Este bispo é eleito por leigos e clero, de forma paritária. A diocese, em todos os seus fóruns decisórios, é movida por estruturas coma presença paritária de clero e leigos. Assim deve ser, governo e decisões colegiadas, participativas, transparentes, fraternas, unidas.
Parece que às vezes nos esquecemos de olhar, perceber e viver o que estas estruturas nos dizem na própria forma de ser no dia a dia. Recordemos nossa vida, nossa história, nossa gênese. Recordemos nossa rebeldia, nossa capacidade de nos rebelar ao que não é evangélico, ao que não é fraterno, ao legalismo estéril. Fidelidade à nossa história, ao nosso amor, ao Jesus Salvador e Senhor que nos libertou para a comunhão e uma vida de união amorosa.
Como diz o grande teólogo Pagola: Uma igreja sem profetas corre o risco de caminhar surda aos apelos de Deus à conversão e à mudança. Um cristianismo sem espírito profético corre o perigo de ficar controlado pela ordem, pela tradição ou pelo medo da novidade de Deus.
A presença cristã deve incomodar. Sua vida deve ir contra a corrente cultural, estar em desacordo com os valores sociais imperativos. É muito mais fácil sermos convencionais, instalar-se comodamente na vida e viver aí a consumir e a consumir-se.
Jesus é um profeta, um Deus que se encarna ao ponto de ser condenado a ser morto e morte de cruz. Um Deus que mostra que mesmo pessoas que não pertencem ao povo eleito de Israel são apreciadas e agraciadas pelo amor de Deus. Todos são seus filhos e filhas. Somo enviados a ser Boa Nova a todos e todas, onde a vida se fragiliza e está ameaçada. Deus é maior, não se ajusta aos nossos esquemas e discriminações.
E aí, meus irmãos, devemos agir com humildade e inteligência. A segunda leitura de hoje bem nos adverte que todo nosso agir deve estar a serviço de toda comunidade, à edificação do outro, qualquer que seja este outro. O falar em línguas é menos importante que o entendimento e o serviço aos outros, que a revelação, a profecia, o ensinamento a todos e a cada um. É a serviço do outro, é o amor ao outro, ao diferente, ao que incomoda, a todos a nossa volta que atesta a vida cristã, o seguimento do Cristo, nosso grande amor e Salvador.
Jeremias foi um homem chamado por Deus para servir seu povo na dura missão de ser profeta. Jeremias é da cidade de Anatot, que é uma cidade do Reino do Norte – Israel – que fora invadida pelos Assírios em 722 A.C., aproximadamente um século antes de sua vida. A tradição religiosa do Norte era menos ligada ao Templo e guardava um caráter mais popular, livre, comunitário e camponês, em que a experiência libertadora do êxodo era mais marcante do que a centralidade do Templo. Era de origem camponesa.
Pois bem, deus o consagrou desde o ventre. O consagrou não para ser melhor que os outros, não para ser mais puro ou poderoso. O consagrou para ser profeta, para denunciar a opressão, o sofrimento, à idolatria dissimulada, o esquecimento de Deus em nossas vidas e relações.
Ele, como nós, logo arrumamos desculpas. A vida normal é tão mais simples, cômoda, tranquila. Deus, entretanto chama, capacita e protege àqueles que carrega em seu coração e caminho. Não acredito que escolhe eleitos ou santos. Escolhe os mudos, os gagos, os jovens, os fracos, os incapazes, os sofridos, os pecadores, os sem nada que acolhem Sua Palavra e topam o desafio de ajudar a construir um mundo mais fraterno e amoroso. Sua palavra nos chama, nos penetra, nos invade e nos obriga a agir. Um agir que deve afrontar estruturas de pecado, de opressão, de busca de poder, estruturas de iniquidade. Estruturas pecaminosas...
Minas irmãs, meus irmãos, somos todos chamados a sermos profetas e servos de Deus. Não nos escondamos em nossa evidente pequenez, em nossa fraqueza ou em nossa idade. Não nos conformemos com uma vida comum. Deus te chama para fazer diferente, ser diferente, fazer diferença, dar sabor ao mundo e ao tecido humano. Sejamos abusados, entreguemos nossas vidas, corpos e mentes ao senhor para enfrentar as forças da morte. Façamos de nossa vida, toda ela, a todo tempo e lugar, uma oferta santa a Deus e aos que sofrem.
E, não se esqueça, ou somos uma igreja profética ou não somos cristãos. Profética e mística, que carrega a experiência de Deus.
Tenha coragem, coragem que vem da fé, fé que vem do encontro com o Senhor da experiência de Deus.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Leonardo Boff: Em memória dos mortos de Santa Maria


Leonardo Boff: Em memória dos mortos de Santa Maria

Segunda-feira, 28 de janeiro de 2013 - 12h58min
por http://leonardoboff.wordpress.com
Os antigos já diziam: "vivere navigare est" quer dizer, "viver é fazer uma viagem", curta para alguns, longa para outros. Toda viagem comporta riscos, temores e esperanças. Mas o barco é sempre atraído por um porto que o espera lá no outro lado.
Parte o barco mar adentro. Os familiares e amigos da praia acenam e o acompanham. E ele vai lentamente se distanciando. No começo é bem visível. Mas na medida em que segue seu rumo parece aos olhos cada vez menor. No fim é apenas um ponto. Um pouco mais e mais um pouco desaparece no horizonte. Todos dizem: Pronto! Partiu!
Não foi tragado pelo mar. Ele está lá, embora não seja mais visível. E segue seu rumo.
O barco não foi feito para ficar ancorado e seguro na praia. Mas para navegar, enfrentar ondas, vencê-las e chegar ao destino.
Os que ficaram na praia não rezam: Senhor, livra-os das ondas perigosas, mas dê-lhe, Senhor, coragem para enfrenta-las e ser mais forte que elas.
O importante é saber que do outro lado há um porto seguro. Ele está sendo esperado. O barco está se aproximando. No começo é apenas um ponto levemente acima do mar. Na medida em que se aproxima é visto cada vez maior. E quando chega, é admirado em toda a sua dimensão.
Os do porto dizem: Pronto! Chegou! E vão ao encontro do passageiro, o abraçam e o beijam. E se alegram porque fez uma travessia feliz. Não perguntam pelos temores que teve nem pelos riscos que quase o afogaram. O importante é que chegou apesar de todas as aflições. Chegou ao porto feliz.
Assim é com todos os que morrem. O decisivo não é sob que condições partiram e saíram deste mar da vida, mas como chegaram e o fato de que finalmente chegaram. E quando chegam, caem, bem-aventurados, nos braços de Deus-Pai-e-Mãe de infinita bondade para o abraço infinito da paz. Ele os esperava com sacudades, pois são seus filhos e filhas queridos navegando fora de casa.
Tudo passou. Já não precisam mais navegar, enfrentar ondas e vencê-las. Alegram-se por estarem em casa, no Reino da vida sem fim. E assim viverão para sempre pelos séculos dos séculos.
(Em memória dolorida e esperançosa dos jovens mortos em Santa Maria na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013).

Programa ajuda teólogas africanas a refletir sobre suas lutas e esperanças


Programa ajuda teólogas africanas a refletir sobre suas lutas e esperanças

Quinta-feira, 31 de janeiro de 2013 - 15h56min
por A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter. A tradução é deMoisés Sbardelotto.
As duas irmãs nunca se conheceram. Elas falam línguas diferentes. Normalmente, elas estão separadas pelas diferenças de cultura e de estilo de vida, sem falar dos cerca de 1.800 quilômetros e das miríades de leis e regulamentos referentes a viagens e cruzamento de fronteiras. Mas desde o primeiro olhar no rosto da Ir. Annah Nyadombo, do Zimbábue, você não saberia disso. Ela sorri amplamente na hora em que vê a Ir. Marie-Rose Ndimbo, natural daRepública Democrática do Congo.

Encontrando-se pela primeira vez no fim de agosto passado, as irmãs viajaram para capital do Quênia para um encontro de teólogos africanos focado em questões éticas, convocado sob a égide de uma rede global de estudiosos católicos chamado Catholic Theological Ethics in the World Church [Ética Teológica Católica na Igreja Mundial].

É um grupo ao qual, graças a uma série de bolsas de estudos pioneiras, essas mulheres podem participar.

Nos últimos anos, o grupo obteve financiamentos para que sete mulheres africanas pudessem realizar seus doutorados em universidades católicas africanas. Ele também arranjou financiamento para que uma oitava,Nyadombo, realizasse o seu doutorado no Trinity College Dublin, na Irlanda.

Descrevendo o programa de bolsa de estudos durante o evento dos dias 21 a 23 de agosto, o padre jesuíta James Keenan, presidente da rede de ética e professor de teologia do Boston College, disse: "Se este programa tiver sucesso, estaremos olhando para o futuro da pesquisa, do estudo e da escrita teológica do continente da África".

Do lado de fora de um centro de retiros e pousada no oeste de Nairóbi, onde os participantes da conferência estavam hospedados, Nyadombo estava saltitante de alegria já que a sua companheira de estudos, Ndimbo, havia chegado para o evento. Com apenas uma palavra, as duas se abraçaram em um longo abraço. Com a ajuda de um tradutor – o padre jesuíta Peter Knox, teólogo sul-africano –, Ndimbo, francófona, e Nyadombo, anglófona, começaram a comparar as notas das suas vidas. 

As semelhanças não faltam: ambas são membros de ordens religiosas femininas locais, ambas são provenientes de áreas atingidas pela pobreza e se dedicaram a se concentrar sobre questões de justiça. Ambas também têm opiniões claras sobre os desafios que as mulheres enfrentam em toda a África. Um tema comum compartilhado entreNyadomboNdimbo e várias outras no programa: usar o seu status de teólogas morais para abordar o lugar da mulher na sociedade e na Igreja africanas.

Outra semelhança: a profunda experiência pessoal de alguns dos sofrimentos sociais e econômicos mais debilitantes do mundo e as jornadas pessoais de esperança e triunfo inesperados.

Em todo o continente

As mulheres do programa de eticistas teológicos vêm de países de todo o continente: QuêniaUganda Tanzânia, no leste; Nigéria Camarões, no oeste; Zimbábue, no sul; e República Democrática do Congo, na África central.

Sete das oito são membros de ordens religiosas femininas diocesanas. As ordens diocesanas não são internacionais e estão sob a autoridade canônica de um bispo diocesano em particular, que tecnicamente atua como o seu superior-geral.

As jornadas de fé dessas mulheres são complexas e variadas, embebidas em lutas pessoais e sociais.

Ir. Verônica Rop, natural do Quênia, é membro da comunidade tribal Kalenjin, do Quênia, uma das dezenas de grandes comunidades tribais que compõem o pano de fundo étnico do país.

Convertida ao catolicismo, ela foi a primeiro cristã da sua família. Segunda dos oito filhos de sua mãe – o pai teve quatro esposas –, Rop cresceu sem eletricidade e caminhava cinco quilômetros de ida e volta à escola.

Rop é de Eldoret, uma cidade de rápido crescimento do oeste do Quênia, perto da fronteira com a Uganda. Sendo a primeira pessoa da família a terminar o Ensino Médio, ela logo se juntou a uma comunidade local de religiosas, asIrmãs da Assunção de Eldoret.

Ir. Wilhelmina Uhai, que é da Tanzânia, vizinha ao sul do Quênia, teve uma formação quase oposta. Seus pais são católicos, e ela recordou como eles nunca deixavam que ela ou seus irmãos começassem a comer sem primeiro rezar.

"Nós não comíamos, não dormíamos, não fazíamos nada antes das orações", disse Uhai, agora membro dasIrmãzinhas de São Francisco de Assis, com sede na Uganda. "Eles me ensinaram a moral. Senão, eu realmente não me sentiria disposta a amar as questões morais e a me tornar uma teóloga moral – e uma teóloga, em primeiro lugar".

Com a ajuda do grupo de eticistas teológicos, Rop Uhai estão fazendo o seu trabalho de doutorado na Universidade Católica da África Oriental, uma universidade pontifícia ao sul de Nairóbi.

Antes de começar os seus estudos de doutoramento, Rop estudou por oito anos nos Estados Unidos, completando o grau de bacharel em teologia e em educação especial na Barry University, de Miami.

Uhai, que terminou seu mestrado em teologia moral na Universidade Católica de Nairóbi em outubro, antes de iniciar seu trabalho de doutorado lá, primeiro concluiu programas separados em filosofia, ministério pastoral e direção espiritual. Embora tais longos estudos acadêmicos possam separar algumas pessoas da experiência de vida normal, tanto Uhai quanto Rop disseram que são as luta cotidianas dos africanos, especialmente das mulheres, que moldam o seu trabalho.

Após quase uma década no exterior, Rop disse que finalmente decidiu voltar para o Quênia, porque ela queria ver que nova perspectiva o seu tempo fora poderia ter lhe dado.

"Eu senti que os estudos que eu fiz nos Estados Unidos me deram uma plataforma para falar para as mulheres", disseRop durante uma entrevista, enquanto se sentava em sua cadeira e ajeitava um casaco marrom que usava sobre o seu longo hábito branco.

"Eu sinto que as mulheres aqui simplesmente não têm voz", afirmou. "Eu pensei que eu tinha que voltar a usar essa plataforma. Especialmente como religiosa, a minha voz pode carregar um pouco mais de peso".

"Por que não me pronunciar?"

Diversas mulheres do programa de eticistas teológicos expressou essa responsabilidade de se pronunciar pelas mulheres em todo o continente africano.

Cada uma mencionou esse sentimento de obrigação depois de compartilhar histórias profundamente comoventes de esforço social e econômico.

A poucos minutos do início do seu primeiro encontro, Ndimbo Nyadombo aventuraram-se do quebra-gelo tradicional a uma conversa sobre o seu trabalho – em ambos os casos, focada diretamente na ajuda aos mais necessitados.

Nyadombo, que é membro das Servas de Nossa Senhora do Monte Carmelo, em MutareZimbábue, ordem religiosa diocesana de carisma carmelita, explicou que está trabalhando em um projeto de pesquisa focado no desenvolvimento de uma abordagem pastoral holística para com aqueles que sofrem de HIV/Aids. Nyadombo representa a sua abordagem com a sigla AGAPE para Acesso, Generosidade, Ação, Pessoas/Prece e Envolvimento.

"É o mesmo problema em todos os lugares", disse Ndimbo, que antes de iniciar seus estudos de doutoramento serviu como superiora da congregação das Irmãs Filhas de Maria, ordem com sede na cidade congolesa de Molegbe. Há orfanatos em todo o Congo lotados com "centenas e centenas" de órfãos do HIV/Aids, disse, e todos precisando de cuidados. Sua própria congregação abriu várias casas de acolhida para jovens mães que não podem cuidar de seus filhos.

Em sua entrevista, Uhai também focou na sua experiência de vida face a face com a pobreza e os conflitos sociais. Mas ela também se concentrou sobre questões mais amplas de desigualdade de gênero.

Após a conclusão dos seus estudos iniciais em teologia e filosofia, disse Uhai, grupos de mulheres do seu vilarejo natal pediram-lhe para dar seminários sobre como abordar alguns dos temas mais difíceis.

A maioria das mulheres que se aproximam dela são mães solteiras ou refugiadas, contou, que vivem com seus filhos na rua e se tornaram viciadas em drogas.

"Elas não têm ninguém para ajudá-las", disse Uhai. "Ninguém que fale com elas sobre como viver".

O seu status, disse, também é prejudicado em algumas culturas africanas devido à relação das mulheres e dos homens.

"Em algumas culturas, as mulheres são considerados serviçais", disse. "Você não tem palavra, você não tem direitos. Você faz tudo pelo seu marido, mas você não pode desafiar o seu marido, porque você é casada. Então, quem você é na sociedade? Você não tem voz".

Falar para e com essas mulheres, afirmou, é fundamental para a forma como ela entende o seu papel como teóloga moral.

"Deus nos chama como teólogas morais para entrar nessas situações e para ajudá-las a sair delas", disse Uhai. "Talvez, não tenhamos coisas materiais para lhes dar, mas por meio do nosso conselho ou falando sobre os problemas maiores da nossa sociedade podemos fazer alguma diferença".

Rop ecoou esse sentimento, misturando o local e o global.

Embora a sua tese de doutoramento na Universidade Católica de Nairóbi se centralize na participação das mulheresKalenjin nos esforços de desenvolvimento humano em EldoretRop identifica entre os seus modelos de vida mulheres norte-americanas como a Ir. Elizabeth Johnson, das Irmãs de São José e teóloga da Universidade de Fordham, emNova York, conhecida pelo seu trabalho sobre as questões feministas.

Indicando um ditado africano que diz que as mulheres são a espinha dorsal da família, Rop perguntou: "Se levarmos isso a sério, e as mulheres são tão importantes, por que não nos pronunciar?".

Ela disse: "Precisamos falar e falar, falar e falar, até que sejamos ouvidas, até que nos seja dada a oportunidade de participar no que está acontecendo".

Voltando ao lado de fora da casa de retiros, onde os sorrisos irradiam no primeiro encontro das irmãs do programa de bolsas de estudos, Ndimbo encontra uma nota semelhante.

Segurando Nyadombo pelo braço, Ndimbo conta à sua nova irmã que ela se sente fortalecida pelo seu encontro.

"É muito importante que as mulheres estejam agora falando sobre essas questões", diz ela a Nyadombo. "E não é apenas pela nossa geração. Há muitas mulheres que virão depois de nós por causa dessas bolsas de estudo".

Caminhando de mãos dadas, as duas buscam mais tempo para se conectar e compartilhar as suas muitas semelhanças – sem a ajuda do tradutor.

"Não precisamos dele", brinca Nyadombo, rindo. "Vamos falar de coração para coração".
* * *
Desde que essa história foi publicada, a Ir. Annah Nyadombo, das Servas de Nossa Senhora do Monte Carmelo, defendeu com sucesso a sua tese de doutorado em teologia pelo Trinity College Dublin. Sua tese foi: "Uma abordagem pastoral holística ao HIV/Aids: A redução da estigmatização no Zimbábue". Ela deverá se formar em junho.