APRESENTAÇÃO

Textos e silêncios pretende ser um espaço reflexivo ecumênico, fundamentalmente voltado para a vida concreta das pessoas a partir de textos e livros, mas também do caminhar contemplativo e meditativo, da vivência amorosa e solidária dos que, de alguma forma, partilharam comigo suas vidas, dores, sofrimentos e esperanças. A eles - e a vocês - devo a minha vida, o olhar que desenvolvi de existência e a experiência cristã do encontro com o Cristo servidor que nos salva. A eles sou devedor, minha eterna gratidão.

sábado, 14 de abril de 2012

Consumindo_nos!

Em qual templo servimos? A qual
Deus servimos? Qual o nosso coração?

Consumir faz mal à sua saúde... e à do planeta - Esther Vivas

Sexta-feira, 23 de dezembro de 2011 - 16h14min
por Adital

"A mulher, desesperada em obter as melhores ofertas na loja Wal-Mart, jogou spray de pimenta nas pessoas que esperavam, com a intenção de afastá-las da mercadoria que ela queria". Essa poderia ser uma cena de um filme de Pedro Almodóvar, se não fizesse parte da realidade, e tal relato foi publicado no jornal Los Angeles Times, edição de 25/11/2011.
Diante disso, poderíamos sugerir que na frente de grandes centros comerciais, e mais ainda nas épocas de descontos, fossem colocados grandes painéis advertindo "consumir prejudica gravemente sua saúde", no mais puro estilo das autoridades sanitárias, pois o consumismo irracional, supérfluo e desnecessário, promovido pelo sistema capitalista, não somente pode afetar de maneira inesperada e contundente nossa saúde via "ataque de spray pimenta", mas, sobretudo, pode afetar a "saúde" do planeta.
Um exemplo: se todo mundo consumisse como um estadunidense médio consome seriam necessários 5 planetas Terra para atender à nossa voracidade. Porém, o planeta Terra é só um... Nos acostumamos a viver sem levar em consideração que habitamos um mundo finito e o capitalismo encarregou-se muito bem disso. Progresso é associado a sociedade de consumo; porém, teríamos que perguntar: progresso para quê e para quem e à custa do que e de quem.
Os cantos de sereia da modernidade nos dizem que consumir nos tornará mais felizes; porém, tal felicidade nunca chega por mais que compremos. "Afoga tuas penas com uma boa compra" parece o slogan do capitalismo de hoje; porém, nossa insatisfação nunca é satisfeita. A felicidade não chega por conta do talão de cheques.
Nos dizem que compremos óculos Channel, um ursinho Tous ou calças compridas Mango para sentir-nos Claudia Schiffer, Jennifer López ou Gerard Piqué. A época de vender um produto passou para a história. Agora, como ensinam as boas escolas de marketing, nos vendem o famoso de turno junto à promessa de "saúde, dinheiro, amor". E nós, encantados, pagamos o preço de nossos sonhos.
Nos vendem o anedótico como imprescindível e o banal como necessário e criam em nós uma serie de necessidades artificiais. Trocar o guarda-roupa a cada temporada, um automóvel de última geração, uma televisão de plasma etc. etc. Com o monte de resíduos tecnológicos, de vestir, eletrônicos... que descartamos e que passam a engrossar as pilhas de lixo nos países do Sul, contaminando as águas, a terra, e ameaçando a saúde de suas comunidades.
Ou o sistema contra-ataca com sua obsolescência programada..., planejando a data de caducidade de tudo aquilo que compramos para que ao cabo de um tempo X se estrague e tenhas que adquirir um novo. Para que uma lâmpada que nunca se apaga, umas meias sem fio puxado ou uma máquina que não funciona? Mal negócio. Aqui, só ganha quem vende.
Talvez seja hora de propormos que podemos "viver melhor com menos". E ser conscientes de como nos querem tornar cúmplices de um sistema que nos impuseram e que somente beneficia aos mesmos de sempre. Nos dizem que existe sociedade de consumo porque queremos consumir; porém, além de nossa responsabilidade individual, que eu saiba, ninguém escolheu essa sociedade onde temos que viver, ou pelo menos ninguém me perguntou se estou de acordo. Desde que nascemos até a terceira idade nos bombardeiam com o "comprar, comprar, comprar". Agora nos dizem que sairemos dessa crise "consumindo". Eu me pergunto se "consumindo" ou "consumindo-nos".

Belo Monte - ofensa aos homens e a Deus.

 Cabe a nmós, cristãos, refletirmos sobre nossos atos e omissões. Aviolência segue acontecendo aos nossos olhos, à nossa frente, aos nossos pés e insistimos em não ver e em não fazer nada. até que chegue a nossos corações, nossos filhos, nossa vida. Até quando Senhor? Até quando levaremos uma vida idólatra, escravos que somos do consumismo, da estética, do conforto e dos bens que exigemum consumo sempre maior de insumos naturais, da eletricidade, da poluição, de gerarmos morte por onde andarmos? Até quando permitiras nossa cegueira e nossa mudez, enquanto tantos e tantas passam fome - de pão, de comida, de justiça, de valores, de testemunhos verdadeiramente cristãos? Acorda nossa alma, sacode nosso corpo, estremeçe nossas vidas mesmo à custa de sofrimento e angústias pois a vida clama por Ti.

O povo "à jusante" de Belo Monte - Dom Erwin Kräutler

Sexta-feira, 13 de abril de 2012 - 19h03min
Há doze dias vivo a bordo do barco "Teresinha". Estou visitando as comunidades do interior de Porto de Moz. Não há telefone e muito menos existe acesso à Internet. Faz um bem enorme ficar de vez em quando sem essas comodidades. Tem-se a impressão de estar em outro planeta. Mas as pessoas queridas que encontro ao longo da viagem e que há décadas conheço e amo são a prova de que continuo no mesmo planeta Terra e na "minha terra" que é o Xingu. A primeira vez que singrei as águas dos rios, furos e lagos de Porto de Moz foi em janeiro de 1968. Lembro os antepassados do povo que agora me abraça. Revejo em muitos rostos os traços de seus avós. Antigamente as famílias vieram a remo. Hoje um motor "rabeta" diminui mais o tempo da viagem. Mesmo assim têm que enfrentar, às vezes por horas, um sol escaldante ou chuvas torrenciais.
O encontro com o bispo segue sempre o mesmo esquema. Começa com abraços, cantos, poesias, salva de palmas. Um ambiente festivo e descontraído, sem formalidades, etiquetas e protocolos. Sinto-me em casa. "Vós todos sois irmãos" (Mt 23,8). Também o bispo é irmão! É nestas ocasiões que mais me realizo como pastor, no meio dessa gente que amo e que - eu sei disso - também me ama. Todo mundo se conhece. Essa é uma das mais belas características das Comunidades Eclesiais de Base. Não há estranhos.
Faço questão de primeiro ouvir o povo, escutar a sua história, ser informado a respeito de suas esperanças e angústias, avanços e derrotas. São coisas alegres, estórias pitorescas, "causos" que partilham comigo, mas também assuntos tristes, experiências dolorosas. Sempre me admiro que esse povo, apesar de viver uma vida dura e penosa, nunca perdeu a alegria. Sabe sorrir! Aliás, que sorriso límpido, espontâneo, cativante! Nada postiço, só para agradar o bispo.
Falam do salão comunitário que conseguiram construir, da capela que pintaram, das reuniões semanais, do culto dominical e da novena que não deixaram de celebrar. Revelam também problemas familiares. Alguém denuncia a invasão de geleiras para roubar o peixe, até na época da piracema. "Vem com malhadeiras de malha tão fina que nem alma passa". Outro relata com orgulho experiências que fazem com as Reservas Extrativistas comunitárias, mas reclama do IBAMA que cai em cima deles por causa de uma tartaruga que pegam, enquanto faz vistas grossas diante das geleiras, do escandaloso roubo de madeira, de desmatamentos e outras agressões ao meio-ambiente, como por exemplo Belo Monte. "Aí dá até todas as licenças para acabar com o nosso Xingu".
Passo, em seguida, do papel de ouvinte para entrevistado. Jovens e adultos me bombardeiam com perguntas de todo tipo. Assuntos internos da comunidade, do setor, da paróquia, mas também da "conjuntura" econômica e política. Em todas as comunidades, a pergunta principal é sobre Belo Monte. Querem saber detalhes, já que o bispo vem de Altamira, do centro do monstruoso projeto.
"Bispo, será que ainda tem jeito de impedir essa desgraça? Ouvimos falar que estão tocando Belo Monte a todo vapor. Dizem que o governo já gastou muito dinheiro e assim certamente não dá mais para parar a obra. Que o Sr. acha?"
O que realmente devo responder a esse povo? Decido "abrir o verbo", sem meias-palavras:
"Verdade é que um rolo compressor está passando por cima de todos nós. A promessa que Lula pessoalmente me deu no dia 22 de julho de 2009, segurando-me no braço e afirmando "Não vou empurrar este projeto goela abaixo de quem quer que seja" foi pura mentira. Falou assim para "acalmar" o bispo e livrar-se deste incômodo religioso que recebeu em audiência. O governo empurra sim Belo Monte goela abaixo! E Altamira virou um caos em todos os sentidos. Nada do prometido saneamento básico, uma das condicionantes do IBAMA para dar licença para iniciar a obra! Não tem leito nos hospitais, não há vaga nas escolas, homicídios na ordem do dia, prostituição a céu aberto no centro da cidade. Os aluguéis de uma casa simples pularam de 300 para 2.000 Reais. Os preços de alimentos triplicaram. O transito é uma calamidade. Acidentes a toda hora".
"O que mais vou dizer a vocês? Fui várias vezes "ver" o canteiro de obras, quer dizer, queria ver, porque não me deixaram entrar, mas vi de longe os estragos já irrecuperáveis. Rezei missa com as comunidades ameaçadas de despejo. Os grandes fazendeiros receberam indenizações, mas o coitado do pequeno produtor e agricultor não sabe o que vai ser dele e de sua família. Arrasaram com uma vila inteira: Santo Antônio. O pessoal da Norte Energia é para lá de arrogante. Se o colono não desocupa o seu sitio, a Justiça dá ordem de despejo e manda a polícia em cima do pobre, pois a Norte Energia considera toda a região propriedade sua e os moradores, que lá vivem desde os tempos do bisavô, invasores."
"E para onde vai toda essa gente?"
"Pois também eu quero saber. Prometem solução, mas nunca dizem que tipo de solução, onde, quando, de que jeito."
"E o povo de Altamira?"
"Muita gente está com o coração despedaçado. Até comerciantes e empresários que antes colaram em seus carros adesivos "Queremos Belo Monte" andam hoje cabisbaixos. Quem pode contra a fúria da "Norte Energia"? Aliás "Norte Energia" é o próprio Governo, antes Lula, agora Dilma. Nunca houve diálogo com o povo daqui, nem com índios, nem com ribeirinhos, nem com o povo da cidade. O governo traiu o povo que o elegeu e ri-se de quem defende os índios, os ribeirinhos, os pobres atingidos pela barragem. Fala de preço a ser pago pelo progresso. Só que esse preço sacrifica o nosso povo e não as famílias de políticos em Brasília. Um terço de Altamira vai para o fundo e o resto vai ficar à margem de um lago podre, criador de carapanã e causador de dengue e malária".
"E os índios? É verdade que estão a favor da barragem?"
"Não digo que estão a favor da barragem, estão a favor dos presentes que recebem. Muitos deles que antes viviam abandonados pelo governo e entregues à própria sorte, hoje têm todas as contas pagas no comércio, recebem cestas básicas e combustível e outros benefícios. O governo que negou aos índios se manifestarem em oitivas previstas em lei, agora se esmera em entupi-los de dinheiro para fechar-lhes a boca. Antigamente enganou-se os índios com espelhos e bugigangas, hoje milhões de reais são injetados nas aldeias para paralisar a luta indígena e cooptar as lideranças. O preço é muito alto. Não se mata mais índio a ferro e fogo. O dinheiro farto é a punhalada traiçoeira no coração das culturas indígenas e de sua organização comunitária. E o governo afirma em alto e bom som que nenhuma aldeia será alagada. Aldeia não será alagada, sim! O que a Norte Energia faz, é cortar a água aos índios e ribeirinhos da Grande Volta do Xingu. E o povo da Volta Grande vive e sobrevive da pesca. E tem mais. O que vai acontecer com uma aldeia a poucos quilômetros do canteiro de obras onde trabalham milhares de homens? É muito triste! Dá dó!"
"E nós? Como é que nós vamos ficar, nós que moramos abaixo da futura barragem? Ou, como essa gente de Brasília fala, 'à jusante'?"
"Bem, vocês sabem o que acontece se fazem uma tapagem no igarapé. Acima da tapagem, o que acontece?"
"O igarapé alaga a terra firme!"
"E abaixo da tapagem?"
"Ora, o igarapé seca!"
"Pois é. O Xingu abaixo da barragem vai baixar de nível e os igarapés e afluentes também. Há trechos em que o Amazonas vai entrar no leito do Xingu e nossos peixes que não se dão com a água barrenta do Amazonas vão morrer."
Por um bom tempo o povo ficou apenas me olhando e não me fez mais nenhuma pergunta. Também a conversa já passou da hora. Já é hora de almoço.
A celebração eucarística está programada para as 14 horas. A liturgia está preparada, os cantos escolhidos e as leituras ensaiadas. "Vai ter crisma" avisa-me uma catequista "e a turma precisa ainda se confessar com o bispo". Nada de vexame! Aqui ninguém é escravo do relógio. Terminada a confissão, outra catequista me informa: "As meninas precisam ainda se empiriquitar". Já são lindas por natureza, de traços indígenas ou ascendência negra, mas querem realçar ainda mais sua beleza. Há também senhoras entre as crismandas, com crianças pequenas. Uma me pergunta se pode, mesmo gestante, crismar-se. "Sem dúvida, querida! O Espírito Santo descerá sobre você e a criança debaixo de seu coração!" Apresento os crismandos a toda a comunidade chamando cada um(a) por seu nome: "Senhor, aqui estou!" é a resposta às vezes bem forte, outras vezes um pouco tímida, acanhada. Depois de dois anos de preparação para o sacramento, sabem que a resposta que recorda o que o Profeta Isaias falou quando Deus o chamou: "Eis-me aqui, envia-me" (Is 6,8) significa o compromisso publicamente assumido com a comunidade. No rito da imposição das mãos convido também catequistas e dirigentes para realizar comigo este gesto que remonta ao tempo dos apóstolos quando enviaram discípulos para anunciar e testemunhar o Evangelho (cf. At 13,1-4). Durante a unção com o santo crisma a madrinha ou o padrinho coloca "a mão com que assina o nome" no ombro da afilhada ou do afilhado selando com este gesto uma aliança: "Você pode contar comigo, não apenas hoje, mas pelo resto da vida!". Estou convicto de que muitos padrinhos e madrinhas realmente assumem um compromisso sério e não estão aí como personagens mudas que entram em cena só para figurar. Dou-me conta disso especialmente quando, depois da unção, a crismada ou o crismado pede a bênção de sua madrinha, de seu padrinho. É um momento comovedor. Graças a Deus, o nosso povo não tem vergonha de mostrar suas emoções.
O mais lindo nestas viagens, além do encontro com esse povo bom e simples, é conviver tão de perto com a criação de Deus. Doze dias se foram, desde que partimos de Altamira. A última noite da viagem passamos ancorados na boca do Rio Maxipanã, afluente do Xingu abaixo de Souzel. Chegamos ao entardecer. Cedo atei a minha rede. Noite calma e tranquila, sem carapanã. Acostumei-me a acordar antes do sol raiar e assim desfruto sempre do privilégio de ver o dia nascer.
Como é sublime essa hora matutina. As estrelas deixam de cintilar. As trevas se dissipam. O céu no oriente começa a alvorecer, mas a escuridão ainda predomina. A rubra claridade da aurora enfrenta as trevas. De minuto em minuto a cor purpúrea é mais suavizada com tonalidades acajus e alaranjadas.
O rio ainda dorme. Exala uma bruma esbranquiçada que cobre, como se fosse um véu, a várzea.
Na terra-firme da outra margem guaribas já uivam seu louvor matinal ao Criador. Cada bando tem o seu "capelão". É barbudo. Aqui o chamam de "gorgo". Dizem que as fêmeas permanecem em piedoso silêncio enquanto os gorgos bradam seu salmo milenar. De repente param, como se Deus tivesse lhes passado uma ordem. Silêncio.
Agora se ouve melhor o canto dos pássaros com suas melódicas modulações, umas mais graves e fortes, outras mais contidas e suaves. Chilreiam suas cantigas, também milenares. Um é apelidado de "peito de aço" porque seu assobio é tão forte que assusta a quem estiver por perto. Ouve-se o arrulho esperançoso das rolinhas. Pombinhas selvagens gorjeiam animadas sua saudação ao novo dia. Lá longe uma voz solitária e monótona de uma ave que não sei identificar. Sua cantiga parece com o cuco, aquele pássaro dos Alpes que canta só na primavera. Falam mal dele. Dizem que bota seus ovos em ninho alheio para outra mãe chocar. Não assume a responsabilidade por seus filhotes. Em vez de ficar preso ao ninho, imóvel em cima de ovos, prefere curtir uma vida de vagabundo e voar desimpedido para cantar aqui e acolá.
O sol já alcançou altura, mas ainda é um disco pálido por trás da neblina. Cada vez mais impõe o seu fulgor. Enquanto o primeiro raio não rasgar a cortina, pode-se vê-lo a olho nu. A bruma rapidamente se desvanece e o rio, a selva e os campos à sua margem, respiram o ar límpido de uma manhã ensolarada. O Maxipanã revela agora sua cor clara, contrastando com o verde-esmeralda do Xingu e a floresta ostenta sua fascinante exuberância nas múltiplas matizes de seu verdor.
Que maravilha! "Os céus narram a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos. O dia transmite a mensagem a outro dia, e a noite conta a notícia a outra noite" (Sl 18,2-3).
Pena que os homens não se deixam mais encantar pela obra de Deus. Vedaram seus olhos e taparam o ouvido. Não enxergam mais as flores, nem ouvem mais o canto dos passarinhos. O sol e lua não nascem, nem se deitam mais! É a rotação do planeta Terra, pronto! Contemplar a natureza é perder tempo e dinheiro. Tudo é matéria prima para fazer negócios. Tudo vira mercadoria a ser explorada, ser comprada e vendida, exportada e consumida! Por isso os homens derrubam e queimam a floresta, represam e sacrificam os rios, assassinam os animais da mata, envenenam as plantas e os pássaros.
Os homens perderam o coração. Tornaram-se insensíveis, brutos, cruéis. Decidiram matar a vida.
Boca do Rio Maxipanã, São Pedro, março de 2012
Erwin Kräutler
Bispo do Xingu

Dá-nos, Senhor aquela Paz - Pedro Casaldáliga

Sexta-feira, 13 de abril de 2012 - 20h14min
por Pedro Casaldáliga

Dá-nos, Senhor aquela Paz
inquieta que denuncia
a Paz dos cemitérios e a Paz dos lucros fartos.
Dá-nos a Paz que luta pela Paz! A Paz que nos sacode com a urgência do Reino.
A Paz que nos invade, com o vento do Espírito,
a rotina e o medo, o sossego das praias e a oração
de refúgio.
A Paz das armas rotas na derrota das armas.
A Paz da fome de Justiça,
a paz da Liberdade conquistada,
a Paz que se faz "nossa" sem cercas nem fronteiras,
Que tanto é "Shalom" como "Salam", perdão, retorno, abraço...
Dá-nos a tua Paz, essa Paz marginal que soletra
Em Belém e agoniza na Cruz e triunfa na Páscoa.
Dá-nos, Senhor, aquela Paz inquieta,
que não nos deixa em paz!

sábado, 7 de abril de 2012

Pai, nas tuas mãos entrego o meu espirito


Reflexão apresentada em celebração da Diocese Episcopal Anglicana de São Paulo por ocasião da sexta feira santa.

Queridos irmãos, queridas irmãs,
O Espírito aqui descrito é, em grego, pneuma. Trata-se, portanto, de algo profundamente impregnado e interlaçado na humanidade e na própria corporalidade de Jesus. Espírito que é vento, respiração, força vital e processo dinâmico que molda o interior do ser humano. Jesus, que fora tentado no deserto a mostrar sua face poderosa, acabara de ser novamente tentado por Pilatos e seus soldados a se livrar milagrosamente de forma a demonstrar uma face manifestadamente poderosa. Ocorre que o Deus de Jesus, aquele da cruz, não é manifestado no poder, mas no serviço – como nos lembra a celebração de quinta feira santa – e serviço dos mais humildes escravos, condição e caminho para a felicidade humana.No momento em que a mensagem de Jesus é difundida como vitoria e e conquistas de desejos egoístas, a igreja deve lembrar, relembrar e testemunhar em todas as formas e ocasiões que seu caminho é o da cruz, do serviço radical, caminho de discipulado e de felicidade.  A entrega de Seu Espírito é apenas a última e derradeira entrega de todo o seu Ser ao Pai que lhe ressuscitará.
No momento em que há tantos e tantas esquecidos, oprimidos, sofridos e marginalizados – aqui e por todo o mundo – que carecem de esperanças, significados e condições dignas de vida, possamos também nós entregarmos nosso Espírito – corpos, braços, pernas e sobretudo nosso coração – para levar Sua mensagem e –mais do que isto – sermos, por onde andarmos e olharmos, Evangelho / Boa Notícia.
Nós, como Igreja, comunidade amorosa e humilde seguidores do Cristo Sofredor ressuscitado possamos, nesta Páscoa e pela eternidade testemunhar seu amor, ressurreição e Presença.
Que a graça de Deus nos ampare, guie e encoraje, sempre fiéis a Seu caminho.
Que assim seja, Amem.

SILÊNCIO

Reflexão feita em 2011 pelo querido Frei Vicente, dominicano e exprovicial da ordem no Brasil. Será que não ewstamos precisando resgatar a importância do silêncio e do contempar em nossas vida cotidiana?

O Silêncio na Ordem Dominicana

 

Fazem parte da vida regular todos aqueles elementos que constituem a vida dominicana e a regulam mediante a disciplina comum. Entre eles destacam-se a vida comum, a celebração da liturgia e a oração privada, o cumprimento dos votos, o estudo assíduo da verdade e o ministério apostólico, a cujo fiel cumprimento nos ajudam a clausura, o silêncio, o hábito e as obras de penitência. (LCO 40)
Os irmãos devem diligentemente guardar silêncio, sobretudo nos lugares e tempos destinados à oração e ao estudo; é, com efeito, a defesa de toda a observância e contribui sobremaneira para a vida religiosa interior, para a paz, para a oração, para o estudo da verdade e para a sinceridade da pregação. (LCO 46 § I)

Como podemos observar através destas normas no Livro das Constituições, o silêncio faz parte da nossa vida dominicana. Aliás, o silêncio é ligado com o lema da Ordem “contemplare et contemplata aliis tradere”, contemplar e passe aos outros o que é contemplado. Acreditamos que para chegar a contemplar na oração e no estudo é necessário o silêncio. Só o silêncio cria ambiente para fazer isso. Hoje vivemos numa sociedade barulhenta. Observamos que o ser humano hoje tem dificuldade ficar em silêncio. Chega em casa liga a TV ou procura o facebook para bater papo, entra no carro liga o rádio, vai caminhar liga o fone no ouvido. Parece que tem medo do silêncio. E nós muitas vezes entramos também na mesma onda.

Para nós da Família Dominicana o silêncio é necessário para pregar. São Domingos nos ensina que como preparação para falar de Deus é necessário antes falar com Deus na oração e no estudo em silêncio. O silêncio ajuda a mente refletir e estar sensível á realidade, permitir a mente estar mais calma e concentrada sem stress, conhecer a si mesmo e a Deus, sonhar sobre ideais na vida, descansar a cabeça do barulho cotidiano... Admiro muito leigos e leigas que, de vez em quando, procuram casas de retiros afastados das cidades para descansar e rezar. São lugares, como eles confessam, onde podem encontrar Deus. De fato, o que é o silêncio para mim dominicano? É um tesouro!


sábado, 31 de março de 2012

Homilia de Domingos de Ramos



Marcos 15, 1-39

Minhas irmãs, meus irmãos, Estamos num momento solene e, podemos dizer, de transição entre a Quaresma e a Semana da Páscoa, festa maior do cristianismo, em que a memória de sua morte é feita, assim como de sua ressurreição.
Chegamos ao domingo de Ramos, aquele que nos lembra uma frágil figura montada num burrico que entra na poderosa Jerusalém.
Os textos escolhidos hoje pela igreja nos mostra um jesus entregue pelo Sinédrio a pilatos para ser condenado sob a acusação de ser o Rei dos judeus (e não de Israel), titulo carregado de ironia pois Israel não tinha Rei nem podia tê-lo, mas também para afastar qualquer iniciativa de enfrentamento com o Império Romano e mesmo com o Templo. Interessante notar que também aqui Jesus é tentado, agora pelos poderosos e seu séquito de soldados, a mostrar seu poder através de sinais e a demonstrar a Sua força, a deixar claro que era o Messias esperado.
Ocorre, porém, que o Messias do burrico não quis, nem quer, demonstrar seu poder ,mas seu amor. Um Messias poderoso, por mais justo que fosse, não transformaria a sociedade, as relações sociais, institucionais e pessoais com a profundidade e a radicalidade que Ele nos pede como seus seguidores. O caminho da cruz, em sua época assim como permanece sendo hoje, é o resultado – não querido, mas assumido – esperado por todos os que abraçam o compromisso desafiador do profetismo, compromisso concreto e objetivo com os esquecidos pela sociedade. O Deus de Jesus nos pede que assumamos o serviço a todos, até aos servos e mais humildes. Não nos quer no topo da sociedade, das Igrejas ou como vitoriosos. Nos quer, tenho certeza, preferencialmente assumindo de forma discreta e humilde Seu caminho e sua prática de dar de comer aos famintos, socorrendo aos sofridos, amando a todos e a todas. Que os cristãos, seus ministros e suas Igrejas sirvam e não sejam servidos, amem e não sejam amados.
Jesus quando fala “Deus meu, Deus meu porque me abandonaste”, sente e assume as dores e dramas da humanidade toda, maltratada e injustiçada, sem esperanças e sem sentir Sua presença.
Nesta semana temos a oportunidade de refletir ainda mais sobre os dramas humanos irresolutos para que possamos nos preparar para a quinta feira santa, onde Jesus faz serviço de escravo e do mais baixo escravo e aponta este caminho como o único para a felicidade, e para a alegre ressurreição da Páscoa.
Temos a certeza que Deus ressuscitou a Jesus. Hoje ele nos pede que ressuscitemos a humanidade ferida de morte pelo agir de sua igreja e de seus cristãos a levar a Boa Nova, e a salvação,inclusive corporal, a tantos e tantas que fenecem pelas ruas e becos desta cidade e deste mundo. Sabemos de nossos inúmeros limites, imensas fraquezas e fragilidades pessoais. É real e concreto, palpável! Sabemos, porém, que a Graça misericordiosa nos toca, abraça, acolhe e acalanta de forma a possibilitar que, milagrosamente, possamos fazer seu serviço e manifestar seu amor e sua presença em nosso meio.
Que Deus permita que possamos ser dignos de estar a seu serviço e de poder ver e experimentar deste amor inefável espalhado e transbordando em cada irmão e irmã, em cada casa, em cada olhar, em cada corpo.
Que assim seja. Amém!

sexta-feira, 9 de março de 2012

ORAÇÃO DOLORIDA

Inspirado por Leila, enfermeira que mais que tratar humaniza.
Tu, tu bens sabes
tu apalpas
com a mão, com os olhos, 
com teu próprio corpo.
Que somos frágeis, impermanentes
uma folha de papel
a ser escrita, transcrita, 
com belos sons, cânticos
poesias vivídas, escritas
pelos caminhos, artérias
de nosso coração
com vasos, flores, olhares
mas também com dores, sofrimentos, perdas
vazios
que abrem espaço para o outro
e o divino Outro
que nos revela a entrega e o Amor
de forma surpreendente, no meio do caos
 o divino humanizar-se
 encontrar-se na Revelação do servir
do entregar-se
e, então,
então o milagre se faz
nesta manjedoura real, concreta e frágil
nesta real fragilidade
Deus se manifesta
eternamente, se fazendo Eterna docilidade

Que permaneças tu sendo benção e eternidade aos doloridos que tocas!

sábado, 3 de março de 2012

NÃO ESTENDAS A MÃO CONTRA O MENINO

Gen 22, 1-14    Rom 8, 31-39  Mc 8, 31-38

Os textos de hoje são de uma intensidade e de uma dramaticidade poucas vezes descritas na nossa liturgia.
O texto de Marcos é um trecho central em seu Evangelho e mostra Jesus apontando que seu caminho – e o nosso – passa pela cruz, pelo serviço, pela entrega. No diálogo com Pedro revela seus adversários: os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os fariseus, assim como uma inversão de Sua atividade que, de uma obra misericordiosa e milagrosa se transforma em questionamento mais profundo e radical da forma de viver de seus discípulos. Este olhar é claramente delineado na parte final do texto, assim como nos capítulos 9 a 16, que apontam para o serviço e para a cruz. Pedro e os discípulos esperavam um Messias dravídico, poderoso, nacionalista, que militarmente enfrentasse o Império Romano. Jesus se contrapõe a este, mas o enfrenta a partir de outra ótica, de um poder – serviço aos fracos, aos que sofrem.
A condição de seguimento de Jesus e de salvação da vida passa pela cruz, passa por estar disposta a perder sua vida, a negar a si mesmo. Cuidado, porém. Não se trata de aceitar a humilhação, a exploração, o quietismo, a mansidão imobilizadora, mas viver conforme os designíos de Deus.
O texto de Romanos pergunta: quem nos separará do amor de Cristo? E aponta como os cristãos viviam: na tribulação, na angústia, na perseguição, na fome, na nudez, no perigo, na espada. Como ovelhas destinadas ao matadouro. Mas nada, nada mesmo podem nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Como podemos, entretanto, saber se estamos unidos ao amor de Deus? Tantos e tantas fala às vezes aos gritos, que são cristãos, mas o mundo não O revela. Que tipo de cristianismo professam?
A quaresma nos pede reflexão e conversão.
Genesis fala, sem chance de equívocos, que nosso Deus não quer sacrifícios, mas vida, não quer morte, mas testemunho amoroso.
Deus pede a Abraão a entrega do que lhe é mais valioso, seu filho querido, mas por fim ordena: não estendas a mão contra o menino! Deus segue pedindo para nós que lhe ofereçamos o que mais importante temos. E tenho certeza que isto não se traduz em termos de doação de seu dinheiro, de sua casa, de sua oferta para enriquecimento de pastores ou igrejas. Deus pede tudo, teu coração, tua mente, tuas mãos, teu olhar, tuas pernas. Onde está tua mente, teu dinheiro, teu corpo está tua vida. Quantos passam os dias escravos do luxo, dos bens, da estética, mergulhados no vazio existencial e fadados à depressão?
Mas, como diz Henry Perroy, o padre deve ser um homem devorado! Uma breve observação deve ser aqui feita. Todos, pelo batismo somos chamados a sermos rei, profeta e sacerdote. Somos todos chamados a sermos sacerdotes onde vivemos, enquanto vivermos, pelos caminhos da vida, em todos os nossos encontros, olhares e toques. O ministro ordenado não é um ser mais puro ou especial, apenas é chamado a exercer uma função ritualística e sacramental específica diferente. Todos, todos mesmo, somos chamados a radicalidade da entrega ao serviço dos outros, inclusive em lugares mais difíceis e questionadores no mesmo sacerdócio cristão. Devemos, volto a dizer, ser a imagem de Deus, revelar a Deus em nosso agir. Na eucaristia nos alimentamos para também sermos eucarísticos, para nos entregar a serviço do Reino. Nossas vidas devem testemunhar o amor serviço, a cruz salvífica, um modo de ser / viver que nos possibilita uma felicidade enraizada mesmo no meio de perseguição, tristezas, doenças, injustiça.
Mais do que isto, que nossa voz seja a voz de Deus.
A todos os ofendidos, agredidos, machucados, marginalizados, por que causa for: que nosso corpo, nossa fala, nossa vida diga e proclame: Não estendas a mão contra o menino!

Desafios a uma teologia que tenha sentido

 O presente texto, de perfil um pouco academico, visa refletir sobre o processo de fazer teologia num mundo real em que o outro seja visto e ouvido, que leve em consideração a vida concreta dos povos à margem da soc iedade e que promova uma experiência legitimamente cristão em seu seio.
 
O pluralismo religioso e a disseminação de instituições e experiências religiosas são resultado das modificações ocorridas na sociedade e na construção da subjetividade humana. O problema ganha uma dramaticidade ainda maior pela globalização econômica – social e o emergir da realidade virtual, com suas inúmeras possibilidades.
Os dias de hoje caracterizam-se pela insegurança generalizada, que é derivada da mudança permanente, quase instantânea, das necessidades e desejos, que acabam por sugar e mergulhar toda a racionalidade numa vida sem uma clara dialogicidade, direção, sentido e valoração, que, de fato, construa uma humanidade significativa. A subjetividade fragmentada, voltada ao prazer imediatista acaba por gerar fadiga e cansaço (mesmo do excesso), tendo por consequência um desenraizamento do ser e uma frustração desencadeadora de patologias e angústias. As relações, cada vez mais midiáticas e virtuais, não mais são humanizantes, sem encontros vitais e reais, dinâmicos, mas de consumo e objetivação do outro, usado não poucas vezes como – e apenas isso – fonte de prazer imediato, em permanente processo de coisificação de sua humanidade.
Em muitos e muitos casos as instituições religiosas em vez de procurar produzir experiências significativas e significantes para o olhar e a vida ambital e dialógica do homem acabam por se preocupar em montar estratégias para um efetivo mergulhar no mercado religioso com respostas simplórias e artificiais que mascaram as questões fundamentais da vida humana, mas tentam atingir as angústias e necessidades elementares e imediatas do seu público, preocupado que está com o crescimento quantitativo dos fiéis (ou seriam clientes?), com sua fidelização ou mesmo com a arrecadação obtida com sua pregação e atividade.
È neste mundo real e concreto, que nos fornece o material – um tanto quanto gelatinoso – que somos chamados a tecer um pensar teológico que articule os conhecimentos acadêmicos, exegéticos e hermenêuticos com a vida objetivada neste publico assim como nos públicos marginais – da sociedade e da igreja.
Duas dificuldades acabam por se apresentar para o cristianismo:
1. Como comunicar o essencial da mensagem salvífica, misericordiosa e acolhedora de Jesus de forma a testemunhar a fraternidade e a comunhão cristã que emerge do olhar compassivo dos que acompanham o seguimento do Mestre.
2. A enorme dificuldade em acolher a diversidade de manifestações culturais, de pensamentos, de opções (inclusive sexuais) e de realidades sociais e desafiantes (a droga dicção, por exemplo), de forma a possibilitar o entendimento dos seus dramas e necessidades e formatar uma ação pastoral efetiva e afetuosa que consiga lhes dar sentido, mas também voz e vez – quem sabe até mesmo nos ambientes institucionais
– adequando à mensagem teológica a esta realidade. O pensar teológico e o próprio agir pastoral deve, pois, permitir que sua carne seja ferida pelos dramas, emergências, dores e sofrimentos humanos, de onde quer que venham.
A sociedade pede e coloca no centro do debate a emergência de novos sujeitos e lugares teológicos assim como a capacidade de dialogar e falar não apenas àqueles lideres que conhecem sua linguagem, mas também aos canais midiáticos e propagandísticos e ao mundo acadêmico, sem se deixar cooptar pelos valores deste mundo fugaz, mas também aos miseráveis, aos silenciados, aos narcodependentes, aos esquecidos. Esperemos que não por nós.
Em que medida somos capazes de produzir encontros e âmbitos de humanização e de experiência do Divino Amor que se encarna em nosso meio?

sábado, 25 de fevereiro de 2012

CESEP promove curso online de Ecologia


CEBI

 Um bom curso, com pessoas comprometidas com um mundo novo ecom a construção de novos olhares e encontros....

CESEEP promove curso de verão online sobre Ecologia: Cuidar da Vida e da Integridade da Criação

Sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012 - 12h18min
O Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular - CESEEP promove, durante o período de 01 de março a 30 de maio de 2012, o curso "ECOLOGIA: CUIDAR DA VIDA E DA INTEGRIDADE DA CRIAÇÃO". Realizado em parceria com a Coordenação Central de Educação a Distância da PUC do Rio de Janeiro (CCEAD/PUC-RJ), o curso de verão à distância - modalidade online destina-se a pessoas que atuam em movimentos populares, pastorais, grupos diversos, educadores, agentes sociais e políticos, e todos quantos estiverem sensíveis ao tema.
O objetivo é mapear os principais problemas sócio-ambientais da atualidade em nível mundial e, sobretudo, nacional, analisar a atuação dos movimentos populares, dos governos e da sociedade em geral diante dessa realidade, refletir sobre a centralidade da questão ecológica a partir da Bíblia, da espiritualidade e da Teologia e estimular ações concretas diante do desafio e compromisso de todos de cuidar da Casa Comum.
O valor do curso é R$ 100,00 (ou 2 parcelas de R$50,00 - uma antes do início do curso e a segunda, depois de 30 dias) com desconto de 20% para pagamento antecipado até 15/Abril = R$80,00. A inscrição deve ser feita através do site http://www.cesep.org.br/online/inscricaoonline.html e em seguida enviada, junto com o comprovante de depósito bancário, via correio, fax ou pelo e-mail ceseep@ceseep.org.br, a fim de receber a senha de acesso ao curso.
Dados para depósito bancário*:
Banco Itaú
Agência: 0251
Conta Corrente: 34307-5
Em nome do CESEEP
*Se preferir efetuar um DOC, será necessário os seguintes dados:
CNPJ: 52.027.398/0001-53
Inscrição Estadual: Isento
*Também há a possibilidade de enviar via correio, cheque nominal e cruzado, ao CESEEP.
Adital Notícias da América Latina e do Caribe
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
www.cebi.org.br

sábado, 18 de fevereiro de 2012

TRANSFIGURAÇÃO

                                  1 Reis 19, 9-18         2 Pedro 1, 16-21         Marcos 9, 2-9
                                                              TRANSFIGURAÇÃO
Na primeira leitura se apresenta um drama humano. Mostra um homem solitário, Elias, perseguido, mas fiel a Deus e à Sua Palavra, ainda que os israelitas tenham abandonado a aliança com Deus, derrubado os altares e matado os profetas. Praticava-se a injustiça. Elias foi à montanha – lugar tido como privilegiado à manifestação de Deus – e esperava encontrar Deus no furacão, no terremoto, no fogo. Deus, porém, se expressou numa brisa suave. Hoje está na moda procurar a Ele em eventos miraculosos, fantásticos, em pastores “superpoderosos”... Mas Ele insiste em dizer que não é aí que reside, mas na calmaria da brisa. Temos de mergulhar na contemplação D’ele, em suas palavras e sua vida, para que possamos ver as maravilhas que tem feito por nós.
Na segunda leitura está dito que somos testemunhas oculares de Sua glória. Testemunhas marcadas que garantem a veracidade e a força da mensagem salvadora do cristianismo – de transformação real e concreta de nossas vidas, de forma a ser evidente um olhar diferente. Fala mais, que o combustível adequado a esta conversão permanente de nossas vidas é uma interpretação correta das Sagradas Escrituras, que não deve ser guiada por leituras particulares, movidas por egoísmos e aspirações que muito pouco tem de ver com o seguimento do Cristo.
Temos agora o relato da transfiguração em Marcos 2, 2- 13. Peço, entretanto, vossa permissão para enquadrar o texto em seu contexto, em sua moldura textual. O texto anterior, de Marcos 8, 31-38, nos mostra Jesus repreendendo a Pedro porque este vê Jesus como um Messias poderoso (e quanto de nós o querem e o procuram apenas desta forma?) ao invés do Servo Sofredor, do Deus serviço, do Deus Amor.
O texto do capítulo 9 mostra que Jesus foi à montanha para orar com seus amigos e ali eles enxergam Jesus conversando com Moisés (simbolizando a Lei judaica) e Elias (simbolizando os profetas). Façamos aqui uma pequena pausa para vos lembrar da suprema importância de oração como condição para enxergarmos a verdadeira face de Jesus, sua condição divina e sua condição absolutamente humana. Será que temos orado o suficiente?
Aqui, algo a mais deve ser dito, a profecia não é falar o que vai acontecer com você ou alguém (isso seria, no máximo, vidência!), mas ser capaz de ver e combater toda e qualquer idolatria, de combater a injustiça e a opressão, de ver que o ser humano hoje trocou Deus pelo dinheiro, o luxo, e o poder, mesmo nas igrejas, o que é profundamente lamentável e triste. Profetizar significa denunciar, questionar as estruturas pecaminosas em que estamos mergulhados e que produzem tantos e tantas esquecidas. Esquecidas por nós e não por Deus, que segue mandando seus profetas e santos e a nós convoca....
Pedro, entretanto, quer logo montar uma tenda, uma Igreja, um local de poder. E Deus e sua manifestação amorosa querem é estar e residir na casa e no meio e no centro da vida das pessoas. Veremos isso adiante... E Deus fala na sombra para que ele, e também nós, escutemos a Palavra de Jesus e que a ressurreição pascalina vai dar condições de entender do que fala, que a vida vence a morte a partir de Deus. Eles ficam com medo, assim como nós, que quando chamados a entender e receber este Deus humano e divino com as exigências derivadas deste encontro nos paralisa. Temos medo de mudar, de nos converter. E, no fundo, percebemos nossa pequenez e nossa fragilidade, da qual normalmente queremos fugir... è na humilodade do reconhecimento de nossa fragilidade que está aberta a ossibilidade de encontrar a Deus, sua intimidade e sua mensagem, não na arrogância, no poder, na prepotência.
Ocorre, porém, que o Mistério eterno da encarnação, deste encontro salvífico, nos fascina e nos atrai para Si. E, mesmo em nossa pequenez, podemos receber o Mistério na Eucaristia, nos Sacramentos, nos encontros amorosos, na Graça de Deus. Jesus, no relato da transfiguração em Mateus fala a Pedro: levanta-se e anda. Levantar em hebraico tem a mesma raiz de ressuscitar. Quando Deus chega e nos toca toda morte, desolação e a paralisia são transformadas em vida e dinamismo. Somos chamados a sermos testemunhas disso.
Por último, mas não por fim, Jesus volta da montanha, volta à multidão e cura um menino surdo e mudo. Leva vida onde há morte. Esta é a glória de Deus. E fala aos discípulos que para fazer isso é preciso confiar na força da oração. Nosso Deus é, pois, um Deus que nos aponta para o serviço e para o testemunho deste amor com os outros. E agora uma boa noticia: Em João, no episódio do lava pés Jesus nos diz que o serviço é o segredo da felicidade, o seu caminho.
Aproveitemos o tempo da quaresma, que se aproxima, para refletir sobre nossas vidas e nosso agir para nos prepararmos dignamente para a experiência da Páscoa.
Como pessoas e como igreja temos vivido e reconhecido a real dimensão de Cristo Jesus?
Leonardo Boff em artigo no livro Teologia para viver com sentido fala algo muito bonito: irmão que ajuda irmão é como uma cidade poderosa. Reconheçamos que somos irmãos em Cristo – todos! – e construamos esta cidade fundada no amor e na experiência do Cristo transfigurado.
Que assim seja!

Gerar vida gerar morte - um assunto complexo!

 Não sou a favor do aborto, definitivamente! Entretanto o presente texto parece ser muito importante pois trata-se de questionar uma atitute simplista e fácil de ser tomada, fundada em dogmatismo e pré- conceitos não históricos. A simplicidade da mensagem amorosa de Jesus precisa se encarnar na real complexidade da vida concreta de nossa humanidade, reconhecendo o diferente, o inusitado, os dramas reais e vitais de pessoas concretas em contextos nem sempre fáceis de serem vividos. Julgar não é nosso departamento, mas um amar compassivo. Contextos vitais que, normalmente, ocorrem em decorrência de uma sociedade injusta e estruturalmente pecadora onde, senão somos os mais beneficiados, somos omissos em nossa atuação pessoal e social. Vale refletir de uma forma menos superficial e dogmática.

Gerar vida e gerar morte - Ivone Gebara

Segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012 - 20h37min
por Adital - Notícias da América Latina e do Caribe
Ivone Gebara é co-autora do livro Terra - Eco Sagrado. 
Espanta-me a facilidade como alguns clérigos e bispos afirmam poder distinguir com clareza as forças que geram vida e as que geram morte. Discorrem como se estivessem num campo de certezas. Nem percebem que o próprio uso dessas duas palavras principalmente nos seus discursos acalorados sobre a importância de escolhermos a vida conduz quase necessariamente a defender armadilhas de morte e provocar formas sutis de violência. O que é vida? O que é morte? É possível que a morte se sustente fora da vida e a vida fora da morte? Não somos nós vida e morte ao mesmo tempo? Não somos sempre aprendizes, caminhando trôpegos, dando um passo depois do outro nas escolhas diárias que tentamos fazer?
Faz algum tempo que a Igreja Católica no Brasil vem desenvolvendo uma linha equivocada de defesa da vida. Quando falam da defesa da vida reduzem o termo vida à vida do feto humano e, assegurados da vida do feto esquecem-se de todos os outros aspectos e personagens reais da complexa teia da vida. Fico me perguntando de novo porque insistem nesse erro e nesse limite lógico condenado também de muitas maneiras pelos muitos filósofos e teólogos da Tradição Cristã. Distanciam-se até das últimas reflexões de Bento XVI que, com justeza, discorre sobre a complexidade da vida no universo, incluindo-se a vida humana.
Espanta-me constatar mais uma vez a pouca formação filosófica e teológica de parte do episcopado e de muitos clérigos que se arvoram a defender a vida, mas atiram pedras em pessoas que consideram "mal-amadas" só por defenderem um ideário diferente do seu. Por que "mal-amada" ou "mal-amado" seria uma forma de menosprezar ou diminuir as pessoas? O que defato querem dizer com isso?
Não somos todos nós necessitados de amor? Não é o amor a missão cristã? Não é para os desprezados, esquecidos e mal-amados que o Cristianismo diz manter sua missão a exemplo de Jesus? É desconcertante perceber que usam expressões desse tipo e instrumentalizam a mensagem cristã para afirmar desacordos de posições, como o fez D. Benedito Simão, bispo de Assis e Presidente da Comissão pela vida do Regional Sul I da CNBB. Em entrevista ao Grupo Estado de São Paulo na semana passada, por ocasião da escolha da Professora e Doutora Eleonora Menicucci como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, o referido bispo classificou a nova ministra de "mal-amada" e, com isso desrespeitou-a e incitou ao desrespeito e à falta de diálogo em relação à responsabilidade pública de enfrentar os sérios problemas sociais.
Seria o bispo então um privilegiado "bem-amado"? A partir de que critérios?
O desrespeito às histórias e escolhas pessoais, às muitas dores e razões de muitas mulheres torna-se moeda corrente em muitas Igrejas cristãs que se armam para uma chamada "guerra santa" sem a preocupação de aproximar-se das pessoas envolvidas em situações de desespero. Usam sua autoridade junto ao povo para gritar palavras de ordem e em nome de seu deus confundir as mentes e os corações.
Perdeu-se a civilidade. Perdeu-se o desejo de consagração à sabedoria e ao bom senso. Perdeu-se a escuta aos acontecimentos e à aproximação respeitosa das dores alheias. Apenas se responde a partir de PRINCÍPIOS e de pretensa autoridade. Mas, o que são os princípios fora da vida cotidiana das pessoas de carne e osso? Qual é o teto dos princípios? Quem os estabelece? Onde vivem eles? Como se conjugam nas diferentes situações da vida? O convite ao pensamento se faz absolutamente necessário quando as trevas da ignorância obscurecem as mentes e os corações.
Nesse momento crítico de descrença em relação a muitos valores humanos, as atitudes policialescas de um ou mais bispos, de clérigos e pastores, assim como de alguns fiéis nos apavoram. A ignorância das próprias fontes do Evangelho e a instrumentalização da fé dos mais simples nos espantam. A democracia real está em risco. A liberdade está ameaçada pelo obscurantismo religioso.
De nada servem palavras como diálogo, escuta, conversão, solidariedade, respeito à vida quando na prática é a violência e a defesa de ideias pré-concebidas que parecem nortear alguns comportamentos religiosos públicos. Seguem esquecendo que não se deve tomar Deus em vão. Não apenas seu nome, pois isto, já o fazem. Tomar Deus em vão é tomar as criaturas em vão, selecionando-os, desrespeitando-as e julgando-as de antemão. Nós todas/os temos palhas e traves em nossos olhos e eu sou a primeira. Por isso, cada pessoa ou grupo apenas consegue ver algo da realidade, que é sempre maior do que nós. Entretanto, se quisermos enxergar um pouco mais, somos convidadas a nos aproximar de forma desarmada dos outros.
Somos desafiadas a ouvir, olhar, sentir, acolher, perguntar, conversar como se o corpo do outro ou da outra pudessem ser meu próprio corpo, como se os olhos e ouvidos dos outros pudessem completar minha visão e audição. E mais, como se as dores alheias pudessem ser de fato minhas próprias dores e suas histórias devida minhas mestras. Só assim poderemos ter um pouco de autoridade com dignidade. Só assim nossa belas palavras não serão ocas. E, talvez, nessa abertura a cada dia renovada, poderemos acreditar na necessidade vital de carregar os fardos uns dos outros e esperar que a fraternidade e a sororidade sejam possíveis em nossas relações.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

como fermento

Como fermento - José Antonio Pagola

Sexta-feira, 15 de julho de 2011 - 11h19min
por Adital
Com uma audácia desconhecida, Jesus surpreendeu a todos proclamando que nenhum profeta de Israel tinha se atrevido a dizer: "Deus está aqui com a sua força criadora da justiça, abrindo caminho no mundo para tornar a vida de seus filhos mais humana e feliz”. É preciso mudar. Devemos aprender a viver, acreditando nessa Boa Notícia: o Reino de Deus está chegando!
Jesus falava com paixão. Muitos foram atraídos por suas palavras. Outros tinham muitas dúvidas. Tudo era uma loucura? Onde se podia ver o poder de Deus transformando o mundo? Que poderia mudar o poderoso império de Roma?
Um dia, Jesus contou uma parábola muito breve. Ela é tão pequena e humilde que, muitas vezes, pode passar despercebida para os cristãos. Ele diz: "Com o reino de Deus acontece como o fermento que uma mulher pegou e escondeu em três medidas de trigo, até ficar tudo levedado”.
Aquelas pessoas simples entendiam o que Jesus lhes falava. Todos já tinham visto suas mães fazerem pão em casa. Eles sabiam que a levedura fica "escondida”, mas não permanece inativa. Silenciosamente, vai fermentando devagar. Dessa mesma maneira Deus está agindo desde o interior da vida.
Deus não impõe de fora, mas transforma as pessoas de dentro para fora. Ele não domina com o seu poder, mas atrai para o bem com seu amor. Não força a liberdade de ninguém, mas se oferece para tornar nossas vidas mais felizes. Então, se quisermos entrar em seu reino, assim temos que atuar.
Está começando uma nova era para a Igreja. Os cristãos teremos que aprender a viver em minoria em uma sociedade secularizada e plural. Em muitos lugares, o futuro do cristianismo dependerá, em grande parte, do nascimento de pequenos grupos de crentes, atraídos pelo evangelho e reunidos em torno de Jesus.
Aos poucos, aprenderemos a viver a fé de maneira humilde, sem fazer muito barulho, nem dar grandes espetáculos. Já não cultivaremos tantos desejos de poder, nem de prestígio. Não gastaremos nossas forças em grandes operações midiáticas. Buscaremos o essencial. Caminharemos na verdade de Jesus.
Seguindo seus desejos, tentaremos viver como "fermento" de vida saudável na sociedade e como um "sal" que, humildemente, se dilui para dar sabor evangélico à vida moderna. Contagiaremos o nosso meio com o estilo de vida de Jesus e irradiaremos a força inspiradora e transformadora do seu Evangelho. Passaremos a vida fazendo o bem. Como Jesus.

AMIGO DOS EXCLUÍDOS

 Texto publicado no adital, do teólogo José Antonio Pagola, que escreveu o belíssimo livro - simples e profundo - adeuqado para pessoas iniciadas na fé e para o catecismo inicial - JESUS, UMA APROXIMAÇÃO HISTÓRICA. Aproveitem!

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 1, 40-45, que corresponde ao 6º Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto
AMIGO DOS EXCLUÍDOS
Jesus era muito sensível ao sofrimento de quem encontrava no Seu caminho, marginalizados pela sociedade, desprezados pela religião ou rejeitados pelos setores que se consideravam superiores moral ou religiosamente.
É algo que Lhe sai de dentro. Sabe que Deus não discrimina ninguém. Não rejeita nem excomunga. Não é só dos bons. A todos acolhe e bendiz. Jesus tinha o hábito de levantar-se de madrugada para orar. Em certa ocasião revela como contempla o amanhecer: "Deus faz sair o Seu sol sobre bons e maus". Assim é Ele.
Por isso, por vezes, reclama com força que cessem todas as condenações: "Não julgueis e não sereis julgados". Outras, narra pequenas parábolas para pedir que ninguém se dedique a "separar o trigo e o joio" como se fosse o juiz supremo de todos.
Mas o mais admirável é a Sua atuação. O rasgo mais original e provocativo de Jesus foi o Seu hábito de comer com pecadores, prostitutas e gente indesejável. O fato é insólito. Nunca se tinha visto, em Israel, alguém com fama de "homem de Deus" comendo e bebendo animadamente com pecadores.
Os dirigentes religiosos mais respeitáveis não o puderam suportar. A sua reação foi agressiva: "Aí tendes a um comilão e bêbado, amigo de pecadores". Jesus não se defendeu. Era certo. No mais íntimo do Seu ser sentia um respeito grande e uma amizade comovedora para com os rejeitados da sociedade ou da religião.
Marcos recolhe no seu relato a cura de um leproso para destacar essa predileção de Jesus pelos excluídos. Jesus atravessa uma região solitária. De repente aproxima-se um leproso. Não vem acompanhado por ninguém. Vive na solidão. Leva na sua pele a marca da sua exclusão. As leis condenam-no a viver afastado de todos. É um ser impuro.
De joelhos, o leproso faz a Jesus uma súplica humilde. Sente-se sujo. Não lhe fala de doenças. Só quer ver-se limpo de todo estigma: «Se queres, podes limpar-me». Jesus comove-se ao ver a Seus pés aquele ser humano desfigurado pela doença e o abandono de todos. Aquele homem representa a solidão e o desespero de tantos estigmatizados. Jesus «estende a Sua mão» procurando o contato com a sua pele, «toca-lhe» e diz-lhe: «Quero. Ficar limpo».
Sempre que discriminamos a partir da nossa suposta superioridade moral a diferentes grupos humanos (vagabundos, prostitutas, toxicómanos, sidoticos, imigrantes, homossexuais...), ou os excluímos da convivência negando-lhes o nosso acolhimento, estamos a afastar-nos gravemente de Jesus.

MILAGRE

MILAGRE
Por ocasião do mês da bíblia de 2011 me senti obrigado a refletir sobre o ardiloso tema do milagre, já que o texto indicado para estudo – Êxodo de 15 a 18 – contêm inúmeros milagres.
Refleti longamente.
Eis o que arrisquei falar, lembrando que a vida é sempre um risco e devemos, sempre, ousar arriscar a serviço da vida:
1. O milagre é graça. Como graça é dada sem o nosso merecimento, de graça! Implica isso então que não pode ser comprado nem deve ser intermediado por falsos apóstolos e pastores que seriam portadores “misericordiosos” e pagos! A graça é por todos e todas derramado, restando o acolhimento e a abertura para ela Tal como uma frágil planta que deve ser posta ao Sol para viver, devemos estar abertos a ela, por uma vida que lhe acolha e alimente.
2. O milagre é fé. A fé que emerge de uma experiência objetiva e concreta com um Deus – Amor que se fez carne e serviço. Uma experiência contagiante, mas que não fica em palavras, considerações e rituais, mas numa entrega de todo o ser num processo de reviravolta e conversão (mudança drástica de caminhos, de atitudes e vivências). Jesus inúmeras vezes falou que “a sua fé te salvou!”, assim como disse que ali não pode fazer muitos milagres em função de falta de fé do povo. A fé, implicada em conversão, transforma vidas – a nossa e a de outros – gerando o inusitado, maravilhoso e milagroso, a experiência de partilhas, amor, vida.
3. O milagre é ver diferente! O agir de Deus se faz transformando os olhares e vivências, eventualmente cotidianas em manifestação da Sua presença. A chegada – sublime- de comida a um mendigo faminto, a acolhida a uma sofrida vitima de enchente ou o surgimento em terra de ninguém - a nossa periferia, largada e abandonada – de um hospital, resultado de luta, pressão e organização popular, é sim sinal da Presença atuante de Deus. Um deus que se fez carne – Jesus Cristo – e que se perpetua naqueles que O acolhem inspirados pelo Santo Espírito na Experiência de amor – serviço. Um Deus encarnado na luta pela vida, nas vivências amorosas e amplas de deus que está, sempre, a acolher, abraçar, amparar e proteger os excluídos – sofridos-esquecidos por nosso meio, no meio de nós. Vivenciamos isto nos olhares e experiências cotidianas e pessoais, mas também na luta contra todos os sistemas políticos, econômicos e religiosos que produzem esquecidos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ANISTIA INTERNACIONAL FALA DO MASSACRE DE PINHEIRINHO


O presente artigo foi escrito no portal adital e demonstra a insatisfação da Anistia Internacional com o que aconteceu em São José dos Campos. Não podemos nos calar perante mais esta violência. Nosssas vozes devem ser ouvidas, agora e nas eleições, inclusive a de governador.....
As inúmeras violações de direitos praticadas durante a desocupação na comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo, sudeste brasileiro, chamou a atenção e indignou não apenas movimentos e organizações do país. Os ecos da violência praticada contra cerca de 9 mil pessoas no último domingo (22) chegou à Anistia Internacional, que está fazendo um chamado urgente ao governo brasileiro a fim de garantir moradia a todas as famílias retiradas de suas casas.
"As autoridades brasileiras devem atender urgentemente as necessidades dos milhares de pessoas que ficaram sem casa. Devem envolver-se ativamente com os moradores para encontrar uma solução em longo prazo que se adapte a suas necessidades, e não um lugar temporário em um albergue, algo que acaba desestruturando as famílias", alertou Atila Roque, diretor de Anistia Internacional Brasil.
A ocupação urbana conhecida como Pinheirinho, completaria no próximo dia 27 de fevereiro oito anos de existência não fosse a determinação da juíza da 6ª Vara Civil do município, Márcia Loureiro, que, desconhecendo a suspensão expedida pelo Tribunal Regional Federal autorizou a reintegração de posse executada no domingo.
A ação aconteceu de forma violenta, inclusive com a utilização de gás lacrimogêneo e balas de borracha, e não deu tempo aos moradores de retirarem seus pertences. As famílias foram acordadas às 6h da manhã, quando teve início a reintegração de posse e foram surpreendidas por uma mega operação com cerca de 1.800 policiais militares que receberam o apoio de carros blindados e helicópteros.
Para forçar a saída das famílias, gás, eletricidade e telefone foram cortados e as moradias foram cercadas. Após a desocupação, alguns moradores receberam permissão para retornar e recolher móveis e objetos pessoais, contudo, muitos encontraram as casas já destruídas e seus pertencem embaixo de escombros.
A contrapartida não foi pacífica, alguns moradores levantaram barricadas, queimaram carros e reagiram jogando pedras e paus. Três pessoas ficaram feridas. No fim da operação, que só terminou na segunda-feira, cerca de 30 pessoas foram presas.
"A operação foi realizada de maneira completamente inapropriada: na madrugada do domingo e sem avisar adequadamente. Seguiu-se adiante com a desocupação apesar de que as negociações com as autoridades para encontrar uma saída pacífica ainda estavam abertas", criticou Atila.
As famílias, sem ter para onde ir, se arranjaram como puderam. Alguns foram para casas de parentes, outras 350 se instalaram em um ginásio e algumas outras estão temporariamente em uma igreja. Até o momento, não há informações sobre as providências que serão tomadas para abrigar adequadamente todos os moradores.
Especulação imobiliária
Quando Pinheirinho começou a tomar forma, em fevereiro de 2004, a região e, consequentemente o terreno, de propriedade da falida empresa Selecta, do grupo Naji Nahas, não tinha valor comercial e estava abandonado. À época, as famílias ainda tentaram legalizar a situação, inclusive solicitando ao governo municipal a compra do terreno, mas nunca receberam resposta positiva. Hoje, a área é uma das mais cobiçadas pelo mercado imobiliário.
Diante desta situação de explícitas violações de direitos e descaso do poder público municipal, Anistia Internacional pede que o governo brasileiro tome providência efetivas urgentemente e respeite o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que proíbe o Estado brasileiro de praticar desocupações forçadas e o obriga a proteger a população deste tipo de ação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Para além do Espírito do Império Global

Para além do Espírito do Império Global
O presente texto trata-se de uma leitura, pessoal e livre, da palestra proferida pelo Professor Dr. Jung Mo Sung na Paróquia Santos Mártires em 2011, apoiada pela Universidade Metodista de São Paulo.
O homem, antes do surgimento do capitalismo, trabalhava para viver e isto “funcionava” numa sociedade que crescia lentamente (em virtude de doenças, pestes, guerras...).
Com a emergência do Capitalismo, entretanto, as pessoas vivem para trabalhar, para obter e acumular dinheiro e posses. Houve, então, uma profunda mudança do sentido da vida, com o surgimento de uma ética protestante acompanhada pelo aumento da população, dos serviços, da tecnologia e da produção.
O Império Global, resultante do desenvolvimento histórico do capitalismo, tem um espírito, uma forma de ser que oferece uma espiritualidade.
Espírito, podemos dizer é o que faz o ser humano levantar para viver e relacionar-se. As Palavras que identificam o Espírito na Biblia – Pneuma e Ruah – apontam para uma boa direção na busca de seu significado: é vento, sopro. É, pois, algo que não vemos mas sentimos os seus efeitos. É aquilo que move algo ou alguém, por uma força que não é sua. Um breve comentário: Espírito de Deus – Espírito Santo – é o vento que nos move para além de nós, usando a nossa pequenez (e apesar dela), para realizar Suas obras, de serviço, encontro, amor.
O Império exige coesão interna, com pretensões de conquista.
O Império Romano, ainda que estabelecido com divisão de poderes – Império e Senado – tinha claro em si uma cultura e uma religião de suporte e apoio. A emergência da República Romana implicou na organização de uma tensão interna do poder e esta tensão – inerente a todo estado democrático (ainda que imperfeito) é uma virtude social.
O Império Romano “oferecia” aos povos dominados o seu Evangelho – sua Boa Nova – que era a paz romana, mantida pelas armas.
O Capitalismo e, em especial o neoliberalismo globalizado e globalizante também tem sua boa nova que fascina e encanta: o crescimento econômico que promete  ( e não entrega a todos) o acesso aos bens de consumo e a prazeres construídos artificialmente pelo aparato midiático.
Este regime tem sim uma clara característica imperial, ainda que não cresça pela força bruta ( ainda que os EUA e a Europa não se furtem a usar as armas se necessário for), pela convergência de poderes e interesses, pela criação de uma “nova” subjetividade e pela construção de um mercado global que pretenda impor “suavemente” os mesmos desejos.
As pessoas hoje se engalfinham e sacrificam seus sonhos e dons, quando não suas famílias e relacionamentos, para entrar e usufruir deste mundo artificial, o que produz estresse, doenças, frustração. Desumanização!
O Império, todo Império, com qual faceta tenha, necessita de um aparato ideológico e cultural para alimentar seu Espírito. Nada nem ninguém deve ter  a petulância de se opor a seu “poder”.
Ocorre, porém, que o Cristianismo bem vivido exige um rompimento com a sua lógica, com o mercado e com a salvação por ele oferecida, já que dialoga e vive com os impuros, esquecidos, marginalizados, tal como o Cristo fez, assim como suas primeiras comunidades – e assim deve ser até hoje.
Paulo bem nos fala que a salvação vem do Espírito que é a capacidade de romper com esta lógica estabelecida e nutrir-se da radicalidade e da liberdade vivida e confiscada pelo amor.
Este é o Espírito, que desce e faz assumir na liberdade, na entrega livre da radicalidade da morte na cruz. Devemos obediência sim, mas ao projeto de Deus, que se faz serviço e entrega. O Santo Espírito, que é este espírito subversivo que não é algo para minha pessoa, nem de minha pessoa, nem de posse de alguém, mas para nós, a cada um de nós, a partir e na vivência comunitária, de entrega e de encontros mútuos, possíveis na intimidade de pequenos grupos – que devem ser articulados para resistir.
Um cristianismo que prescinde da criação de espaços e encontros pessoais e íntimos – impossíveis de obter em grandes celebrações e igrejas, acaba por adquirir a característica de tornar-se um show midiático de estéril  emotividade, sendo impossível enfrentar o espírito do capital nem sequer compreender ou manifestar o Deus de Jesus Cristo, encarnado e humano, nem ampliar nossa humanidade e sensibilidade.
Esta é nossa tarefa e desafio. Enfrentemos.

Epifania

Epifania, dor e amor
Não é hoje que tecerei algumas ideias que tenho ruminado pelos dias sobre saúde e doença. A sedimentação se faz necessária com o tempo para que o texto se faça tecido protetor... Por ora, tangenciaremos o tema.
Nossa vida é uma verdadeira peregrinação em uma sucessão de caminhos, desafios e esperanças. Nem sempre, porém, seguimos na direção ao Centro, ao sentido e ao coração da existência.
Vivemos num mundo em que é valorizada apenas a racionalidade instrumental onde o que importa á a utilidade das coisas que fazemos e construímos. A dimensão humana é, porém, mais ampla, dinâmica, viva, lúdica. Amor não rima com utilitarismo – nem consumismo – mas com encontro de humanidades, olhares, fragilidades, entregas, quem sabe também com dor – que nos aponta nossa pequenez, efemeridade, fragilidade, abertura. O movimento, se é que dá para se chamar assim, New Age baseia-se numa piedade individualista e consumista (de objetos, magias e moda) e na satisfação imediata, em discursos sofisticados e vazios.
O cristianismo, segundo Frei Timothy Radcliffe OP no livro Por que ser cristão, convida-nos a uma liberdade e a uma felicidade especifica, que é a partilha da vitalidade própria de Deus.
Felicidade que brota da espontaneidade de agir e mover-se a partir de um coração simples e compassivo. Frei Timothy assim fala no referido livro:
“A verdade é simples, mas se essa simplicidade não passou pela complexidade da experiência humana, é uma simplicidade infantil, uma simplicidade estridente e desumana, não a simplicidade que vislumbramos indistintamente em Deus.”
O problema é que a Igreja, enquanto instituição, inclusive seus ministros e mesmo como Povo de Deus, normalmente confundimos (somos Igreja, não se esqueça) a verdade com dogmas e sistematizações sólidas, estanques, moralistas e imóveis, movidas por julgamentos e culpas.
O amor de Deus, a oferta Dele passa por uma pedagogia da liberdade que se dá em encontros de irmãos que, comunitariamente, constroem relações de amizade e intimidade.
Esta liberdade, que não se confunde com a liberdade (ou seria liberalidade) de se fazer ou consumir algo, mas de assumir a simplicidade de um coração amoroso e fiel à alegria de vivê-lo na complexidade do real, nos intercâmbios vitais com o Outro, que se faz presente no outro e nos poéticos e epifânicos encontros da vida. Uma liberdade assim dá espaço e se enriquece no encontro
com a diversidade e a alteridade, com o diferente e com as objeções e dificuldades que emanam do concreto.
A Igreja do Amor, do Cristo, independente da denominação a que pertença, é forjada aí numa dialética que assume e incorpora a realidade com seus dramas, incoerências e fragilidades, encontros de intimidade, afeto, solidariedade. É evidente que este encontro pessoal e institucional significa assumir a defesa da vida, em qualquer lugar onde esteja ameaçada, ofendida. Implica, portanto, uma atuação em prol da justiça social, deixando claro o tomar partido dos mais fracos, desprotegidos, oprimidos, impuros. . .
Movimentamo-nos normalmente por perguntas – anseios e desejos – haveremos de tecer este caminhar com doçura e paciência, prestando atenção às perguntas que fazemos, tema – quem sabe - de novos textos.

MORTE E VIDA

Texto a ser lido no domingo por ocasião de celebração eucarística no domingo dia 29 e função do falecimento de Gabriela, ainda bebê. Os fatos importantes da vida devem ser refletidas para além do lugar comum....

                                                              MORTE E VIDA
QUERIDAS E QUERIDOS,
Há uma semana passamos por uma experiência forte, dura, chocante  da passagem da pequena Gabriela para junto de Deus. Penso que é um evento que nos exige reflexão e meditação, ainda que as palavras não deem conta da realidade e não consigam apagar a tristeza de nossos corações.
Veio a minha mente algo inusitado: precisamos jejuar mais, precisamos orar mais! O jejum nos irmana com os que nada têm, suas dores e fragilidades, faz nosso corpo - por pouco tempo é verdade - sentir nossa pequenez, fraqueza, transitoriedade, o que bem nos auxilia a desenvolver a boa e velha humildade, assim como encarar a nossa impermanência. A oração implica em escutar - escutar eu disse - o que o Deus amor nos pede, convoca e entrega. Nossas palavras, corpos e gestos orantes correspondem a nossas respostas de fé, entrega e encontro.
Lembremos que nosso Deus é todo misericordioso, e não apenas todo poderoso, a Sua misericórdia é o que O define, e se podemos tocar timidamente Sua presença o dizemos como Amor, que é sempre - sempre mesmo - eterno. Lembremo-nos também que o homem não é capaz de amar a humanidade toda, mas a cada homem em sua realidade concreta. Deus assim o faz, ama a cada um em sua particularidade. Nestes encontros reais e concretos com pessoas concretas Deus se revela a ti e também tu podes revelar este amoroso Deus às criaturas.
Dois homens em um porto enxergam um enorme navio a viajar para longe até sumir, fugir, morrer. Um comenta seu fim, sua morte. O outro sorri e, mansamente, lhe revela: Não, são seus olhos que são pequenos, ele permanece o mesmo.
O Evangelho nos chega para abrir nossos olhos e corações para ver além da matéria e o aparente.
Cristo também morreu, assassinado e torturado. Até sentiu-se abandonado pelo Pai. Ressuscitou. Aleluia!
Sabemos, ressuscitaremos. Onde há vida há eternidade. No coração de nossos amigos, irmãos e familiares, em nossas obras e sorrisos salvíficos seremos eternos e vivos para sempre. Tenham a certeza que isso podemos saborear desde já, experimentarmos, mastigarmos...
Estamos na Epifania - tempo de Revelação. Saibamos transformar cada olhar nosso, cada abraço, cada ação litúrgica, moral ou corporal em ação sacramental que O revele com alegria. Possamos cada um de nós levar eternidade por onde passarmos.
Que Deus nos auxilie, em especial à família da pequena Gabriela, de modo que possamos reconhecer a presença do Consolador, conhecido como Espirito Santo. Possamos estar sempre a Seu serviço.
Amém.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CRACK - Dá o que pensar....


Texto tirado do site Carta Maior. A vida nos pede reflexão e ação......

Crack é usado por miseráveis porque é barato

A explicação é tão simples que parece óbvia, mas para o especialista Dartiu Xavier da Silveira apenas o preço define o fato de que na Cracolância se fuma o crack. A droga vicia tanto quanto qualquer outra, inclusive o álcool, e as taxas de sucesso no tratamento são as mesmas. A diferença é que, neste caso, o “ser miserável” precede o “fumar crack”. Qualquer política de combate ao uso da droga tende ao fracasso, se não for precedida de uma política social conseqüente. Silveira define o lobby da comunidade terapêutica para drogados junto ao Sistema Único de Saúde (SUS) como “pesado”, e diz que a ação policial na Cracolândia é simplesmente “política e midiática”. A reportagem é de Maria Inês Nassif.

São Paulo - O grande equívoco da ação policial do governo do Estado de São Paulo e da prefeitura da capital na chamada Cracolândia, o perímetro onde se aglomeram moradores de rua e dependentes de crack na cidade, definiu, de cara, o fracasso da operação: o poder público partiu do princípio de que a droga colocou aqueles usuários em situação de miséria, quando na verdade foi a miséria que os levou à droga. Esse erro de avaliação, segundo o psiquiatra e professor Dartiu Xavier da Silveira, por si só já desqualifica a ação policial.

Professor do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (PROAD), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, Silveira há 25 anos orienta pesquisas com usuários de drogas e moradores de rua, normalmente patrocinadas pela Organização das Nações Unidas, e tem sido consultor do Ministério da Saúde na definição do Plano de Combate ao Crack. Nas horas vagas, ele desmistifica os argumentos usados pela prefeitura, município e uma parcela de psiquiatras sobre usuários de drogas.

A primeira contestação é essa: o abandono social vem antes, o crack vem depois. E a política social tem que preceder qualquer ação junto a essa comunidade, inclusive a médica.

Outras desmistificações vêm a tiracolo. O crack é droga pesada, concorda ele, mas o dependente da droga tem as mesmas chances de cair no vício do que um usuário de álcool, por exemplo. “Em qualquer droga existem os usuários ocasionais e os dependentes”, diz o médico. Inclusive no caso do crack. O tratamento por internação compulsória de qualquer uma – álcool, cocaína etc – situa-se na ordem de 2%, ou seja, 98% dos usuários internados compulsoriamente, inclusive os de crack, não conseguem manter abstinência. O tratamento ambulatorial garante a maior taxa de sucesso, de 35% a 40% dos usuários tratados. Isso também vale para os usuários de crack.

Daí, outra mistificação é derrubada pelo médico: não se joga simplesmente fora os outros 60% a 65% que não vão conseguir se manter abstinentes. Do ponto de vista da saúde pública, é um ganho se o usuário se beneficiar de uma política de redução dos riscos. “O usuário não vai parar, mas pode reduzir o uso e até estudar ou trabalhar”, afirma. Isso vale também para o viciado em crack.

Por que o crack e não outra droga? Porque a população miserável só pode comprar o crack. Existem usuários de classe média, concorda Silveira, mas crack, pobreza e população em situação de rua são situações que convergem. “A gente sempre tem essa noção de que a rua é um espaço horrível, e é mesmo, mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que é um alivio para a criança estar fora de casa.”

Com todas essas evidências de que o problema da Cracolândia é fundamentalmente social, Silveira apenas consegue atribuir ações policiais na área e a defesa instransigente que políticos e profissionais de saúde fazem da internação compulsória como ligadas a “causas menos nobres”. Que envolvem também interesses econômicos de alguns médicos.

CARTA MAIOR: Como o crack pode deixar de ser tratado como um caso de polícia para tornar-se política pública?

DARTIU XAVIER DA SILVEIRA: Essa ação (policial) na Cracolândia começou com um equívoco básico, que é atribuir aquela situação à presença da droga. É como se a droga tivesse colocado aquelas pessoas em situação de miséria, e isso não é verdade. Todos os estudos feitos com população de rua mostram que, na realidade, o que leva essas pessoas ao crack é a exclusão social, a falta de acesso à educação, saúde e moradia, ou seja, a privação da própria cidadania e identidade. Isto, sim, é um fator de risco para a droga. A droga vem porque tem um prato cheio para florescer. A droga é consequência, não é causa disso.

CARTA MAIOR: Então, essa história de que o crack está atingindo as famílias de classe média no geral é uma bobagem?

SILVEIRA: Ela atinge também a classe média, mas não com a gravidade com que atinge as pessoas mais pobres, porque a situação delas é grave do ponto de vista social, não apenas do ponto de vista do consumo da droga. É uma população mais vulnerável. E por que é o crack? Porque é a droga mais barata para essa população mais miserável. Se fosse na Europa não seria o crack. As populações excluídas da Europa do Leste também abusam, mas de heroína ou de álcool, porque lá crack seria muito caro. Mas essa é a situação que se vê no mundo inteiro entre as populações excluídas. O abuso de drogas é igual, só que a droga usada é a mais barata. Por conta desse equívoco básico, existe esse discurso que diaboliza o crack, faz da droga a causa de tudo.

CARTA MAIOR: A política social, então, deve preceder qualquer outro tipo de política?

SILVEIRA: Exatamente. Existe outro dado alarmante, e as pessoas se esquecem disso, que é um dado epidemiológico. As pesquisas mostram: pode pegar qualquer droga, lícita ou ilícita – álcool, cocaína, qualquer substância. Existem sempre os usuários ocasionais e as pessoas que são dependentes. E isso ocorre também com o crack. Até para drogas pesadas existem usuários ocasionais. Do ponto de vista médico, as pesquisas são direcionadas para entender isso: por que, por exemplo, pessoas conseguem beber socialmente e outras viram alcoólatras. Por que tem gente que consegue cheirar cocaína esporadicamente e tem gente que é dependente? As respostas são muito parecidas. O que vai diferenciar um usuário ocasional de um dependente são outros fatores que não têm nada a ver com a droga: se a pessoa tem outro problema psíquico associado, como depressão e ansiedade, e começa a usar o álcool e a cocaína para resolver problemas, ou situações de muito stress... Numa situação como a das pessoas que vivem na Cracolândia, ser morador de rua já é, por si só, uma situação de risco.

CARTA MAIOR: No caso de criança é uma situação de abandono completo? Não dá para imaginar uma criança com grande problema psíquico ou stress em condições minimamente normais, não é?

SILVEIRA: Sim, é uma situação de abandono completo. O stress que estou falando é de forma geral, que afeta também a classe média. Na situação da Cracolândia, o abandono é fundamentalmente a situação de risco. Têm crianças de classe média que abusam de algumas drogas também, mas elas normalmente vêm de famílias muito desestruturadas, têm pais muito agressivos. Esse não é um ‘privilégio’ da classe desfavorecida. Mas numa situação extrema de crianças de rua, o risco é altíssimo, porque essa criança é privada de tudo.

CARTA MAIOR: Como é a família de uma criança de rua e usuária de droga? Ela tem alguma possibilidade de reatar laços afetivos?

SILVEIRA: Algumas famílias têm condições, e quanto a gente identifica essa possibilidade, faz a intermediação. Outras famílias, não. A gente tem sempre essa noção de que a rua é um espaço horrível – e é mesmo horrível morar na rua – mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que ir para a rua é um alívio para a criança. Por exemplo, muitas crianças vão para a rua porque não aguentam o abuso sexual dentro de casa, por parte do pai, ou do irmão mais velho. Ir para a rua pode ser uma progressão positiva, pode representar escapar de uma situação muito inóspita de vida. Tem uma situação até emblemática, relatada em um trabalho que fizemos com adolescentes de rua. Identificamos vários adolescentes usando drogas. A uma delas, a gente perguntou: por que você usa droga, o que você está procurando na droga? A resposta dela foi um tapa na cara da gente. Ela virou e disse: ‘olha, tio (veja você, uma cabecinha de criança, me chamando de tio), eu nem gosto muito do efeito da droga, mas o problema é que para eu sobreviver na rua eu preciso me prostituir, e para eu suportar uma relação sexual com um adulto só sob o efeito de droga.’ Agora, como dizer que a droga é um problema na vida dessa menina? A droga é uma forma de solução, para ela conseguir sobreviver. A droga já é consequência de uma situação de prostituição que ela foi obrigada a encarar por omissão do Estado, da sociedade como um todo. O depoimento dessa menina torna todas essas justificativas para as ações feitas na Cracolândia uma hipocrisia, uma total falta de sensibilidade para reconhecer o fenômeno.

CARTA MAIOR: Outro mito do crack é que é a droga definitiva, que é impossível livrar-se dela. Isso é verdade?

SILVEIRA: É um mito completo. Ela não é uma droga pior que heroína, que a cocaína, em termos de grau de dependência. É difícil sair? É, mas é difícil como qualquer droga. O crack não é pior.

CARTA MAIOR: Então, para essa população, a questão é muito mais uma política social do que médica.

SILVEIRA: Exatamente. Por isso que os trabalhos mais bem-sucedidos são os feitos in loco, por meio de educadores de rua, desses agentes de saúde. Não são médicos que vão fazer uma consulta médica na rua. A gente chama de consultório de rua mas não é um consultório. A equipe vai investigar o que está acontecendo caso a caso, se a pessoa está com falta do quê, de lugar para morar, ou o problema é o relacionamento com a família, ou o problema é assédio de algum tipo, por parte de alguém. É uma coisa mais social, mesmo.

CARTA MAIOR: É um encaminhamento de assistência social e os profissionais de saúde só entram quando for o caso para aquela pessoa?

SILVEIRA: Frequentemente os aspectos psicológicos são muito relevantes, porque essas crianças estão psicologicamente abaladas – não apenas elas, aliás, mas os jovens, os moradores de rua em geral. Mas a intervenção médica, mesmo nesses casos – e não estou desqualificando a importância dela – não é primordial.

CARTA MAIOR: Então a intervenção médica é só para casos extremos.

SILVEIRA: Exatamente.

CARTA MAIOR: E desde que não seja internação compulsória?

SILVEIRA: Desde que não seja compulsória. As experiências de internação compulsória são simplesmente um fracasso. As taxas de insucesso chegam a 98%. Na hora que você interna compulsoriamente uma pessoa, ela não vai ter acesso à droga porque está em isolamento social. Nessa condição, é fácil para um dependente se manter abstinente. Na hora que sair de lá e voltar para os problemas da vida, no entanto, essa pessoa recai. 98% recaem. Isso, sem questionar que o governo não tem equipamento para fazer internação compulsória de todo mundo. As internações são feitas geralmente em verdadeiros depósitos de drogados. Parecem mais um campo de concentração do que uma estrutura hospitalar.

CARTA MAIOR: E é tudo privatizado, não é?

SILVEIRA: E a privatização não melhorou nada essa situação. Os hospitais psiquiátricos privados têm um custo baixíssimo. A economia é feita com a contratação de pessoal. Não existem equipes adequadas para tratar esses dependentes. É um trabalho muito porco, de segunda categoria.

CARTA MAIOR: Esse atendimento privado se misturou muito com religião?

SILVEIRA: Sim, e isso não é bom. Eu não tenho nada contra religião, não é uma questão de princípio, mas o que se vê são diversos grupos religiosos montando o que eles chamam de “comunidades terapêuticas” que partem do princípio de que só a intenção e a conversão religiosa são fator de cura. A maioria dos casos não tem bom resultado. E por quê? Porque a gente sabe que o melhor tipo de tratamento para a dependência química é feito por uma equipe multidisciplinar. A grande maioria das comunidades terapêuticas não tem equipes para trabalhar com dependentes.

CARTA MAIOR: O relatório do Conselho Federal de Medicina sobre as clínicas de tratamento para drogados é impressionante.

SILVEIRA: O relatório é dramático. E é verdadeiro. No relatório tem até denúncias de abuso, espancamento, maus-tratos a pacientes, ou seja, não são pessoas minimamente capacitadas para darem conta do problema que estão lidando com os usuários nesses lugares.

CARTA MAIOR: Isso acaba sendo a reintrodução do manicômio, mas para dependente químico?

SILVEIRA: Exatamente. A Lei Antimanicomial vai por água abaixo, porque o sistema manicomial está voltando sob a justificativa de que a droga demanda uma intervenção urgente. E isso não é verdade.

CARTA MAIOR: Isso está sendo um motivo de discórdia grande dentro da sua área de especialidade? Não faz muito tempo, a luta pela Lei Antimanicomial foi abraçada como uma luta pelos Direitos Humanos.

SILVEIRA: E a lei foi um ganho muito importante. Só vou abrir parênteses nessa questão: eu não sou contra a internação, eu interno meus pacientes, mas apenas quando eles precisam. Eu não interno por questão social, ou porque a família está me pressionando, ou porque não se aguenta o paciente em casa. Os abusos que se cometiam nessas internações, isso acho intolerável, se internava muito mais do que era necessário. Hoje em dia se interna ainda, é importante ter espaços de internação, mas é para casos excepcionais, não para a regra. É para surto psicótico ou risco de suicídio. Ponto. Não tem outra aplicação.

CARTA MAIOR: Dos programas que estão sendo anunciados por município, Estados e União, tem algum que não assume essas orientação da internação compulsória?

SILVEIRA: Os programas de intervenção mais eficazes para dependentes são os que adotam o modelo ambulatorial, onde o paciente aprende a se manter abstinente convivendo em sociedade, com a ajuda de uma equipe multidisciplinar. Essa proposta estaria plenamente contemplada nas orientações do Ministério da Saúde e dentro da filosofia do Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), e existe um número mínimo de CAPS para fazer esse trabalho. O problema, no entanto, são as equipes dos CAPS – falta gente e falta gente bem treinada. Existem exceções, é lógico, como o da Água Funda, um modelo que deu muito certo. Porque não é desumano.

CARTA MAIOR: Ainda assim os resultados são melhores do que a internação compulsória?

SILVEIRA: Em regra, os melhores resultados, em relação à dependência química, giram em torno de 35% a 40%, contra os 2% da internação compulsória. Os que sobram, de 60% a 65%, no entanto, não podem ser apenas considerados um fracasso e pronto. O que nós aprendemos nos últimos anos é que mesmo as pessoas que não conseguem ficar em abstinência podem se beneficiar de política de redução de danos. Esse usuário pode não vai ficar completamente abstinente, não vai parar, mas vai se drogar com uma frequência menor, em circunstâncias de menos risco. Do ponto de vista da saúde pública, é um avanço se esse usuário for mantido em condições de estudar, trabalhar, levar uma vida normal.

CARTA MAIOR: A internação ajuda a desintoxicação inicial, ao menos?

SILVEIRA: A desintoxicação não precisa ser feita na internação, e se as pessoas forem internadas, o ideal é que não ultrapasse os 90 dias. Para a grande maioria das pessoas, é possível fazer a desintoxicação com medicamentos que tiram a crise de abstinência. Elas podem levar vida normal. Isso já é possível com o avanço da medicina. Os CAPS-AD (específicos para dependentes de álcool e drogas) têm esse tipo de medicação, mas poucas equipes capacitadas a administrá-las.

CARTA MAIOR: Se as diferenças de resultado são tão grandes, por que ainda se defende a internação?

SILVEIRA: As causas para defesa da internação não são nada nobres. Em primeiro lugar, acho que a ação feita na Cracolândia foi uma mera ação política e midiática. Para uma população menos informada, a impressão que se tem, numa ação policial como essa, é que o poder público está desempenhando muito bem suas funções. A grande maioria das pessoas que defende a internação compulsória ou é despreparada, ou é de médicos que têm interesses econômicos nisso. Como o SUS (Sistema Único de Saúde) não tem leitos para atender uma demanda dessa, vai ter que contratar leitos de hospitais particulares. E isso interessa a muitos médicos.

CARTA MAIOR: O lobby das clínicas é pesado, então?

SILVEIRA: A atual gestão do Ministério da Saúde é muito séria e está tentando fazer o melhor possível, mas enfrenta uma série de problemas. O pior deles é, de fato, o grande lobby da comunidade terapêutica para drogados junto ao SUS. O Ministério está sendo obrigado a engolir goela abaixo essas pressões, em prejuízo de seu próprio projeto, que é muito mais eficiente.