APRESENTAÇÃO

Textos e silêncios pretende ser um espaço reflexivo ecumênico, fundamentalmente voltado para a vida concreta das pessoas a partir de textos e livros, mas também do caminhar contemplativo e meditativo, da vivência amorosa e solidária dos que, de alguma forma, partilharam comigo suas vidas, dores, sofrimentos e esperanças. A eles - e a vocês - devo a minha vida, o olhar que desenvolvi de existência e a experiência cristã do encontro com o Cristo servidor que nos salva. A eles sou devedor, minha eterna gratidão.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

LIBERDADE DE IMPRENSA! QUE IMPRENSA?

Meus irmãos , minha irmãs. A zona leste está toda fechada desde ontem a noite pelo PCC! Ontem a noite minha namorada teve de dormir na rua na casa de amigas por ordem emitida pelo PCC, que proibiu o condomínio a permitir o acesso de qualquer um  a suas casas a partir das 21 horas. Hoje pela manhã continuou igual. Agora a noite esta sem ônibus - podem ver a linha Jd. Danfer - Parque  D. Pedro!!! só as peruinhas, que alguns dizem estar ligadas e controladas pelo PCC estão circulando mas a população segue em panico e o governo nada faz. A Imprensa, por sua vez, não repercute nada, absolutamente nada.; A POPULAÇÃO NÃO EXISTE PARA A IMPRENSA. Só quando lhes interessam é que existe  o povo. a execução de pessoas inocentes pela ROTA provocou o protesto... a morte dos pobres nada aparece na televisão, mas se ocorre em Ipanema, Copacabana ou na Paulista.... a pena de morte segue existindo, seja ela a da morte física e das torturas policiais, seja a da morte por falta de informação, de educação, de consciência. e quando se fala de liberdade de imprensa, para uma imprensa popular e democrática, falam de ditadura, de impedir a democracia. Que democracia? estão mesmo interessado em democracia, em divulgar a informação? A quem, portanto, defendem?

RIO + 20 = Neoliberalismo verde !!!!




Neoliberalismo tingido de verde de olho na Rio + 20
Em entrevista à Carta Maior, a antropóloga e ambientalista Iara Pietricovsky adverte para os riscos do agenda da chamada economia verde na Rio+20. "O ambiente de crise financeira dos países ricos estaria jogando água no moinho da lógica neoliberal de enxugamento dos estados nacionais também na área ambiental e abrindo generosos parágrafos para o setor privado se credenciar como o principal gestor de um novo paradigma econômico e ambiental", diz.
Data: 17/05/2012
Rio de Janeiro - A antropóloga e ambientalista Iara Pietricovsky faz parte do grupo de articulação da Cúpula dos Povos (evento das organizações não-governamentais que será realizado no Aterro do Flamengo em paralelo à Rio + 20) e tem acompanhado as negociações oficiais das Nações Unidas em Nova York para a redação do documento oficial a ser apresentado na Rio + 20.

O que ela tem visto não é animador. Em um ambiente de crise financeira dos países ricos, os rascunhos do documento abrigam a lógica neoliberal de enxugamento dos estados nacionais ao tratarem e formularem políticas ambientais, e abrem generosos parágrafos para o setor privado se credenciar como o principal gestor de um novo paradigma econômico e ambiental, nessa ordem de importância.

Em entrevista à Carta Maior, Iara classifica a Rio + 20 em geral e a Cúpula dos Povos em particular como momentos cruciais para, a partir de grandes mobilizações populares, questionar esse modelo de “economia verde” e as diferentes vozes iniciarem um processo longo, mas efetivo, de uma nova agenda ambiental e econômica para o século XXI.

O que está em disputa na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20?

É o modelo de desenvolvimento e as opções para um futuro de sustentabilidade para o planeta Terra. O que nós, da Cúpula dos Povos, defendemos é um modelo que significa uma crítica frontal a mercantilização e financeirização da vida. E somos totalmente favoráveis ao aprofundamento da ideia de bens comuns. Ou seja, bens água, bens ar devem continuar sendo bens comuns, que devem ser preservados e não podem ser privatizados e mercantilizados.

E como transformar essas críticas em ações?

Nós estamos há algumas décadas apresentando e constituindo ações e experiências concretas alternativas. Um exemplo bastante evidente é a agricultura familiar, que está relacionada diretamente às questões climáticas, de insustentabilidade, de expansão de gado e desmatamento, esse confronto que está colocado na agenda rumo a um modelo sustentável.

Nós sabemos que a agricultura familiar, a agroecologia, é responsável por 75% da comida que vai ao prato do brasileiro. Ou seja, é real e concreto que esses setores sejam financiados, sejam vistos como fundamentais e estratégicos para o desenvolvimento de uma política pública, porque eles geram empregos, fixam as pessoas no campo, produzem alimentos de qualidade, estimulam comércios locais e processos complementares de produção. É uma alternativa a um modelo que pensa só em grande escala, que pensa em termos de mercado, a plantar soja aqui para os animais lá na China comerem. É outra lógica, e é uma lógica de sustentabilidade, de valorização e de humanização. Estaremos o tempo inteiro defendendo essas alternativas na Cúpula dos Povos, em contraposição aquilo que está sendo defendido pelas grandes empresas e corporações.

Um dos pontos da agenda da Rio + 20 é a questão da governança global dentro desse rearranjo de sustentabilidade e desenvolvimento. O que está inserido aí? Quem vai gerir essa nova engrenagem, e para quem?

Essa é a grande questão. Hoje, da maneira como a coisa está colocada, quem vai gerir isso é fundamentalmente o Banco Mundial, que é uma instituição constituída para aprofundar e construir resposta a esse modelo que a gente vive hoje, que é um modelo que já se provou incapaz de dar solução inclusiva, afirmando o direito de todos e todas a uma vida digna.

Então são instituições financeiras e comerciais - OMC (Organização Mundial do Comércio), Banco Mundial e G-20, como uma instância política que vem formulando também sobre tudo isso, - que não correspondem à necessidade de democratização e participação para a construção de soluções que sejam de fato soluções que beneficiem à totalidade da população e a preservação do planeta. Assim, o que está hoje como cenário de governança global e quem está gerindo essas propostas são aqueles que vêm produzindo esse modelo que está falido.

O que nós queremos é pensar outras alternativas, outra arquitetura internacional que seja feita de forma democrática e reconhecendo a diversidade, as responsabilidades comuns porém diferenciadas dos países na produção deste modelo predador.

Os estados nacionais chegarão a assinar a transferência do poder de gestão ambiental para instituições como G-20 e Banco Mundial? Em quanto essa transferência é reversível? Qual o espaço de manobra para iniciativas como a Cúpula dos Povos interferirem nesse processo?

Eu estou acompanhando o processo oficial da ONU pela Cúpula dos Povos e o que eu estou vendo é um processo de aceleração de uma privatização de todas as definições que produziriam essa transição de um modelo predador para um modelo sustentável. Os estados estão se desobrigando e as grandes corporações se aproximando para serem as responsáveis e promotoras desses novos acordos...

...com documentos oficiais assinados?

Isso está lá no documento (N.R.: Documento oficial da ONU sendo rascunhado em Nova York para a Rio + 20). O documento fala claramente no preâmbulo e no primeiro capítulo sobre economia verde que o principal aliado para a transição de modelo sustentável é o setor privado. E todos os setores organizados dentro do setor privado já estão diretamente participando com propostas, inclusive no desenvolvimento daquilo que eles estão chamando de metas de desenvolvimento sustentável.

Outro detalhe que é fundamental é que nesse documento, que é um documento que tenta articular o pilar social, o pilar econômico e ambiental, ou seja, são três dimensões importantes de estarem aí articuladas, eles estão querendo retirar tudo aquilo que se refere e se afirma pelos parâmetros dos direitos humanos dentro dos direitos econômicos, sociais e culturais, que foram tratados em convenções que todos os países, exceto os Estados Unidos, firmaram.

Esses direitos obrigam os estados nacionais a serem os efetivadores das ações, portanto eles têm que garantir o máximo de recursos disponíveis, de forma progressiva e sem discriminação, para a efetivação desses direitos. No momento em que você tira esses direitos, você diz assim, “muito bem. Vamos universalizar a energia, vamos universalizar acesso a água e tal”. Quem é que vai fazer isso? Os governos não estão presentes, estão em crise, não têm dinheiro. É o setor privado.

Seria uma privatização dos órgãos internacionais de regulação e gestão?

Quando eles colocam uma proposta de que o setor privado é prioridade e de que os direitos serão retirados, você está dando chance e abrindo as portas para que as soluções sejam dadas “business as usual”, quer dizer, dentro dos padrões de negócios que são usados comumente e que já ganharam os governos, compraram os governos e agora estão comprando as Nações Unidas.

Isso, nós da Cúpula dos Povos somos absolutamente contra. Nossa vida não está à venda. Nossa natureza não está à venda. O raciocínio não pode ser esse, o raciocínio tem que ser “os estados têm obrigações, e eles têm que ser mediadores e têm que responder aos interesses públicos dentro de processos democráticos de participação em que todos e todas sejam beneficiados”.

Não é isso que eles estão fazendo. Por exemplo, existe uma proposta de um rascunho dentro das negociações para a Rio + 20 que está definindo quais serão essas tais metas de desenvolvimento sustentável que vão substituir as tais metas do milênio, que já foram uma redução de toda uma série de debates no campo dos direitos.

Então eles estão dizendo assim; “ah, em 2030 nós vamos dobrar o uso de energia renovável”. É tudo sempre em 2030! Ora, o uso de energia renovável no mundo não chega a 4% da energia utilizada por todas as populações do planeta. Dobrar significa 8%. É nada do ponto de vista de soluções concretas, rápidas, de redução do padrão de uso energético da matriz energética baseada em recursos naturais.

Os prazos são menores?

Nós estamos esgotados! A solução tem que ser aqui e agora, “era para ontem”, não é em 2030 você chegar a 50% de um percentual que é insignificante em relação ao tamanho do problema. Essas coisas todas estão lá nos documentos, estão em jogo e estão muito evidenciadas.

Há espaço para sermos otimistas sobre essa irreversibilidade da privatização dos recursos naturais? Só como exemplo, há dez anos a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) era dada como certa e hoje está morta e enterrada. Essa “economia verde” emplaca 2022?

Olha, eu acho o seguinte. Vamos ser otimistas. A gente tem que ter a utopia e tem que sonhar, mas o otimismo para mim está ligado a uma luta consciente, concreta e pragmática que a gente tem que fazer hoje e agora na nossa vida. A gente tem que se informar e a gente tem que mobilizar.

A Rio+20 vai ser um momento fundamental de mobilizar a população, de vir às ruas, de expressar posições às coisas que estão acontecendo, como por exemplo a privatização das Nações Unidas. Ou, por exemplo, não reconhecer a importância de uma outra institucionalidade internacional que de fato lide com esses três pilares, e que o econômico se submeta às necessidades e a dignidade de vida das populações.

O otimismo vem da minha esperança que a população mundial e a população do Rio de Janeiro, a população do Brasil, acorde para a importância de olhar para esse evento que parece ser mais um “eventozinho no Rio”, mas que não é, é um dos eventos mais importantes que definirão, e aí vem um outro otimismo, que eu acho que é aonde a gente pode influenciar a partir da nossa mobilização, a agenda futura dos próximos dez anos.

Quer dizer, como é que a gente vai, primeiro, impedir que esse acordo entre governos e setor privado se realize. E como é que a gente vai dizer “não, não, não. Reconhecemos a necessidade de um setor produtivo, mas que setor produtivo nós queremos? Que estado nós queremos?”. Como nós vamos nos mover para de fato fazer uma agenda futura que responda aos direitos, necessidades, qualidade de vida, e justiça ambiental, social e econômica que as populações têm?

Porque, veja bem, fazer mensuração de mudanças dos estados, dos países, caminhando para um modelo de desenvolvimento sustentável, tudo bem, todo mundo é favorável a isso. Só que, por favor, quem foi responsável historicamente pelo padrão desagregador, predador, que tem no mundo, não fomos nós. Participamos, proporcionalmente, com parcelas ínfimas se você comparar com o que é os EUA do ponto de vista de consumo de energia no mundo e na emissão de gases de efeito estufa etc.

Então, se a gente não fizer uma “metas de desenvolvimento sustentável” que seja para os países ricos, porque eles têm que mudar o padrão de produção e consumo, e obviamente nós também, com responsabilidades diferenciadas, não começaremos a avançar.

Há caminhos para se chegar a essa proposta de responsabilidades diferenciadas?

Aí o Princípio do Rio (documento aprovado na conferência ambiental das Nações Unidas em 1992 listando 27 princípios que reforçam a soberania dos estados nacionais na gestão dos recursos naturais dentro de uma conjuntura preservacionista, inclusiva e democrática), que foi um princípio aprovado na Rio 92, é fundamental, é estrutural, é um eixo que orienta o quê deve ser esse documento. Se esse documento retira isso, por exemplo, você vai estar destruindo a possibilidade de uma agenda que vai mudar efetivamente o padrão de produção e consumo.

O meu olhar positivo e otimista é que a gente consiga influenciar essa agenda, porque nós não vamos resolver isso aqui e agora no Rio de Janeiro, mas sim determinar um processo global, porque aí sim, essas coisas vão mudar, essas coisas vão vir à tona, a consciência pública vai emergir e buscar um novo caminho planetário para os nossos desafios do momento.

sábado, 26 de maio de 2012

QUEM É O MELHOR NO USO DA ESPADA?

Quem é o melhor no uso da espada? - peruntou o guerreiro.
Vá até o campo, próximo ao mosteiro. ali existe uma rocha. Insulte-a. - disse o mestre.
Mas por que devo fazer isto? A rocha jamais me responderá de volta!
então ataque-a com a sua espada!
Minha espada se quebrará! E, se eu atacá-la com minhas mãos, ferirei meus dedos sem conseguir nada.
Você já sabe a resposta para a sua pergunta. - disse o mestre.
como assim? - perguntou o guerreiro.
O melhor de todos, no uso da espada, é o que se parece com a rocha. Sem desembainhar a lâmina, consegue mostrar que ninguém poderá vencê-lo.

O texto acima foi tirado da Revista Grande Sinal de 2012 - 1.
Quem dera nossa fé e nossa vida tivesse a determinação, a paciência, a persistência e a firmesa desta rocha.
Mas em nossas fragilidades vivemos a procurar sinais, milagres, manifestações de poder  ou extases misticos que nada tem que ver com a docura suave do reconhecimento de Sua prresença em nosso meio, em nossos convivios. abramos nossos olhos e corações.....

PARA QUE O MUNDO SEJA DIGNO DOS HOMENS E DE DEUS

O TEXTO ABAIXO FOI TIRADO DA REWVISTA GRANDE SINAL - REVISTA DE ESPIRITUALIDADE - 2012 / 1
A morte já foi derrotada aqui e agora.
O céu não é lá em cima, mas aqui.
O além não está por detrás das nuvens, mas no interior.
O além é dentro, no interior, como o céu é aqui, agora.
É hoje que a vida deve se eternizar, é hoje que somos chamados a vencer a morte, a nos tornar fonte e origem, a recolher a história para que ela faça a partir de nós uma nova parrtida.
Hoje temos que dar a toda a realidade uma dimensão humana para que a terra sseja habitável, digna de todos e digna de Deus.
Maurice Zundel (1987-1975)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

PENTECOSTES - uma leitura interessante

CEBI

PENTECOSTES: Como minha avó a soprar brasas - Edmilson Schinelo

Terça-feira, 22 de maio de 2012 - 14h57min
O que o grupo seguidor de Jesus estava celebrando?
Pentecostes, em Israel, era a festa que marcava o final da colheita dos cereais. Era uma festa agrária, na qual se louvava a Deus pelos primeiros frutos da terra em cada ano. O povo judeu a chamava e ainda a chama de Shavuot, Festa das Semanas, por ser celebrada no primeiro dia, depois de transcorridas sete semanas desde a Páscoa. Por isso o nome grego Pentecostes - qüinquagésimo dia (Dt 16,9-10). Mais tarde, as comunidades judaicas associaram a festa agrária com uma data também histórica, recordando, nesse dia, a entrega das tábuas do Decálogo no Monte Sinai (Ex 19-20).
Como o texto de At 2 foi escrito pelo menos 50 anos depois, já houve tempo para que as comunidades e o redator final elaborassem uma narrativa muito mais cheia de sentido simbólico, que nos ajuda ainda hoje em nossa leitura e em nossa caminhada de fé. Anunciando a chegada do Espírito Santo na festa da antiga lei, estão a nos dizer que a nova aliança é agora selada com o próprio sopro divino.
(O pentecostes, disponível em www.jesusmafa.com)
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Sobre quem pousa o Espírito Santo?
Há várias maneiras de se ler o texto de At 2. Bastante comum entre nós é um tipo de leitura que quase dispensa o próprio texto bíblico. Trata-se da leitura feita a partir dos quadros artísticos, nos quais vemos línguas de fogo pousando sobre o grupo dos Doze, quase sempre tendo Maria ao centro, fechados em uma sala bastante luxuosa. Por mais que respeitemos essa leitura, é importante que digamos que a mesma não corresponde à narrativa bíblica: "tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar (At 2,1).
"Todos quem?", devemos nos perguntar. Pouco antes, podemos ler que "o número das pessoas reunidas era de mais ou menos cento e vinte" (At 1,15). Tendo em vista que não houve nenhuma indicação de mudança de grupo, é evidente que o "todos" do texto imediatamente seguinte refere-se a esse grupo de cento e vinte pessoas. Ou seja, o Espírito Santo é derramado sobre todas as pessoas da Igreja nascente (o número é rico em simbologia) e não apenas sobre algumas de suas lideranças. Não é por acaso que o relato evoca as palavras do profeta Joel: "Derramarei o meu espírito sobre todas as pessoas (literalmente: sobre toda carne), vossos filhos e vossas filhas profetizarão" (Jl 3,1; At 2,17). Esta lembrança é de importância fundamental, pois significa a reafirmação de um princípio óbvio de nossa fé: ninguém pode se apossar do Espírito Santo.
Um espírito que se manifesta na casa e não no templo!
Outro aspecto a ser observado tem a ver com o local da manifestação do Espírito divino. O texto inicia dizendo que "estavam todos reunidos no mesmo lugar". Que lugar seria esse? O texto grego fala de "mesmo lugar". Traduções mais antigas gostavam de usar a palavra "cenáculo", que literalmente significa "o lugar onde a gente janta", faz a ceia - a cena. Traduziam assim provavelmente por dedução a partir do último lugar especificamente citado: a "sala superior" para onde o grupo havia voltado e onde costumava ficar (At 1,13). Logo em seguida, entretanto, fala-se da reunião dos "quase cento e vinte irmãos", na qual se procede à escolha de Matias no lugar de Judas Iscariotes (At 1,15-26). E do ruído, que, como o agitar do vento, enche toda a casa onde se encontravam (At 2,2).
Muita gente quis interpretar que se tratava de um lugar muito grande para reunir tanta gente. O mais importante, porém, não é discutir o tamanho do lugar, visto que a cultura judaica chama de casa o espaço do clã (como em culturas africanas e indígenas, a casa verdadeira é a sombra das árvores, o quintal, onde a vida acontece). O que precisamos considerar é que, por mais que o Livro dos Atos valorize o templo (cf. At 2,46), é no espaço da casa que o Espírito se manifesta. A casa é o espaço aberto, enquanto o templo se fechava às mulheres, aos estrangeiros, aos "impuros". A casa é o lugar da acolhida e, ao mesmo tempo, da partilha: o lugar da ceia comum (Lc 24,13-35). Assim como o pão se reparte, também o Espírito se reparte a todas as pessoas da casa. E se no templo, apenas os homens querem ter poder, na casa, é comum que este poder se exerça de forma também mais partilhada. Como podemos ler, ali "todos eles se reuniam sempre em oração, com as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos dele" (At 1,14).
Como minha avó a soprar as brasas
Muitas imagens são evocadas no texto, a maioria delas buscada no Primeiro Testamento. Além da casa e do número 12 X 10, é expressiva a imagem do vento, das línguas e do fogo.
O vento lembra o sopro de Deus que abriu o Mar (Ex 14,21). As línguas lembram Babel (Gn 11,1-9), onde Deus também prefere a diversidade das línguas. Também agora, cada pessoa ouve as maravilhas de Deus na sua própria língua (At 2,11). O fogo lembra a sarça ardente (Ex 3,1-10), lembra a coluna de nuvem (Ex 13,21). E toda a cena lembra especialmente a conclusão da Aliança no Sinai (Ex 19,16-19).
Mas o vento e o fogo também lembram minha avó, enchendo suas simpáticas bochechas para acender fogo na fornalha ou no fogão de lenha, tarefa que exigia cuidado e, ao mesmo, tempo expressa exercício de poder. Essa é a imagem que faço de Pentecostes: a divindade, com suas grandes bochechas, a soprar em nossas brasas, quando querem se apagar. Às vezes, uma brisa leve (a Ruah divina) é suficiente para que nossas brasas se acendam. Outras vezes, faz-se necessário um sopro bem mais forte, ventania até, para que sejamos sacudidas e sacudidos em nossa inércia!
Que neste Pentecostes, possam as bochechas divinas nos despertar de nossa acomodação, especialmente aquela que nos deixa inertes em nossos templos, em nossos cultos e nossas missas! Que possamos louvar o Espírito lá onde ele se manifestou primeiro, no cotidiano das pessoas, em suas próprias casas. Mas especialmente na vida das pessoas empobrecidas cujo espaço muitas vezes nem mesmo podemos chamar de casas. Pois é para isso que o mesmo Espírito de Pentecostes nos conclama: "O Espírito do Senhor está sobre mim, ele me ungiu para levar uma notícia alegre aos pobres" (Is 61,1; Lc 4,18).
Edmilson Schinelo (schinelo@terra.com.br)


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O autor é organziador do livro Bíblia e Negritude - Pistas para uma leitura afro-descendente e colaborador em outras publicações.
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
www.cebi.org.br 

sábado, 19 de maio de 2012

Homilia de 20 de maio


 Textos inspiradores: Atos 1: 15-26; I João 5: 9-15; João 17: 11b - 19
Irmãos e irmãs,
Queridos e queridas de Deus
Temos refletido sobre a páscoa de Jesus e sua ressurreição. Estamos hoje num dia santo onde somos chamados a mergulhar na assunção de Nosso Senhor, que foi comemorada nesta semana.
A carta dos Atos dos Apóstolos é dirigida a Teófilo, que quer dizer amigo de Deus. Dirige-se, portanto, a todos nós. A primeira epístola de João nos fala do testemunho de Deus, expresso em Jesus Cristo, em sua vida, seus atos humanos e concretos. É Ele o modelo no qual devemos nos pautar para o nosso viver. Nosso olhar e nosso viver deve se voltar a ele não de forma devocional que o guarde num céu fictício, mas de contato e experiencia – concreta e real – que nos comprometa com a vida de todos e , em especial, com a comunidade – espaço privilegiado para o estudo, a reflexão da Bíblia e da vida – e de envio para o mundo dos que testemunham o Amor do Senhor.
O esquema de João – também em seu
Evangelho explicita que o Verbo ( e todo verbo indica ação e movimento...) se fez carne em Jesus, e este nos amou com uma amor que implicou em doação de sua vida até a morte e morte de cruz, para que pudêssemos conhecer a Deus, experimentar Seu Amor. Neste pensar conhecer a Deus, implica intimidade e convívio, já que conhecer alguém requer tempo, além de uma contínua conversão de nossas atitudes para que o convívio entre nós seja pautado pelo amor, pelo cuidado e pelo carinho, pelo partilhar do pão, da vida, dos bens, e esta, meus irmãos a real e única possibilidade de testemunharmos o Amor de deus em nós e através de nós. As primeiras comunidades cristãs, assim como nós, tinham problemas e dificuldades mas buscavam viver este sólido amor e testemunho, incluindo um caixa em comum e um cuidado mútuo.
A glória de Deus, conforme expressa nos versículos 22 e 23, expressa que sua verdadeira presença se dá com o amor e unidade em nossa comunidade, em nossa igreja e de todos os cristãos. Uma unidade que não seja vazia, falsa, hipócrita ou estéril, mas fundada no serviço misericordioso e compassivo – manifestação visível do amor – a todos os que sofrem. A divisão é testemunho diabólico e motivo de escandalo parao mundo. Lembramos que a palavra dibólico etimologicamente quer dizer algo que divide enquanto que o que unifica é simbólico. Nossa unidade é, portanto simbolo e sinal de Sua presença neste mundo agitado, volátil, passageiro e instável.
O Evangelho de hoje explicita que não somos nem podemos ser do mundo, o que significa que não podemos viver de acordo com seus valores e princípios: egoísmo, prazer, poder, status, conforto, estética etc...
Diferenças entre nós sempre haverão e é sinal que somos diferentes e podemos, graças a Deus, ensinarmos uns aos outros e crescermos no amor de Deus e na vida fraterna. Devemos, entretanto, trabalharmos os conflitos e desafios sempre com misericórdia e, se possível, doçura e paciência, para podermos saborear – saborear mesmo, sentir o gosto – da presença do Senhor em nosso meio.
Na semana da ascensão do Senhor temos a certeza que devemos aprofundar e mergulhar no convívio com ele, e que somos chamados a pregar por toda parte, dando sinais que confirmam sua palavra,
sua vida, sua ressurreição e sua permanência no meio de nós.
Pregando sempre, falando quando necessário.
Que nosso coração seja e permaneça aberto por Seu amor, e que tenhamos a Graça de sentir Sua doçura,Sua Presença e de sua Palavra no meio de nós de uma forma muito concreta e contagiante.
Que Deus ilumine nossas mentes e nossos olhares, Sua proteção e seu perdão nos acolha sempre e a alegria do Evangelho resplandeça sobre todos e todas na terra.
Assim seja.

EVANGELHO ainda uma novidade nescessária


Há quem veja o óbvio apenas agora! Mas, pior do que isto, é que as nossas igrrejas ainda não viram o óbvio, as pequenas comun idades que refletem o evangelho e vivem o amor ao próximo, em especial aos mais fracos e esquecidos, a partir de uma reflexão madura, concreta e realista do Evangelho- que , na prática não temos...

Só a experiência direta e imediata do Evangelho pode revitalizar a Igreja - José Pagola

Sexta-feira, 18 de maio de 2012 - 10h47min
por Instituto Humanitas Unisinos (IHU)
A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 16, 15-20 que corresponde ao Domingo da Ascenção do Senhor, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto
NOVO COMEÇO
Os evangelistas descrevem com diferentes linguagens a missão que Jesus confia aos seus seguidores. De acordo com Mateus, hão de "fazer discípulos" que aprendam a viver como Ele os ensinou. De acordo com Lucas, hão de ser "testemunhas" do que viveram junto Dele. Marcos resume tudo dizendo que hão de "proclamar o Evangelho a toda a criação".
Quem se aproxima hoje de uma comunidade cristã não se encontra diretamente com o Evangelho. O que se percebe é o funcionamento de uma religião envelhecida, com graves sinais de crise. Não podem identificar com clareza no interior dessa religião a Boa Nova proveniente do impacto provocado por Jesus há vinte séculos.
Por outro lado, muitos cristãos não conhecem diretamente o Evangelho. Tudo o que sabem de Jesus e da sua mensagem é o que podem reconstruir de forma parcial e fragmentária escutando catequistas e pregadores. Vivem a sua religião privados do contato pessoal com o Evangelho.
Como poderão proclamá-lo se não o conhecem nas suas próprias comunidades? O Concílio Vaticano II recordou algo demasiado esquecido nestes momentos: "O Evangelho é, em todos os tempos, o princípio de toda a sua vida para a Igreja". Chegou o momento de entender e configurar a comunidade cristã como um lugar onde o principal é acolher o Evangelho de Jesus.
Nada pode regenerar o tecido em crise das nossas comunidades como a força do Evangelho. Só a experiência direta e imediata do Evangelho pode revitalizar a Igreja. Dentro de alguns anos, quando a crise nos obrigue a centrar-nos apenas no essencial, veremos com clareza que nada é mais importante hoje para os cristãos do que nos reunir para ler, escutar e partilhar juntos os relatos evangélicos.
O principal é acreditar na força regeneradora do Evangelho. Os relatos evangélicos ensinam a viver a fé, não por obrigação mas por atração. Fazem viver a vida cristã, não como dever mas como irradiação e contágio. É possível introduzir já nas paróquias uma dinâmica nova. Reunidos em pequenos grupos, em contato com o Evangelho, iremos recuperar a nossa verdadeira identidade de seguidores de Jesus.
Temos de voltar ao Evangelho como novo começo. Já não serve qualquer programa ou estratégia pastoral. Dentro de uns anos, escutar juntos o Evangelho de Jesus não será uma atividade a mais entre outras, mas a matriz desde a qual começará a regeneração da fé cristã nas pequenas comunidades dispersas no meio de uma sociedade secularizada.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

militantes incinerados - para os saudosos do inferno!


Novo post em Hannah Arendt - Brasil

E ainda há quem tenha saudades da ditadura!!!!!!!!

Mais sobre: “Militantes incinerados em usina de açúcar”

by Grupo Hannah Arendt - Brasil
por Rodrigo Vianna | Blog Escrivinhador 
O Brasil inteiro ficou chocado quando a polícia revelou que os bandidos responsáveis pela morte do jornalista Tim Lopes usavam um “micro-ondas” feito de pneus, para queimar os restos mortais de suas vítimas.
Outro caso terrível: o corpo de Eliza Samudio, namorada do ex-goleiro Bruno, teria sido lançado aos cães e devorado.
Assim agem os bandidos. Sem o corpo, fica mais difícil gerar acusação e condenação por homicídio.
Mas e o que dirão os brasileiros ao saber que a prática era adotada por “agentes da lei”? Agora, não se trata de denúncia de famílias ou de órgaos de defesa dos Direitos Humanos. Não. Trata-se de uma confissão, de um agente qualificado, que tomou parte diretamente nos desaparecimentos.
Em “Memórias de uma Guerra Suja”, livro que acaba de ser editado, o ex-delegado Cláudio Guerra conta que, nos anos 70, os corpos de vários militantes de esquerda foram incinerados numa usina de açúcar no norte do Estado do Rio. As informações foram publicadas pelo jornalista Tales Faria, no IG. Ele teve acesso aos originais do livro, que será lançado na sexta-feira.
O curioso: o nome de Guerra nunca havia aparecido nas listas de torturadores mais conhecidos. Conversei há pouco com um pesquisador (e militante político) que conhece bem essas histórias. Ele disse que considera as informações de Guerra “muito consistentes, coerentes, não parece o depoimento de alguém que quer aparecer, mas de um homem que conhece profundamente a engrenagem da repressão”.
Em suma, o livro é “uma bomba”. Talvez, o mais importante documento sobre as execuções e os desaparecimentos ocorridos durante a ditadura. Tudo precisa ser apurado, checado. Mas Guerra fornece um roteiro completo sobre a barbárie praticada em nome do Estado e do regime militar.
Esses são os militantes de esquerda que, segundo o depoimento de Guerra reproduzido por Tales Faria no IG, tiveram os corpos incinerados na usina de Campos (RJ):
João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury;
Ana Rosa Kucinsk e Wilson Silva, “a mulher apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente, e o jovem não tinha as unhas da mão direita”;
David Capistrano (“lhe haviam arrancado a mão direita”) , João Massena MelloJosé Roman eLuiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB;
Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).
Guerra assume que foi dele a idéia de usar o forno da usina – pertencente a um vice-governador do Rio, anticomunista ferrenho – para queimar os corpos. E fala de outras execuções, tiros de misericórdia, torturas chocantes…
Guerra também diz que o delegado Fleury – torturador conhecido, oficialmente morto num acidente de barco já na época da “Abertura”- foi executado por decisão da chamada “Comunidade de Informações”. Conta detalhes da reunião em que se decidiu a morte de Fleury (claramente, uma “queima de arquivo” – como sempre se suspeitou) e diz quem estava presente ao encontro.
O depoimento é terrível, mas fundamental para contar a História da ditadura e de seus crimes. O ex-delegado Guerra está sob proteção da Polícia Federal, mas poderia prestar esclarecimentos à Comissão da Verdade que Dilma promete instalar.
O Brasil está diante de crimes bárbaros, inomináveis, praticados por gente que agia sob o comando do Estado. Crimes narrados em detalhe.
Alguém ainda acha que instalar a Comissão é “revanchismo”? Ou um “exagero”?

domingo, 6 de maio de 2012

Espírito Santo

Pequena reflexão sobre o Sagrado Espírito e sua manifestação.
Precisamos ser e não ter. Não podemos nos definir pelas posses, pelo reino da utilidade (inútil para nossa felicidade!), mas pelo ser! Todos concordamos com esta frase, mais uma que foi alçada à unanimidade. Ouvida por mim inúmeras e inúmeras vezes. Mais um chavão, uma frase de efeito e bonita que parece dizer muito, mas normalmente nada ou muito pouco significa de concreto, de real, de compromisso com o outro, com nossa vida real.
Este homem em busca do ser ou de ser acabou por perder significado ou mesmo em apontar para uma espiritualidade abstrata que chega a desprezar a história, a matéria, a corporalidade, o encontro com o outro como o espaço privilegiado da Revelação.
Somos feito a imagem de deus, pois é nesta imagem que O revelamos. Somos seres de encontro, de relação. Toda nossa formação humana – ética, pessoal, afetiva, profissional – depende de nossas relações, como somos vistos, olhados, amados, tocados. Hoje, porém, nos encontramos principalmente movidos por interesses – econômicos, sexuais, de prazer banal e passageiro, do encontro no desencontro fragmentado de papéis sociais ou do imperativo estético. Este prazer é fugidio, instantâneo e deve ser seguido por outro e outro e mais outro, sugar seu tempo, seu bolso, tua mente, sua vida. De necessidade em necessidade, de desejo em desejo vamos nos esvaziando, tornando-se o nada, caminho seguro para a depressão, para a dor, para o sofrimento.
Ocorre, porém, meu irmão e minha irmã, que tua vida, teu corpo, teu olhar é e deve de fato manifestar-se como um culto, uma celebração festiva e alegre que se realiza na gratuidade do sacrifício, da entrega.
Michel Amaladoss, no livro Rumo à Plenitude, diz:
Mas uma vez que o individuo se decide a fazer o bem, sua ação é originada e enriquecida pelo poder divino, de forma que a plenitude de vida a lhe fluir não é sua, mas de Deus. Santo Inácio de Loyola tem uma máxima que bem ilustra o mistério. Ele diz “faça todas as coisas como se dependessem de Deus e ore como se isso dependesse de você”. Poder-se-ia esperar justamente o contrário dessa frase, ou seja, “faça todas as coisas como se dependessem de você e ore como se isso dependesse de Deus”. Mas Inácio tem uma concepção interessante. Devemos fazer tudo como se não estivéssemos nós mesmos agindo, mas Deus agindo em nós. Por isso, devemos estar abertos e disponíveis a Deus. Mas devemos orar como se tudo dependesse de nós. Conhecendo quanto somos fracos, procuraremos nos entregar a Ele. O resultado de ambas as ações é mostrar a prioridade da ação divina, mesmo quando colaboramos livremente.
Devemos deixar que Deus dirija nosso olhar, nossos passos, nossas vidas. Os méritos não são nossos, devemos reconhecer nossa pequenez, nossa fragilidade, a morte que pode nos alcançar a qualquer tempo. É Deus quem age. Apenas ele possibilita, pela graça, que permanecemos fiéis a Ele, a Seu serviço. Mas devemos orar para que ele nos de força de, a cada dia e pela eternidade, ter força de nos reformar para em tudo e em todos os encontros revelar o Senhor da Vida. Precisamos orar, precisamos do silencio para nos capacitar a sentir Seu Sopro, Seu Espírito, Sua Voz. Precisamos estar aberto ao silencio e ao outro para ouvirmos Suas instruções, seus caminhos. E, sempre e sempre, nos entregarmos – capitularmos mesmo – em seus amorosos braços.
Outro dia ouvi uma música, inclusive bonita e tocante, que dizia que o Espírito reside no ouvinte. Discordei e sigo discordando. Jesus fala que o Espírito acontece e vem quando temos duas ou mais pessoas em Seu nome - na Presença Dele, em sua experiência – reunidos. Podemos, sim, ouvir Sua voz, mas certificados, mergulhados, vivificados pela e na comunidade. É no espaço e no encontro de amor que Ele se expressa e manifesta, portanto o outro é o veículo privilegiado para Seu encontro. Não sou dono dele, longe de ser tão santo, de ser tão digno, tão prepotente, tão grande. Preciso da comunidade para me fazer entrega me fazer amor, para sentir e viver em Sua Presença – inclusive Eucarística e de partilha. Preciso também da comunidade para ser lapidado, cortado, corrigido, interrogado, aperfeiçoado. Sem comunidade não há cristão, e, mais do que isto, não existe espírito santo manifesto. A Bíblia, vejam bem, assim o diz.
Precisamos afetivamente, socialmente e profissionalmente do outro, inclusive para nos desenvolvermos em nossa humanidade amorosa que caminha inexoravelmente para a entrega absoluta – a morte.
Precisamos ainda mais do outro e da comunidade para que Deus se revele, para ouvirmos Sua voz e na resposta orante respondermos seu sopro suave e doce com a pequenez de nossa vida. Mesmo um monge eremita precisa do silencio acolhedor do olhar dos monges de sua comunidade orante, dos momentos de oração coletiva.
Creio que é por isso que Jesus fala de seu seguimento como entrega de tudo, de sua própria vida – e Ele mesmo o fez – para a salvação. Nesta entrega, nestes encontros verdadeiramente salvífico e definitivos, percebemos Sua presença, mergulhemos em seu Amor e, quem sabe, soltemos centelhas que possam contagiar, tocar, abraçar, cariciar um coração e também o enfeitiçar. Feitiço de amor.
Que me fez ser seu.
Amém.