APRESENTAÇÃO

Textos e silêncios pretende ser um espaço reflexivo ecumênico, fundamentalmente voltado para a vida concreta das pessoas a partir de textos e livros, mas também do caminhar contemplativo e meditativo, da vivência amorosa e solidária dos que, de alguma forma, partilharam comigo suas vidas, dores, sofrimentos e esperanças. A eles - e a vocês - devo a minha vida, o olhar que desenvolvi de existência e a experiência cristã do encontro com o Cristo servidor que nos salva. A eles sou devedor, minha eterna gratidão.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

TRANSFIGURAÇÃO

                                  1 Reis 19, 9-18         2 Pedro 1, 16-21         Marcos 9, 2-9
                                                              TRANSFIGURAÇÃO
Na primeira leitura se apresenta um drama humano. Mostra um homem solitário, Elias, perseguido, mas fiel a Deus e à Sua Palavra, ainda que os israelitas tenham abandonado a aliança com Deus, derrubado os altares e matado os profetas. Praticava-se a injustiça. Elias foi à montanha – lugar tido como privilegiado à manifestação de Deus – e esperava encontrar Deus no furacão, no terremoto, no fogo. Deus, porém, se expressou numa brisa suave. Hoje está na moda procurar a Ele em eventos miraculosos, fantásticos, em pastores “superpoderosos”... Mas Ele insiste em dizer que não é aí que reside, mas na calmaria da brisa. Temos de mergulhar na contemplação D’ele, em suas palavras e sua vida, para que possamos ver as maravilhas que tem feito por nós.
Na segunda leitura está dito que somos testemunhas oculares de Sua glória. Testemunhas marcadas que garantem a veracidade e a força da mensagem salvadora do cristianismo – de transformação real e concreta de nossas vidas, de forma a ser evidente um olhar diferente. Fala mais, que o combustível adequado a esta conversão permanente de nossas vidas é uma interpretação correta das Sagradas Escrituras, que não deve ser guiada por leituras particulares, movidas por egoísmos e aspirações que muito pouco tem de ver com o seguimento do Cristo.
Temos agora o relato da transfiguração em Marcos 2, 2- 13. Peço, entretanto, vossa permissão para enquadrar o texto em seu contexto, em sua moldura textual. O texto anterior, de Marcos 8, 31-38, nos mostra Jesus repreendendo a Pedro porque este vê Jesus como um Messias poderoso (e quanto de nós o querem e o procuram apenas desta forma?) ao invés do Servo Sofredor, do Deus serviço, do Deus Amor.
O texto do capítulo 9 mostra que Jesus foi à montanha para orar com seus amigos e ali eles enxergam Jesus conversando com Moisés (simbolizando a Lei judaica) e Elias (simbolizando os profetas). Façamos aqui uma pequena pausa para vos lembrar da suprema importância de oração como condição para enxergarmos a verdadeira face de Jesus, sua condição divina e sua condição absolutamente humana. Será que temos orado o suficiente?
Aqui, algo a mais deve ser dito, a profecia não é falar o que vai acontecer com você ou alguém (isso seria, no máximo, vidência!), mas ser capaz de ver e combater toda e qualquer idolatria, de combater a injustiça e a opressão, de ver que o ser humano hoje trocou Deus pelo dinheiro, o luxo, e o poder, mesmo nas igrejas, o que é profundamente lamentável e triste. Profetizar significa denunciar, questionar as estruturas pecaminosas em que estamos mergulhados e que produzem tantos e tantas esquecidas. Esquecidas por nós e não por Deus, que segue mandando seus profetas e santos e a nós convoca....
Pedro, entretanto, quer logo montar uma tenda, uma Igreja, um local de poder. E Deus e sua manifestação amorosa querem é estar e residir na casa e no meio e no centro da vida das pessoas. Veremos isso adiante... E Deus fala na sombra para que ele, e também nós, escutemos a Palavra de Jesus e que a ressurreição pascalina vai dar condições de entender do que fala, que a vida vence a morte a partir de Deus. Eles ficam com medo, assim como nós, que quando chamados a entender e receber este Deus humano e divino com as exigências derivadas deste encontro nos paralisa. Temos medo de mudar, de nos converter. E, no fundo, percebemos nossa pequenez e nossa fragilidade, da qual normalmente queremos fugir... è na humilodade do reconhecimento de nossa fragilidade que está aberta a ossibilidade de encontrar a Deus, sua intimidade e sua mensagem, não na arrogância, no poder, na prepotência.
Ocorre, porém, que o Mistério eterno da encarnação, deste encontro salvífico, nos fascina e nos atrai para Si. E, mesmo em nossa pequenez, podemos receber o Mistério na Eucaristia, nos Sacramentos, nos encontros amorosos, na Graça de Deus. Jesus, no relato da transfiguração em Mateus fala a Pedro: levanta-se e anda. Levantar em hebraico tem a mesma raiz de ressuscitar. Quando Deus chega e nos toca toda morte, desolação e a paralisia são transformadas em vida e dinamismo. Somos chamados a sermos testemunhas disso.
Por último, mas não por fim, Jesus volta da montanha, volta à multidão e cura um menino surdo e mudo. Leva vida onde há morte. Esta é a glória de Deus. E fala aos discípulos que para fazer isso é preciso confiar na força da oração. Nosso Deus é, pois, um Deus que nos aponta para o serviço e para o testemunho deste amor com os outros. E agora uma boa noticia: Em João, no episódio do lava pés Jesus nos diz que o serviço é o segredo da felicidade, o seu caminho.
Aproveitemos o tempo da quaresma, que se aproxima, para refletir sobre nossas vidas e nosso agir para nos prepararmos dignamente para a experiência da Páscoa.
Como pessoas e como igreja temos vivido e reconhecido a real dimensão de Cristo Jesus?
Leonardo Boff em artigo no livro Teologia para viver com sentido fala algo muito bonito: irmão que ajuda irmão é como uma cidade poderosa. Reconheçamos que somos irmãos em Cristo – todos! – e construamos esta cidade fundada no amor e na experiência do Cristo transfigurado.
Que assim seja!

Gerar vida gerar morte - um assunto complexo!

 Não sou a favor do aborto, definitivamente! Entretanto o presente texto parece ser muito importante pois trata-se de questionar uma atitute simplista e fácil de ser tomada, fundada em dogmatismo e pré- conceitos não históricos. A simplicidade da mensagem amorosa de Jesus precisa se encarnar na real complexidade da vida concreta de nossa humanidade, reconhecendo o diferente, o inusitado, os dramas reais e vitais de pessoas concretas em contextos nem sempre fáceis de serem vividos. Julgar não é nosso departamento, mas um amar compassivo. Contextos vitais que, normalmente, ocorrem em decorrência de uma sociedade injusta e estruturalmente pecadora onde, senão somos os mais beneficiados, somos omissos em nossa atuação pessoal e social. Vale refletir de uma forma menos superficial e dogmática.

Gerar vida e gerar morte - Ivone Gebara

Segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012 - 20h37min
por Adital - Notícias da América Latina e do Caribe
Ivone Gebara é co-autora do livro Terra - Eco Sagrado. 
Espanta-me a facilidade como alguns clérigos e bispos afirmam poder distinguir com clareza as forças que geram vida e as que geram morte. Discorrem como se estivessem num campo de certezas. Nem percebem que o próprio uso dessas duas palavras principalmente nos seus discursos acalorados sobre a importância de escolhermos a vida conduz quase necessariamente a defender armadilhas de morte e provocar formas sutis de violência. O que é vida? O que é morte? É possível que a morte se sustente fora da vida e a vida fora da morte? Não somos nós vida e morte ao mesmo tempo? Não somos sempre aprendizes, caminhando trôpegos, dando um passo depois do outro nas escolhas diárias que tentamos fazer?
Faz algum tempo que a Igreja Católica no Brasil vem desenvolvendo uma linha equivocada de defesa da vida. Quando falam da defesa da vida reduzem o termo vida à vida do feto humano e, assegurados da vida do feto esquecem-se de todos os outros aspectos e personagens reais da complexa teia da vida. Fico me perguntando de novo porque insistem nesse erro e nesse limite lógico condenado também de muitas maneiras pelos muitos filósofos e teólogos da Tradição Cristã. Distanciam-se até das últimas reflexões de Bento XVI que, com justeza, discorre sobre a complexidade da vida no universo, incluindo-se a vida humana.
Espanta-me constatar mais uma vez a pouca formação filosófica e teológica de parte do episcopado e de muitos clérigos que se arvoram a defender a vida, mas atiram pedras em pessoas que consideram "mal-amadas" só por defenderem um ideário diferente do seu. Por que "mal-amada" ou "mal-amado" seria uma forma de menosprezar ou diminuir as pessoas? O que defato querem dizer com isso?
Não somos todos nós necessitados de amor? Não é o amor a missão cristã? Não é para os desprezados, esquecidos e mal-amados que o Cristianismo diz manter sua missão a exemplo de Jesus? É desconcertante perceber que usam expressões desse tipo e instrumentalizam a mensagem cristã para afirmar desacordos de posições, como o fez D. Benedito Simão, bispo de Assis e Presidente da Comissão pela vida do Regional Sul I da CNBB. Em entrevista ao Grupo Estado de São Paulo na semana passada, por ocasião da escolha da Professora e Doutora Eleonora Menicucci como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, o referido bispo classificou a nova ministra de "mal-amada" e, com isso desrespeitou-a e incitou ao desrespeito e à falta de diálogo em relação à responsabilidade pública de enfrentar os sérios problemas sociais.
Seria o bispo então um privilegiado "bem-amado"? A partir de que critérios?
O desrespeito às histórias e escolhas pessoais, às muitas dores e razões de muitas mulheres torna-se moeda corrente em muitas Igrejas cristãs que se armam para uma chamada "guerra santa" sem a preocupação de aproximar-se das pessoas envolvidas em situações de desespero. Usam sua autoridade junto ao povo para gritar palavras de ordem e em nome de seu deus confundir as mentes e os corações.
Perdeu-se a civilidade. Perdeu-se o desejo de consagração à sabedoria e ao bom senso. Perdeu-se a escuta aos acontecimentos e à aproximação respeitosa das dores alheias. Apenas se responde a partir de PRINCÍPIOS e de pretensa autoridade. Mas, o que são os princípios fora da vida cotidiana das pessoas de carne e osso? Qual é o teto dos princípios? Quem os estabelece? Onde vivem eles? Como se conjugam nas diferentes situações da vida? O convite ao pensamento se faz absolutamente necessário quando as trevas da ignorância obscurecem as mentes e os corações.
Nesse momento crítico de descrença em relação a muitos valores humanos, as atitudes policialescas de um ou mais bispos, de clérigos e pastores, assim como de alguns fiéis nos apavoram. A ignorância das próprias fontes do Evangelho e a instrumentalização da fé dos mais simples nos espantam. A democracia real está em risco. A liberdade está ameaçada pelo obscurantismo religioso.
De nada servem palavras como diálogo, escuta, conversão, solidariedade, respeito à vida quando na prática é a violência e a defesa de ideias pré-concebidas que parecem nortear alguns comportamentos religiosos públicos. Seguem esquecendo que não se deve tomar Deus em vão. Não apenas seu nome, pois isto, já o fazem. Tomar Deus em vão é tomar as criaturas em vão, selecionando-os, desrespeitando-as e julgando-as de antemão. Nós todas/os temos palhas e traves em nossos olhos e eu sou a primeira. Por isso, cada pessoa ou grupo apenas consegue ver algo da realidade, que é sempre maior do que nós. Entretanto, se quisermos enxergar um pouco mais, somos convidadas a nos aproximar de forma desarmada dos outros.
Somos desafiadas a ouvir, olhar, sentir, acolher, perguntar, conversar como se o corpo do outro ou da outra pudessem ser meu próprio corpo, como se os olhos e ouvidos dos outros pudessem completar minha visão e audição. E mais, como se as dores alheias pudessem ser de fato minhas próprias dores e suas histórias devida minhas mestras. Só assim poderemos ter um pouco de autoridade com dignidade. Só assim nossa belas palavras não serão ocas. E, talvez, nessa abertura a cada dia renovada, poderemos acreditar na necessidade vital de carregar os fardos uns dos outros e esperar que a fraternidade e a sororidade sejam possíveis em nossas relações.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

como fermento

Como fermento - José Antonio Pagola

Sexta-feira, 15 de julho de 2011 - 11h19min
por Adital
Com uma audácia desconhecida, Jesus surpreendeu a todos proclamando que nenhum profeta de Israel tinha se atrevido a dizer: "Deus está aqui com a sua força criadora da justiça, abrindo caminho no mundo para tornar a vida de seus filhos mais humana e feliz”. É preciso mudar. Devemos aprender a viver, acreditando nessa Boa Notícia: o Reino de Deus está chegando!
Jesus falava com paixão. Muitos foram atraídos por suas palavras. Outros tinham muitas dúvidas. Tudo era uma loucura? Onde se podia ver o poder de Deus transformando o mundo? Que poderia mudar o poderoso império de Roma?
Um dia, Jesus contou uma parábola muito breve. Ela é tão pequena e humilde que, muitas vezes, pode passar despercebida para os cristãos. Ele diz: "Com o reino de Deus acontece como o fermento que uma mulher pegou e escondeu em três medidas de trigo, até ficar tudo levedado”.
Aquelas pessoas simples entendiam o que Jesus lhes falava. Todos já tinham visto suas mães fazerem pão em casa. Eles sabiam que a levedura fica "escondida”, mas não permanece inativa. Silenciosamente, vai fermentando devagar. Dessa mesma maneira Deus está agindo desde o interior da vida.
Deus não impõe de fora, mas transforma as pessoas de dentro para fora. Ele não domina com o seu poder, mas atrai para o bem com seu amor. Não força a liberdade de ninguém, mas se oferece para tornar nossas vidas mais felizes. Então, se quisermos entrar em seu reino, assim temos que atuar.
Está começando uma nova era para a Igreja. Os cristãos teremos que aprender a viver em minoria em uma sociedade secularizada e plural. Em muitos lugares, o futuro do cristianismo dependerá, em grande parte, do nascimento de pequenos grupos de crentes, atraídos pelo evangelho e reunidos em torno de Jesus.
Aos poucos, aprenderemos a viver a fé de maneira humilde, sem fazer muito barulho, nem dar grandes espetáculos. Já não cultivaremos tantos desejos de poder, nem de prestígio. Não gastaremos nossas forças em grandes operações midiáticas. Buscaremos o essencial. Caminharemos na verdade de Jesus.
Seguindo seus desejos, tentaremos viver como "fermento" de vida saudável na sociedade e como um "sal" que, humildemente, se dilui para dar sabor evangélico à vida moderna. Contagiaremos o nosso meio com o estilo de vida de Jesus e irradiaremos a força inspiradora e transformadora do seu Evangelho. Passaremos a vida fazendo o bem. Como Jesus.

AMIGO DOS EXCLUÍDOS

 Texto publicado no adital, do teólogo José Antonio Pagola, que escreveu o belíssimo livro - simples e profundo - adeuqado para pessoas iniciadas na fé e para o catecismo inicial - JESUS, UMA APROXIMAÇÃO HISTÓRICA. Aproveitem!

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 1, 40-45, que corresponde ao 6º Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto
AMIGO DOS EXCLUÍDOS
Jesus era muito sensível ao sofrimento de quem encontrava no Seu caminho, marginalizados pela sociedade, desprezados pela religião ou rejeitados pelos setores que se consideravam superiores moral ou religiosamente.
É algo que Lhe sai de dentro. Sabe que Deus não discrimina ninguém. Não rejeita nem excomunga. Não é só dos bons. A todos acolhe e bendiz. Jesus tinha o hábito de levantar-se de madrugada para orar. Em certa ocasião revela como contempla o amanhecer: "Deus faz sair o Seu sol sobre bons e maus". Assim é Ele.
Por isso, por vezes, reclama com força que cessem todas as condenações: "Não julgueis e não sereis julgados". Outras, narra pequenas parábolas para pedir que ninguém se dedique a "separar o trigo e o joio" como se fosse o juiz supremo de todos.
Mas o mais admirável é a Sua atuação. O rasgo mais original e provocativo de Jesus foi o Seu hábito de comer com pecadores, prostitutas e gente indesejável. O fato é insólito. Nunca se tinha visto, em Israel, alguém com fama de "homem de Deus" comendo e bebendo animadamente com pecadores.
Os dirigentes religiosos mais respeitáveis não o puderam suportar. A sua reação foi agressiva: "Aí tendes a um comilão e bêbado, amigo de pecadores". Jesus não se defendeu. Era certo. No mais íntimo do Seu ser sentia um respeito grande e uma amizade comovedora para com os rejeitados da sociedade ou da religião.
Marcos recolhe no seu relato a cura de um leproso para destacar essa predileção de Jesus pelos excluídos. Jesus atravessa uma região solitária. De repente aproxima-se um leproso. Não vem acompanhado por ninguém. Vive na solidão. Leva na sua pele a marca da sua exclusão. As leis condenam-no a viver afastado de todos. É um ser impuro.
De joelhos, o leproso faz a Jesus uma súplica humilde. Sente-se sujo. Não lhe fala de doenças. Só quer ver-se limpo de todo estigma: «Se queres, podes limpar-me». Jesus comove-se ao ver a Seus pés aquele ser humano desfigurado pela doença e o abandono de todos. Aquele homem representa a solidão e o desespero de tantos estigmatizados. Jesus «estende a Sua mão» procurando o contato com a sua pele, «toca-lhe» e diz-lhe: «Quero. Ficar limpo».
Sempre que discriminamos a partir da nossa suposta superioridade moral a diferentes grupos humanos (vagabundos, prostitutas, toxicómanos, sidoticos, imigrantes, homossexuais...), ou os excluímos da convivência negando-lhes o nosso acolhimento, estamos a afastar-nos gravemente de Jesus.

MILAGRE

MILAGRE
Por ocasião do mês da bíblia de 2011 me senti obrigado a refletir sobre o ardiloso tema do milagre, já que o texto indicado para estudo – Êxodo de 15 a 18 – contêm inúmeros milagres.
Refleti longamente.
Eis o que arrisquei falar, lembrando que a vida é sempre um risco e devemos, sempre, ousar arriscar a serviço da vida:
1. O milagre é graça. Como graça é dada sem o nosso merecimento, de graça! Implica isso então que não pode ser comprado nem deve ser intermediado por falsos apóstolos e pastores que seriam portadores “misericordiosos” e pagos! A graça é por todos e todas derramado, restando o acolhimento e a abertura para ela Tal como uma frágil planta que deve ser posta ao Sol para viver, devemos estar abertos a ela, por uma vida que lhe acolha e alimente.
2. O milagre é fé. A fé que emerge de uma experiência objetiva e concreta com um Deus – Amor que se fez carne e serviço. Uma experiência contagiante, mas que não fica em palavras, considerações e rituais, mas numa entrega de todo o ser num processo de reviravolta e conversão (mudança drástica de caminhos, de atitudes e vivências). Jesus inúmeras vezes falou que “a sua fé te salvou!”, assim como disse que ali não pode fazer muitos milagres em função de falta de fé do povo. A fé, implicada em conversão, transforma vidas – a nossa e a de outros – gerando o inusitado, maravilhoso e milagroso, a experiência de partilhas, amor, vida.
3. O milagre é ver diferente! O agir de Deus se faz transformando os olhares e vivências, eventualmente cotidianas em manifestação da Sua presença. A chegada – sublime- de comida a um mendigo faminto, a acolhida a uma sofrida vitima de enchente ou o surgimento em terra de ninguém - a nossa periferia, largada e abandonada – de um hospital, resultado de luta, pressão e organização popular, é sim sinal da Presença atuante de Deus. Um deus que se fez carne – Jesus Cristo – e que se perpetua naqueles que O acolhem inspirados pelo Santo Espírito na Experiência de amor – serviço. Um Deus encarnado na luta pela vida, nas vivências amorosas e amplas de deus que está, sempre, a acolher, abraçar, amparar e proteger os excluídos – sofridos-esquecidos por nosso meio, no meio de nós. Vivenciamos isto nos olhares e experiências cotidianas e pessoais, mas também na luta contra todos os sistemas políticos, econômicos e religiosos que produzem esquecidos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ANISTIA INTERNACIONAL FALA DO MASSACRE DE PINHEIRINHO


O presente artigo foi escrito no portal adital e demonstra a insatisfação da Anistia Internacional com o que aconteceu em São José dos Campos. Não podemos nos calar perante mais esta violência. Nosssas vozes devem ser ouvidas, agora e nas eleições, inclusive a de governador.....
As inúmeras violações de direitos praticadas durante a desocupação na comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo, sudeste brasileiro, chamou a atenção e indignou não apenas movimentos e organizações do país. Os ecos da violência praticada contra cerca de 9 mil pessoas no último domingo (22) chegou à Anistia Internacional, que está fazendo um chamado urgente ao governo brasileiro a fim de garantir moradia a todas as famílias retiradas de suas casas.
"As autoridades brasileiras devem atender urgentemente as necessidades dos milhares de pessoas que ficaram sem casa. Devem envolver-se ativamente com os moradores para encontrar uma solução em longo prazo que se adapte a suas necessidades, e não um lugar temporário em um albergue, algo que acaba desestruturando as famílias", alertou Atila Roque, diretor de Anistia Internacional Brasil.
A ocupação urbana conhecida como Pinheirinho, completaria no próximo dia 27 de fevereiro oito anos de existência não fosse a determinação da juíza da 6ª Vara Civil do município, Márcia Loureiro, que, desconhecendo a suspensão expedida pelo Tribunal Regional Federal autorizou a reintegração de posse executada no domingo.
A ação aconteceu de forma violenta, inclusive com a utilização de gás lacrimogêneo e balas de borracha, e não deu tempo aos moradores de retirarem seus pertences. As famílias foram acordadas às 6h da manhã, quando teve início a reintegração de posse e foram surpreendidas por uma mega operação com cerca de 1.800 policiais militares que receberam o apoio de carros blindados e helicópteros.
Para forçar a saída das famílias, gás, eletricidade e telefone foram cortados e as moradias foram cercadas. Após a desocupação, alguns moradores receberam permissão para retornar e recolher móveis e objetos pessoais, contudo, muitos encontraram as casas já destruídas e seus pertencem embaixo de escombros.
A contrapartida não foi pacífica, alguns moradores levantaram barricadas, queimaram carros e reagiram jogando pedras e paus. Três pessoas ficaram feridas. No fim da operação, que só terminou na segunda-feira, cerca de 30 pessoas foram presas.
"A operação foi realizada de maneira completamente inapropriada: na madrugada do domingo e sem avisar adequadamente. Seguiu-se adiante com a desocupação apesar de que as negociações com as autoridades para encontrar uma saída pacífica ainda estavam abertas", criticou Atila.
As famílias, sem ter para onde ir, se arranjaram como puderam. Alguns foram para casas de parentes, outras 350 se instalaram em um ginásio e algumas outras estão temporariamente em uma igreja. Até o momento, não há informações sobre as providências que serão tomadas para abrigar adequadamente todos os moradores.
Especulação imobiliária
Quando Pinheirinho começou a tomar forma, em fevereiro de 2004, a região e, consequentemente o terreno, de propriedade da falida empresa Selecta, do grupo Naji Nahas, não tinha valor comercial e estava abandonado. À época, as famílias ainda tentaram legalizar a situação, inclusive solicitando ao governo municipal a compra do terreno, mas nunca receberam resposta positiva. Hoje, a área é uma das mais cobiçadas pelo mercado imobiliário.
Diante desta situação de explícitas violações de direitos e descaso do poder público municipal, Anistia Internacional pede que o governo brasileiro tome providência efetivas urgentemente e respeite o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que proíbe o Estado brasileiro de praticar desocupações forçadas e o obriga a proteger a população deste tipo de ação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Para além do Espírito do Império Global

Para além do Espírito do Império Global
O presente texto trata-se de uma leitura, pessoal e livre, da palestra proferida pelo Professor Dr. Jung Mo Sung na Paróquia Santos Mártires em 2011, apoiada pela Universidade Metodista de São Paulo.
O homem, antes do surgimento do capitalismo, trabalhava para viver e isto “funcionava” numa sociedade que crescia lentamente (em virtude de doenças, pestes, guerras...).
Com a emergência do Capitalismo, entretanto, as pessoas vivem para trabalhar, para obter e acumular dinheiro e posses. Houve, então, uma profunda mudança do sentido da vida, com o surgimento de uma ética protestante acompanhada pelo aumento da população, dos serviços, da tecnologia e da produção.
O Império Global, resultante do desenvolvimento histórico do capitalismo, tem um espírito, uma forma de ser que oferece uma espiritualidade.
Espírito, podemos dizer é o que faz o ser humano levantar para viver e relacionar-se. As Palavras que identificam o Espírito na Biblia – Pneuma e Ruah – apontam para uma boa direção na busca de seu significado: é vento, sopro. É, pois, algo que não vemos mas sentimos os seus efeitos. É aquilo que move algo ou alguém, por uma força que não é sua. Um breve comentário: Espírito de Deus – Espírito Santo – é o vento que nos move para além de nós, usando a nossa pequenez (e apesar dela), para realizar Suas obras, de serviço, encontro, amor.
O Império exige coesão interna, com pretensões de conquista.
O Império Romano, ainda que estabelecido com divisão de poderes – Império e Senado – tinha claro em si uma cultura e uma religião de suporte e apoio. A emergência da República Romana implicou na organização de uma tensão interna do poder e esta tensão – inerente a todo estado democrático (ainda que imperfeito) é uma virtude social.
O Império Romano “oferecia” aos povos dominados o seu Evangelho – sua Boa Nova – que era a paz romana, mantida pelas armas.
O Capitalismo e, em especial o neoliberalismo globalizado e globalizante também tem sua boa nova que fascina e encanta: o crescimento econômico que promete  ( e não entrega a todos) o acesso aos bens de consumo e a prazeres construídos artificialmente pelo aparato midiático.
Este regime tem sim uma clara característica imperial, ainda que não cresça pela força bruta ( ainda que os EUA e a Europa não se furtem a usar as armas se necessário for), pela convergência de poderes e interesses, pela criação de uma “nova” subjetividade e pela construção de um mercado global que pretenda impor “suavemente” os mesmos desejos.
As pessoas hoje se engalfinham e sacrificam seus sonhos e dons, quando não suas famílias e relacionamentos, para entrar e usufruir deste mundo artificial, o que produz estresse, doenças, frustração. Desumanização!
O Império, todo Império, com qual faceta tenha, necessita de um aparato ideológico e cultural para alimentar seu Espírito. Nada nem ninguém deve ter  a petulância de se opor a seu “poder”.
Ocorre, porém, que o Cristianismo bem vivido exige um rompimento com a sua lógica, com o mercado e com a salvação por ele oferecida, já que dialoga e vive com os impuros, esquecidos, marginalizados, tal como o Cristo fez, assim como suas primeiras comunidades – e assim deve ser até hoje.
Paulo bem nos fala que a salvação vem do Espírito que é a capacidade de romper com esta lógica estabelecida e nutrir-se da radicalidade e da liberdade vivida e confiscada pelo amor.
Este é o Espírito, que desce e faz assumir na liberdade, na entrega livre da radicalidade da morte na cruz. Devemos obediência sim, mas ao projeto de Deus, que se faz serviço e entrega. O Santo Espírito, que é este espírito subversivo que não é algo para minha pessoa, nem de minha pessoa, nem de posse de alguém, mas para nós, a cada um de nós, a partir e na vivência comunitária, de entrega e de encontros mútuos, possíveis na intimidade de pequenos grupos – que devem ser articulados para resistir.
Um cristianismo que prescinde da criação de espaços e encontros pessoais e íntimos – impossíveis de obter em grandes celebrações e igrejas, acaba por adquirir a característica de tornar-se um show midiático de estéril  emotividade, sendo impossível enfrentar o espírito do capital nem sequer compreender ou manifestar o Deus de Jesus Cristo, encarnado e humano, nem ampliar nossa humanidade e sensibilidade.
Esta é nossa tarefa e desafio. Enfrentemos.

Epifania

Epifania, dor e amor
Não é hoje que tecerei algumas ideias que tenho ruminado pelos dias sobre saúde e doença. A sedimentação se faz necessária com o tempo para que o texto se faça tecido protetor... Por ora, tangenciaremos o tema.
Nossa vida é uma verdadeira peregrinação em uma sucessão de caminhos, desafios e esperanças. Nem sempre, porém, seguimos na direção ao Centro, ao sentido e ao coração da existência.
Vivemos num mundo em que é valorizada apenas a racionalidade instrumental onde o que importa á a utilidade das coisas que fazemos e construímos. A dimensão humana é, porém, mais ampla, dinâmica, viva, lúdica. Amor não rima com utilitarismo – nem consumismo – mas com encontro de humanidades, olhares, fragilidades, entregas, quem sabe também com dor – que nos aponta nossa pequenez, efemeridade, fragilidade, abertura. O movimento, se é que dá para se chamar assim, New Age baseia-se numa piedade individualista e consumista (de objetos, magias e moda) e na satisfação imediata, em discursos sofisticados e vazios.
O cristianismo, segundo Frei Timothy Radcliffe OP no livro Por que ser cristão, convida-nos a uma liberdade e a uma felicidade especifica, que é a partilha da vitalidade própria de Deus.
Felicidade que brota da espontaneidade de agir e mover-se a partir de um coração simples e compassivo. Frei Timothy assim fala no referido livro:
“A verdade é simples, mas se essa simplicidade não passou pela complexidade da experiência humana, é uma simplicidade infantil, uma simplicidade estridente e desumana, não a simplicidade que vislumbramos indistintamente em Deus.”
O problema é que a Igreja, enquanto instituição, inclusive seus ministros e mesmo como Povo de Deus, normalmente confundimos (somos Igreja, não se esqueça) a verdade com dogmas e sistematizações sólidas, estanques, moralistas e imóveis, movidas por julgamentos e culpas.
O amor de Deus, a oferta Dele passa por uma pedagogia da liberdade que se dá em encontros de irmãos que, comunitariamente, constroem relações de amizade e intimidade.
Esta liberdade, que não se confunde com a liberdade (ou seria liberalidade) de se fazer ou consumir algo, mas de assumir a simplicidade de um coração amoroso e fiel à alegria de vivê-lo na complexidade do real, nos intercâmbios vitais com o Outro, que se faz presente no outro e nos poéticos e epifânicos encontros da vida. Uma liberdade assim dá espaço e se enriquece no encontro
com a diversidade e a alteridade, com o diferente e com as objeções e dificuldades que emanam do concreto.
A Igreja do Amor, do Cristo, independente da denominação a que pertença, é forjada aí numa dialética que assume e incorpora a realidade com seus dramas, incoerências e fragilidades, encontros de intimidade, afeto, solidariedade. É evidente que este encontro pessoal e institucional significa assumir a defesa da vida, em qualquer lugar onde esteja ameaçada, ofendida. Implica, portanto, uma atuação em prol da justiça social, deixando claro o tomar partido dos mais fracos, desprotegidos, oprimidos, impuros. . .
Movimentamo-nos normalmente por perguntas – anseios e desejos – haveremos de tecer este caminhar com doçura e paciência, prestando atenção às perguntas que fazemos, tema – quem sabe - de novos textos.

MORTE E VIDA

Texto a ser lido no domingo por ocasião de celebração eucarística no domingo dia 29 e função do falecimento de Gabriela, ainda bebê. Os fatos importantes da vida devem ser refletidas para além do lugar comum....

                                                              MORTE E VIDA
QUERIDAS E QUERIDOS,
Há uma semana passamos por uma experiência forte, dura, chocante  da passagem da pequena Gabriela para junto de Deus. Penso que é um evento que nos exige reflexão e meditação, ainda que as palavras não deem conta da realidade e não consigam apagar a tristeza de nossos corações.
Veio a minha mente algo inusitado: precisamos jejuar mais, precisamos orar mais! O jejum nos irmana com os que nada têm, suas dores e fragilidades, faz nosso corpo - por pouco tempo é verdade - sentir nossa pequenez, fraqueza, transitoriedade, o que bem nos auxilia a desenvolver a boa e velha humildade, assim como encarar a nossa impermanência. A oração implica em escutar - escutar eu disse - o que o Deus amor nos pede, convoca e entrega. Nossas palavras, corpos e gestos orantes correspondem a nossas respostas de fé, entrega e encontro.
Lembremos que nosso Deus é todo misericordioso, e não apenas todo poderoso, a Sua misericórdia é o que O define, e se podemos tocar timidamente Sua presença o dizemos como Amor, que é sempre - sempre mesmo - eterno. Lembremo-nos também que o homem não é capaz de amar a humanidade toda, mas a cada homem em sua realidade concreta. Deus assim o faz, ama a cada um em sua particularidade. Nestes encontros reais e concretos com pessoas concretas Deus se revela a ti e também tu podes revelar este amoroso Deus às criaturas.
Dois homens em um porto enxergam um enorme navio a viajar para longe até sumir, fugir, morrer. Um comenta seu fim, sua morte. O outro sorri e, mansamente, lhe revela: Não, são seus olhos que são pequenos, ele permanece o mesmo.
O Evangelho nos chega para abrir nossos olhos e corações para ver além da matéria e o aparente.
Cristo também morreu, assassinado e torturado. Até sentiu-se abandonado pelo Pai. Ressuscitou. Aleluia!
Sabemos, ressuscitaremos. Onde há vida há eternidade. No coração de nossos amigos, irmãos e familiares, em nossas obras e sorrisos salvíficos seremos eternos e vivos para sempre. Tenham a certeza que isso podemos saborear desde já, experimentarmos, mastigarmos...
Estamos na Epifania - tempo de Revelação. Saibamos transformar cada olhar nosso, cada abraço, cada ação litúrgica, moral ou corporal em ação sacramental que O revele com alegria. Possamos cada um de nós levar eternidade por onde passarmos.
Que Deus nos auxilie, em especial à família da pequena Gabriela, de modo que possamos reconhecer a presença do Consolador, conhecido como Espirito Santo. Possamos estar sempre a Seu serviço.
Amém.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CRACK - Dá o que pensar....


Texto tirado do site Carta Maior. A vida nos pede reflexão e ação......

Crack é usado por miseráveis porque é barato

A explicação é tão simples que parece óbvia, mas para o especialista Dartiu Xavier da Silveira apenas o preço define o fato de que na Cracolância se fuma o crack. A droga vicia tanto quanto qualquer outra, inclusive o álcool, e as taxas de sucesso no tratamento são as mesmas. A diferença é que, neste caso, o “ser miserável” precede o “fumar crack”. Qualquer política de combate ao uso da droga tende ao fracasso, se não for precedida de uma política social conseqüente. Silveira define o lobby da comunidade terapêutica para drogados junto ao Sistema Único de Saúde (SUS) como “pesado”, e diz que a ação policial na Cracolândia é simplesmente “política e midiática”. A reportagem é de Maria Inês Nassif.

São Paulo - O grande equívoco da ação policial do governo do Estado de São Paulo e da prefeitura da capital na chamada Cracolândia, o perímetro onde se aglomeram moradores de rua e dependentes de crack na cidade, definiu, de cara, o fracasso da operação: o poder público partiu do princípio de que a droga colocou aqueles usuários em situação de miséria, quando na verdade foi a miséria que os levou à droga. Esse erro de avaliação, segundo o psiquiatra e professor Dartiu Xavier da Silveira, por si só já desqualifica a ação policial.

Professor do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (PROAD), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, Silveira há 25 anos orienta pesquisas com usuários de drogas e moradores de rua, normalmente patrocinadas pela Organização das Nações Unidas, e tem sido consultor do Ministério da Saúde na definição do Plano de Combate ao Crack. Nas horas vagas, ele desmistifica os argumentos usados pela prefeitura, município e uma parcela de psiquiatras sobre usuários de drogas.

A primeira contestação é essa: o abandono social vem antes, o crack vem depois. E a política social tem que preceder qualquer ação junto a essa comunidade, inclusive a médica.

Outras desmistificações vêm a tiracolo. O crack é droga pesada, concorda ele, mas o dependente da droga tem as mesmas chances de cair no vício do que um usuário de álcool, por exemplo. “Em qualquer droga existem os usuários ocasionais e os dependentes”, diz o médico. Inclusive no caso do crack. O tratamento por internação compulsória de qualquer uma – álcool, cocaína etc – situa-se na ordem de 2%, ou seja, 98% dos usuários internados compulsoriamente, inclusive os de crack, não conseguem manter abstinência. O tratamento ambulatorial garante a maior taxa de sucesso, de 35% a 40% dos usuários tratados. Isso também vale para os usuários de crack.

Daí, outra mistificação é derrubada pelo médico: não se joga simplesmente fora os outros 60% a 65% que não vão conseguir se manter abstinentes. Do ponto de vista da saúde pública, é um ganho se o usuário se beneficiar de uma política de redução dos riscos. “O usuário não vai parar, mas pode reduzir o uso e até estudar ou trabalhar”, afirma. Isso vale também para o viciado em crack.

Por que o crack e não outra droga? Porque a população miserável só pode comprar o crack. Existem usuários de classe média, concorda Silveira, mas crack, pobreza e população em situação de rua são situações que convergem. “A gente sempre tem essa noção de que a rua é um espaço horrível, e é mesmo, mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que é um alivio para a criança estar fora de casa.”

Com todas essas evidências de que o problema da Cracolândia é fundamentalmente social, Silveira apenas consegue atribuir ações policiais na área e a defesa instransigente que políticos e profissionais de saúde fazem da internação compulsória como ligadas a “causas menos nobres”. Que envolvem também interesses econômicos de alguns médicos.

CARTA MAIOR: Como o crack pode deixar de ser tratado como um caso de polícia para tornar-se política pública?

DARTIU XAVIER DA SILVEIRA: Essa ação (policial) na Cracolândia começou com um equívoco básico, que é atribuir aquela situação à presença da droga. É como se a droga tivesse colocado aquelas pessoas em situação de miséria, e isso não é verdade. Todos os estudos feitos com população de rua mostram que, na realidade, o que leva essas pessoas ao crack é a exclusão social, a falta de acesso à educação, saúde e moradia, ou seja, a privação da própria cidadania e identidade. Isto, sim, é um fator de risco para a droga. A droga vem porque tem um prato cheio para florescer. A droga é consequência, não é causa disso.

CARTA MAIOR: Então, essa história de que o crack está atingindo as famílias de classe média no geral é uma bobagem?

SILVEIRA: Ela atinge também a classe média, mas não com a gravidade com que atinge as pessoas mais pobres, porque a situação delas é grave do ponto de vista social, não apenas do ponto de vista do consumo da droga. É uma população mais vulnerável. E por que é o crack? Porque é a droga mais barata para essa população mais miserável. Se fosse na Europa não seria o crack. As populações excluídas da Europa do Leste também abusam, mas de heroína ou de álcool, porque lá crack seria muito caro. Mas essa é a situação que se vê no mundo inteiro entre as populações excluídas. O abuso de drogas é igual, só que a droga usada é a mais barata. Por conta desse equívoco básico, existe esse discurso que diaboliza o crack, faz da droga a causa de tudo.

CARTA MAIOR: A política social, então, deve preceder qualquer outro tipo de política?

SILVEIRA: Exatamente. Existe outro dado alarmante, e as pessoas se esquecem disso, que é um dado epidemiológico. As pesquisas mostram: pode pegar qualquer droga, lícita ou ilícita – álcool, cocaína, qualquer substância. Existem sempre os usuários ocasionais e as pessoas que são dependentes. E isso ocorre também com o crack. Até para drogas pesadas existem usuários ocasionais. Do ponto de vista médico, as pesquisas são direcionadas para entender isso: por que, por exemplo, pessoas conseguem beber socialmente e outras viram alcoólatras. Por que tem gente que consegue cheirar cocaína esporadicamente e tem gente que é dependente? As respostas são muito parecidas. O que vai diferenciar um usuário ocasional de um dependente são outros fatores que não têm nada a ver com a droga: se a pessoa tem outro problema psíquico associado, como depressão e ansiedade, e começa a usar o álcool e a cocaína para resolver problemas, ou situações de muito stress... Numa situação como a das pessoas que vivem na Cracolândia, ser morador de rua já é, por si só, uma situação de risco.

CARTA MAIOR: No caso de criança é uma situação de abandono completo? Não dá para imaginar uma criança com grande problema psíquico ou stress em condições minimamente normais, não é?

SILVEIRA: Sim, é uma situação de abandono completo. O stress que estou falando é de forma geral, que afeta também a classe média. Na situação da Cracolândia, o abandono é fundamentalmente a situação de risco. Têm crianças de classe média que abusam de algumas drogas também, mas elas normalmente vêm de famílias muito desestruturadas, têm pais muito agressivos. Esse não é um ‘privilégio’ da classe desfavorecida. Mas numa situação extrema de crianças de rua, o risco é altíssimo, porque essa criança é privada de tudo.

CARTA MAIOR: Como é a família de uma criança de rua e usuária de droga? Ela tem alguma possibilidade de reatar laços afetivos?

SILVEIRA: Algumas famílias têm condições, e quanto a gente identifica essa possibilidade, faz a intermediação. Outras famílias, não. A gente tem sempre essa noção de que a rua é um espaço horrível – e é mesmo horrível morar na rua – mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que ir para a rua é um alívio para a criança. Por exemplo, muitas crianças vão para a rua porque não aguentam o abuso sexual dentro de casa, por parte do pai, ou do irmão mais velho. Ir para a rua pode ser uma progressão positiva, pode representar escapar de uma situação muito inóspita de vida. Tem uma situação até emblemática, relatada em um trabalho que fizemos com adolescentes de rua. Identificamos vários adolescentes usando drogas. A uma delas, a gente perguntou: por que você usa droga, o que você está procurando na droga? A resposta dela foi um tapa na cara da gente. Ela virou e disse: ‘olha, tio (veja você, uma cabecinha de criança, me chamando de tio), eu nem gosto muito do efeito da droga, mas o problema é que para eu sobreviver na rua eu preciso me prostituir, e para eu suportar uma relação sexual com um adulto só sob o efeito de droga.’ Agora, como dizer que a droga é um problema na vida dessa menina? A droga é uma forma de solução, para ela conseguir sobreviver. A droga já é consequência de uma situação de prostituição que ela foi obrigada a encarar por omissão do Estado, da sociedade como um todo. O depoimento dessa menina torna todas essas justificativas para as ações feitas na Cracolândia uma hipocrisia, uma total falta de sensibilidade para reconhecer o fenômeno.

CARTA MAIOR: Outro mito do crack é que é a droga definitiva, que é impossível livrar-se dela. Isso é verdade?

SILVEIRA: É um mito completo. Ela não é uma droga pior que heroína, que a cocaína, em termos de grau de dependência. É difícil sair? É, mas é difícil como qualquer droga. O crack não é pior.

CARTA MAIOR: Então, para essa população, a questão é muito mais uma política social do que médica.

SILVEIRA: Exatamente. Por isso que os trabalhos mais bem-sucedidos são os feitos in loco, por meio de educadores de rua, desses agentes de saúde. Não são médicos que vão fazer uma consulta médica na rua. A gente chama de consultório de rua mas não é um consultório. A equipe vai investigar o que está acontecendo caso a caso, se a pessoa está com falta do quê, de lugar para morar, ou o problema é o relacionamento com a família, ou o problema é assédio de algum tipo, por parte de alguém. É uma coisa mais social, mesmo.

CARTA MAIOR: É um encaminhamento de assistência social e os profissionais de saúde só entram quando for o caso para aquela pessoa?

SILVEIRA: Frequentemente os aspectos psicológicos são muito relevantes, porque essas crianças estão psicologicamente abaladas – não apenas elas, aliás, mas os jovens, os moradores de rua em geral. Mas a intervenção médica, mesmo nesses casos – e não estou desqualificando a importância dela – não é primordial.

CARTA MAIOR: Então a intervenção médica é só para casos extremos.

SILVEIRA: Exatamente.

CARTA MAIOR: E desde que não seja internação compulsória?

SILVEIRA: Desde que não seja compulsória. As experiências de internação compulsória são simplesmente um fracasso. As taxas de insucesso chegam a 98%. Na hora que você interna compulsoriamente uma pessoa, ela não vai ter acesso à droga porque está em isolamento social. Nessa condição, é fácil para um dependente se manter abstinente. Na hora que sair de lá e voltar para os problemas da vida, no entanto, essa pessoa recai. 98% recaem. Isso, sem questionar que o governo não tem equipamento para fazer internação compulsória de todo mundo. As internações são feitas geralmente em verdadeiros depósitos de drogados. Parecem mais um campo de concentração do que uma estrutura hospitalar.

CARTA MAIOR: E é tudo privatizado, não é?

SILVEIRA: E a privatização não melhorou nada essa situação. Os hospitais psiquiátricos privados têm um custo baixíssimo. A economia é feita com a contratação de pessoal. Não existem equipes adequadas para tratar esses dependentes. É um trabalho muito porco, de segunda categoria.

CARTA MAIOR: Esse atendimento privado se misturou muito com religião?

SILVEIRA: Sim, e isso não é bom. Eu não tenho nada contra religião, não é uma questão de princípio, mas o que se vê são diversos grupos religiosos montando o que eles chamam de “comunidades terapêuticas” que partem do princípio de que só a intenção e a conversão religiosa são fator de cura. A maioria dos casos não tem bom resultado. E por quê? Porque a gente sabe que o melhor tipo de tratamento para a dependência química é feito por uma equipe multidisciplinar. A grande maioria das comunidades terapêuticas não tem equipes para trabalhar com dependentes.

CARTA MAIOR: O relatório do Conselho Federal de Medicina sobre as clínicas de tratamento para drogados é impressionante.

SILVEIRA: O relatório é dramático. E é verdadeiro. No relatório tem até denúncias de abuso, espancamento, maus-tratos a pacientes, ou seja, não são pessoas minimamente capacitadas para darem conta do problema que estão lidando com os usuários nesses lugares.

CARTA MAIOR: Isso acaba sendo a reintrodução do manicômio, mas para dependente químico?

SILVEIRA: Exatamente. A Lei Antimanicomial vai por água abaixo, porque o sistema manicomial está voltando sob a justificativa de que a droga demanda uma intervenção urgente. E isso não é verdade.

CARTA MAIOR: Isso está sendo um motivo de discórdia grande dentro da sua área de especialidade? Não faz muito tempo, a luta pela Lei Antimanicomial foi abraçada como uma luta pelos Direitos Humanos.

SILVEIRA: E a lei foi um ganho muito importante. Só vou abrir parênteses nessa questão: eu não sou contra a internação, eu interno meus pacientes, mas apenas quando eles precisam. Eu não interno por questão social, ou porque a família está me pressionando, ou porque não se aguenta o paciente em casa. Os abusos que se cometiam nessas internações, isso acho intolerável, se internava muito mais do que era necessário. Hoje em dia se interna ainda, é importante ter espaços de internação, mas é para casos excepcionais, não para a regra. É para surto psicótico ou risco de suicídio. Ponto. Não tem outra aplicação.

CARTA MAIOR: Dos programas que estão sendo anunciados por município, Estados e União, tem algum que não assume essas orientação da internação compulsória?

SILVEIRA: Os programas de intervenção mais eficazes para dependentes são os que adotam o modelo ambulatorial, onde o paciente aprende a se manter abstinente convivendo em sociedade, com a ajuda de uma equipe multidisciplinar. Essa proposta estaria plenamente contemplada nas orientações do Ministério da Saúde e dentro da filosofia do Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), e existe um número mínimo de CAPS para fazer esse trabalho. O problema, no entanto, são as equipes dos CAPS – falta gente e falta gente bem treinada. Existem exceções, é lógico, como o da Água Funda, um modelo que deu muito certo. Porque não é desumano.

CARTA MAIOR: Ainda assim os resultados são melhores do que a internação compulsória?

SILVEIRA: Em regra, os melhores resultados, em relação à dependência química, giram em torno de 35% a 40%, contra os 2% da internação compulsória. Os que sobram, de 60% a 65%, no entanto, não podem ser apenas considerados um fracasso e pronto. O que nós aprendemos nos últimos anos é que mesmo as pessoas que não conseguem ficar em abstinência podem se beneficiar de política de redução de danos. Esse usuário pode não vai ficar completamente abstinente, não vai parar, mas vai se drogar com uma frequência menor, em circunstâncias de menos risco. Do ponto de vista da saúde pública, é um avanço se esse usuário for mantido em condições de estudar, trabalhar, levar uma vida normal.

CARTA MAIOR: A internação ajuda a desintoxicação inicial, ao menos?

SILVEIRA: A desintoxicação não precisa ser feita na internação, e se as pessoas forem internadas, o ideal é que não ultrapasse os 90 dias. Para a grande maioria das pessoas, é possível fazer a desintoxicação com medicamentos que tiram a crise de abstinência. Elas podem levar vida normal. Isso já é possível com o avanço da medicina. Os CAPS-AD (específicos para dependentes de álcool e drogas) têm esse tipo de medicação, mas poucas equipes capacitadas a administrá-las.

CARTA MAIOR: Se as diferenças de resultado são tão grandes, por que ainda se defende a internação?

SILVEIRA: As causas para defesa da internação não são nada nobres. Em primeiro lugar, acho que a ação feita na Cracolândia foi uma mera ação política e midiática. Para uma população menos informada, a impressão que se tem, numa ação policial como essa, é que o poder público está desempenhando muito bem suas funções. A grande maioria das pessoas que defende a internação compulsória ou é despreparada, ou é de médicos que têm interesses econômicos nisso. Como o SUS (Sistema Único de Saúde) não tem leitos para atender uma demanda dessa, vai ter que contratar leitos de hospitais particulares. E isso interessa a muitos médicos.

CARTA MAIOR: O lobby das clínicas é pesado, então?

SILVEIRA: A atual gestão do Ministério da Saúde é muito séria e está tentando fazer o melhor possível, mas enfrenta uma série de problemas. O pior deles é, de fato, o grande lobby da comunidade terapêutica para drogados junto ao SUS. O Ministério está sendo obrigado a engolir goela abaixo essas pressões, em prejuízo de seu próprio projeto, que é muito mais eficiente.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal

NATAL
Caros irmãos, queridas irmãs,
Celebremos hoje o Natal. Jesus nasceu.
A festa do Natal não é a maior festa cristã, que é aquela que se dá no período da quinta feira santa à Páscoa, culminando com a Ressurreição. Segue-lhe em importância o Pentecostes, quando recebemos e acolhemos o Santo Espírito que nos envia ao mundo em missão salvadora.
O Natal, porém, é o maior mistério. Deus se faz homem!
Não é pouca coisa não...
Devemos, entretanto, tomar cuidado, muito cuidado. A celebração, a boa celebração, a verdadeira celebração não se dá na ceia natalina ou mesmo na Igreja.
Vejamos:
Jesus nasce como um ser aí, largado, alojado humildemente, sem luxos, como pobre. Num tempo em que se considerava que Deus residia no Templo, controlado pelos sacerdotes e cujo seguimento era pautado por regras de pureza e controle (sempre pagos), Ele, o Deus da vida, vem até nós numa manjedoura. Deus é deslocado do Templo para a intimidade comunitária, para o encontro vivificante dos seres humanos. Nosso corpo é chamado a ser morada do Senhor, inclusive na própria Eucaristia.
Ele nasce de uma mulher que certamente era considerada impura para os costumes religiosos da época.  Caso tenha curiosidade, leia o Livro de Levítico, em especial os capítulos 12 e 15, para entender como as mulheres eram tratadas e vistas. A mulher menstruada já era impura, imagina uma mulher grávida, sem ser de seu marido. Um escândalo!
Muito falamos de Maria, e é justo, mas veja José, o pai do Cristo. Ele ficou numa situação um tanto delicada. Caso denunciasse a Maria, ela seria apedrejada e apedrejada até a morte, dela e de Jesus. Preferiu, entretanto, acolher a Boa Nova misteriosa ao mergulhar na experiência que lhe falava ao coração, a experiência de Amor, a Maria e a Deus, e, silenciosamente e discretamente, se colocou a serviço do Deus amoroso. Graças a ele Jesus veio e fez seu caminho de graça salvação que o levou à cruz e a morte e à ressurreição, e somos testemunhas vivas disso.
A grande novidade do cristianismo não é a de nos levar aos céus, símbolo de totalidade, mas de encarnar a Deus aqui, por Cristo, em Cristo, com Cristo. É Deus que nasce, que vem, quem desce, quem nos acolhe como homens integralmente. Um filosofo ateu, seu nome não me vem à memória, que o único conceito cabível para Deus seria excesso, superabundância. É isso! Superabundância! Superabundância não de bens, de consumo, de presentes, de alegrias passageiras, de vitórias pessoais. Superabundância de Paz, que vem com serviço ao outro, bondade, amor, alegria de uma humanidade a nossa e de todos os outros homens e mulheres, acolhida e assumida plenamente.
Deus se faz homem, a mensagem do Natal é esta.
Tudo o que afeta, judia, atordoa, machuca, mata o homem, qualquer homem – não importa a cor, a raça, às opções de vida, afeta a Deus e exige nossa intervenção.
O nascimento de Jesus nos exige a adesão a toda causa humana, a defesa da vida, aos Direitos Humanos, aos excluídos, aos marginalizados. Jesus não nos pede discursos, mas atitudes: acolher o pobre, a viúva, o estrangeiro.
O texto de Tito nos lembra que a graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens.
 No texto de Isaias está manifestada a esperança de um Messias que venha poderoso e construa um mundo justo.
Deus, entretanto, nos vem numa singela manjedoura, na Galiléia, vindo de Nazaré, cidade desprezível. Deus se fez homem, se fez fraco, se fez gente de carne e osso. Deus se manifesta como Todo amoroso, Todo compaixão. São em gestos simples, despojados e amorosos que ele se revela, gestos estes que somos chamados também a fazer e viver. Em nossa fragilidade e pequenez estamos plenamente aptos a Lhe servir servindo a humanidade, celebrando a vida por onde andamos.
Inspiremo-nos em José, em sua discrição, em sua humildade. Que Deus apareça e não nossa pessoa, nosso nome, nosso cargo, nossa Igreja.
E assim permitir que a Glória de Deus se revele agora e sempre.
Amém! Assim seja!
Deus nos permita e guarde.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

EVANGÉLICO NÃO, EVANGELHOS

Esta fala foi feita por mim no dia 11 denovembro em São Paulo. Espero que gostem. Retirei detalhes, de caráter paroquial.
Irmãs e irmãos,
A duas semanas nos foi relembrado o significado do Advento como memória da vinda do Senhor Jesus, mas também que devemos fazê-lo renascer em nossos corações.
Semana passada o tema da conversão emergiu, sempre exigência incômoda – que João Batista pedia, e segue pedindo.
Hoje a primeira leitura, do livro do profeta Isaías, nos fala de um mundo em que quem planta colhe o alimento e come, quem constrói casas nelas mora, crianças não morrem antes da hora, ninguém trabalha inutilmente.... É uma promessa de Deus! Uma promessa que perdura, que foi feita para o povo sofrido daquele tempo mas também para nós, para hoje, para nossos empregados, para os nóia, para os esquecidos de hoje.
Olhando, porém para o mundo ao nosso redor o que vemos?
Deus veio? O messias veio?  Cadê seu Reino?
Se não vemos como podemos nos dizer cristãos?
Há ainda morte, opressão, guerras, injustiça como resultado de um mundo consumista e que visa exclusivamente o lucro.
É necessário sim uma nova e permanente conversão – pessoal, institucional e social – um novo Advento em que Cristo renasça em nós e no mundo.
João batista preparava um novo caminho, uma nova forma de pautar a vida e seu batismo único acolhia seus novos membros, que incomodavam os donos do poder -não se esqueçam que sua cabeça foi oferecida a prêmio em banquete.
Jesus vem ser batizado por ele, mesmo sem precisar de rituais de pureza ou conversão sinalizando que:
    1. Deus se fez homem acolhendo toda a humanidade e fazendo parte da comunidade dos homens.
2.      O Espírito de Deus estava sobre ele e sobre ele permaneceu revelando a glória de Deus.
O Espírito de  Deus! Espírito, em grego pneuma, em hebraico Huah, quer dizer vento, que aponta sempre para algo de caráter dinâmico, em movimento. Tal como o vento não o vemos, mas sentimos seus efeitos. O Espírito é aquilo que move alguém, por uma força que não é sua.
O mundo também têm seu Espírito – de divisão, por isso demoníaco – por isso se desenvolve e se transforma continuamente.
O Evangelho de Roma pautava-se na paz romana, armada. A boa nova do Capitalismo é a do crescimento econômico e o acesso aos bens de consumo, mas não para todos.
O Evangelho de Jesus traz uma salvação integral que tem como critério a vida e os ser humano. A salvação vem sim de um Espírito que traz a capacidade de romper com a lógica estabelecida, exercendo a liberdade do  amor e assumindo o projeto de Deus, de amor e serviço, a radicalidade de seguir o caminho de jesus, o caminho da cruz. Daí o significado do sinal marcado em nós e em nossos corações – o sinal da cruz.
Precisamos seguir nos convertendo, experimentar e vivenciar o amor, a perceber – e dar graças – por todos os que revelam Seu Espírito, agindo na luta pela justiça, no acolhimento e no serviço aos esquecidos, sofridos, marginalizados. Aí está Deus e sua Glória!
Quero aqui fazer um breve parêntesis em que gostaria de testemunhar  como fiquei impressionado nesta semana com uma reunião que assisti  dos Narcóticos  Anônimos com o serviço mútuo, a gratuidade, a fraternidade, a intimidade, o respeito e o carinho e a compaixão vivida. Quem dera todas as nossas comunidades fossem assim.
Tenho visto pessoas simples e sem importância em trabalhos simples, em locais sem importância testemunhando este amor exigente que Jesus nos trouxe e deu testemunho em Sua vida. Experiências de Deus e de Seu Reino.....
Não podemos nos imobilizar pelo fatalismo midiático, da exploração da dor e da morte e nos guiar pelas virtudes cristãs – a fé, a esperança e a caridade – a maior delas! A força da igreja é a força das comunidades, escola e testemunha do amor de Deus, que é e deve ser a força espiritual de enfrentamento com o espírito do mundo.
Não podemos nos contentar em ser evangélicos – seguidores de um caminho ou doutrina. Seguir Jesus é muito mais que isso! Precisamos ser Evangelho -boa noticia, noticia de vida e de amor, onde estivermos. Ser manjedoura de Deus na história!
O evangelho de Marcos se inicia falando assim: Começo do Evangelho de Jesus, o Messias...
Começo!
Sejamos sua continuação...
Sejamos Evangelho.
Mergulhados no Santo Espírito, unidos e alimentados na vida comunitária e pela eucaristia.
Com a Graça de Deus que acolhe e alimenta nossa pequenez.
Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja conosco.
Amém
 

sábado, 15 de outubro de 2011

A força libertadora do belo nas celebrações e práticas sociais


O presente Texto é o resultado de reflexões feitas a partir de aula dada pelo professor Dr. Jung Mo Sung na Paroquia Santos Mártires, situada no Jardim Angela, que fica na periferia da cidade de São Paulo. Pedimos que os méritos que eventualmente tenha este texto seja dado ao Professor, sem o qual não teria sido feito, e os defeitos e inconsistências sejam postos a meu encargo. Este texto não pássou por revisão pelo referido mestre, a quem agradeço.

A força libertadora do belo nas celebrações e práticas sociais 

A teologia da libertação tem um olhar afiado nas questões de desigualdade social, mas pouca preocupação estética.
A hierarquia católica tem uma preocupação de que os estudos teológicos sejam voltados à verdade, sendo que esta está determinada, absoluta e fixa, norteada pelos saberes articulados pela hierarquia. O olhar privilegia, portanto, a ortodoxia.
A teologia da libertação preocupa-se com a ortopráxis, a prática concreta, norteada pela idéia do bem, da ética e da justiça.
O belo, porém, normalmente é um campo estudado pela estética e, ao menos hoje em dia, o importante é parecer bonito. A feiúra e a beleza são conceitos paralelos e interdependentes, onde um depende do outro. O belo, entretanto, tem uma capacidade mobilizadora, tanto pessoal quanto social.
O agir político não é um ‘sair fazendo’ em um processo de luta e tensão, e suas características dependem do tipo de movimento envolvido.
O processo de resistir implica em ativar o instinto e pode implicar em agredir o adversário ou mesmo procurar eliminar o que a ameaça. A pressão leva, muitas vezes, as pessoas que sofrem a agredir e não a se constituir em uma luta de caráter libertadora.
O agir e a força libertadora implicam em uma decisão, que canaliza a direção do agir libertador.
A pessoa, para sair da dimensão de resistência e violência tem de fazer uma caminhada em que sua dignidade vai ganhando corpo e percepção e o senso de responsabilidade – que implica em resposta e resposta transformadora. Não se trata de desenvolver uma culpa ou culpado – que pode implicar na eliminação deste, mas transitar para um paradigma amoroso e integrativo, dialógico e ampliado.
O belo tem, entretanto, a capacidade de ajudar na medida em que canaliza a direção do agir libertador, diminuindo a angústia e a ansiedade, além de permitir a pessoa a desenvolver um olhar diferente assim como novos horizontes, caminhos e possibilidades.
A vida não funciona como está previsto nos livros!
O agir transformador implica em refazer amizades e espaços humanizantes já que ela não existe como ser isolado, mas como ser de relação com os outros. Isolado, usualmente, caminha para a depressão e à patologia. O agir político deve então implicar no resgate da dignidade dos seres atuantes – Gandhi diria que todos os envolvidos na contenda – e a auto-estima.
A dimensão estética envolve o corpo, a natureza, os bens de consumo, assim como o processo de acolher e fazer o outro sentir-se bem, tal como o sorriso pode iluminar os encontros e mostrar aceitação. A estética, sem ética, não realiza a dimensão humana.
No processo de apropriação de si mesmo a pessoa não pode se amar se não percebe os outros lhe amando. A pessoa acaba por se ver com os olhos das pessoas que são importantes para si.
A experiência fundamental da comunidade cristã é a percepção de que Deus Ama e isto é Graça, sem envolver mérito, para todos, portanto. O próprio processo penitencial da confissão é um mérito pelo fato que o pecador / sofredor ser acolhido aceito e transformado a partir de sua realidade histórica e concreta.
O belo pode levar ao outro a percepção a percepção de sua importância, dignidade e sensibilidade, resgatando seu valor.
É costume dizer que Deus é todo poderoso, mas isto não é verdade, ao menos não é isso que aparece no Novo Testamento.
Para o cristão Jesus é a palavra e em Heb. 3 fica claro que o ser de Deus está em Jesus. O evangelho é, pois, o livro que fala a Palavra que é Jesus, expressando a verdadeira face Dele que é Amor.
A identificação de Deus com o Poder, que pode impor sua vontade implica em uma idolatria. A força de Deus, outrossim, é algo diverso, pois permite movimento... O amor não se obriga, mas me escolhe e pressupõe a liberdade. Uma liberdade tão radical que independe de resultados e de sucesso já que persiste na dificuldade e no fracasso. O processo de poder implica em obrigação, em obediência, mas não em conversão, nem em atitudes mais amorosas nem humanizantes.
A Igreja, em Pentecostes, mostra que sua força, emanada da experiência salvífica, produz coragem para falar que o Templo está errado e que Jesus ressuscitou.
A experiência do belo fortalece a força e a beleza de um sorriso de criança revela o bem que expressa a verdade.
Numa sociedade capitalista a plástica acaba por criar pessoas incapazes de expressar emoções!
Já os deficientes são escondidos e excluídos pela sociedade para ficarem invisíveis, pois mostram a vulnerabilidade das pessoas, da sociedade e de suas estruturas infames.
A experiência do belo pode ir se acumulando e produzir a sensação de vazio, simplicidade de cuidado para o outro, carregando por si um enorme simbolismo, inclusive libertador, pois aponta para a valorização do ambiente e das pessoas a que dirige.
O que ocorre no dia a dia de nossa sociedade é algo bastante diverso já que você é valorizado pelo que pode produzir ou acrescentar ao mercado, o que traz conseqüências inevitáveis para os que não podem aprender ou gerar valor. A pessoa excluída e agredida mais e mais acaba por se agredir ou agredir a outras pessoas. O capitalismo sobrevaloriza a utilidade e a produção.
O projeto de Deus, expresso em Gêneses no Jardim do Edem, mostra uma criação com frutos gostosos e belos de se ver!
Nossa vida concreta, entretanto, cheia de limitações e opressões é diversa, presa a conceitos desumanizantes e a violência em relações que se fundam na busca incessante de ser útil (e serem valorizados por isso), sem experiências de gratuidade e vivências amorosas. A vida humana, porém, é cheia de oportunidades para experiências de outra dimensão, da gratuidade, do amor e da entrega, da Graça que revela Deus ao mundo.
Todos, em algum momento da vida, temos a experiência de fundo, um sofrimento que é diferente para cada pessoa e assim deve ser acolhido e enfrentado. A saída deste processo implica em retomar a força que vem do Amor a si, que brota do Amor vivido na relação concreta com o outro, que procede de Deus. Deus amor e serviço se revela e depende, muitas vezes, da forma como a comunidade cristã expressa sua vitalidade e seu serviço, para permitir a percepção do sentir-se amado. Muitas e muitos têm hoje, mesmo na Igreja, a experiência de ser valorizado apenas se pessoa de sucesso, bela e rica e quantos não têm a singeleza do amor familiar e fraterno, base de nossa humanidade.
A dimensão do belo tem por característica aumentar a sensibilidade humana, a pertença e o vínculo com outro e a percepção do Amor a si dirigido.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

NOSSO PAIS VIROU UMA POCILGA!!!!!!!!


Faço minhas as palavras abaixo....
Precisamos nos movimentar mais, reclamar menos, exigir mais - inclusive de nós mesmos!
Nosso país virou uma pocilga
José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário
O dia 30 de agosto de 2011 vai ficar marcado na história do nosso país como a data na qual o
Brasil, de modo definitivo, virou uma pocilga. De fato, neste dia, 265 deputados federais absolveram
a colega Jacqueline Roriz, considerando normal o fato de que ela tenha se beneficiado do
propinoduto do Mensalão do DEM, liderado pelo ex-governador de Brasília, José Roberto Arruda.
Mesmo a deputada tendo admitido publicamente que recebeu a propina, seus pares a inocentaram
pelo simples fato de que ela não cometeu o crime na atual legislatura. Como se não bastasse os
últimos casos de corrupção na esfera pública, as pessoas honestas deste país foram obrigadas a
respirar mais este mau cheiro insuportável de corrupção que permanece impune.
Meu pai, hoje com 82 anos, só teve a oportunidade de estudar até a terceira série do ensino
fundamental. Porém, frequentou a universidade da vida e, por meio dela, se tornou pós-doutor em
vivências e em experiências. Como “professor de vida” nos ensinou muitas lições. Uma delas, que ele
ama repetir até hoje, soa assim: “Quem faz um cesto, faz um cento”. Ou seja, o corrupto que fez uma
coisa errada uma vez, o fará sempre. Além disso, ao absolverem a colega corrupta, os 265 deputados
do nosso parlamento admitiram estar com “o rabo preso”. Fica-nos a impressão de que também eles
devem ter participado ou têm intenção de participar de atos de corrupção como este e, por isso, não
se sentiram livres para punir uma colega flagrada “com a mão na botija”. Com isso assinaram o
próprio diploma de corruptos, que deveriam colocar em uma moldura chique e pendurá-lo na porta
de entrada de seus gabinetes.
Mais uma vez ficou evidente a urgência da ética em nossa sociedade brasileira. Por ética
entendemos a forma de ser no mundo por meio da qual o sujeito concreto se sente comprometido
com a dignidade do ser humano e com a justiça social. Leonardo Boff define a ética como sendo tudo
aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente em que vivemos para que seja uma moradia saudável.
Assim sendo, a ética não é outra coisa senão cuidar para que a Terra seja sempre uma morada
saudável. É cuidar das pessoas de modo que elas, sentindo-se bem, possam, de fato, comprometerse
com a felicidade das demais. Portanto, cuidado e ética são sinônimos.
Hoje se fala demais de ética. Porém, isso não é o bastante. É indispensável que se desenvolva
uma prática que torne eticamente correto o comportamento moral das pessoas em sociedade. Diante
de fatos estarrecedores como este, ficamos escandalizados e decepcionados. Mas seria necessário
admitirmos, com toda sinceridade e honestidade, que a corrupção está impregnada na cultura e na
cabeça de todos nós. Estes 265 deputados que absolveram a colega corrupta não chegaram ao
parlamento por acaso. Não tomaram o poder à força. Foram eleitos por brasileiros e por brasileiras.
Logo, mais da metade dos eleitores de nosso país é formada de corruptos que elegem corruptos.
Aliás, não é difícil constatar como a corrupção está semeada entre nós. É bem conhecido o
nosso “jeitinho brasileiro” de resolver os problemas. Estamos acostumados a práticas como “pagar
por fora, pagar uma cerveja, pagar um guaraná, dar uma gorjeta” etc. Há o funcionário que
massacra o colega, o estudante que copia e cola, o funcionário público que assina o ponto digital e
some do seu local de trabalho, o professor que faz de conta que dá aula, o garoto riquinho que é
flagrado cometendo delito e liga para o pai dele pedindo que fale com o policial etc. etc. Reclamamos
da corrupção dos políticos, mas, infelizmente, a “cultura da corrupção” está embutida em nossas
cabeças. E quando é para “levar vantagem em tudo”, não hesitamos em lançar mão das formas mais
simples e comuns de corrupção, como, por exemplo, furar a fila no banco, mesmo que
disfarçadamente.
Falta-nos a coragem de parar para refletir sobre essas coisas; falta-nos sensibilidade e
racionalidade para entendermos que o corrupto não chega sozinho à esfera pública. Ele é levado por
eleitores, por boa parte daqueles mesmos que, hipocritamente, ficam escandalizados quando
escutam o noticiário sobre a corrupção.
Mas para que possamos mudar esta situação é indispensável que não confundamos ética com
moral. Esta última compreende normas, regras de ação e fatos a ela relacionados. A moral seria um
conjunto de princípios e de prescrições que as pessoas de um determinado grupo humano
consideram válidos, bem como os atos reais deles decorrentes. A moral é normalmente determinada
a partir da cultura, da filosofia e da ideologia dominante. Na moral as pessoas se atêm às normas
fixas que lhes possam assegurar que elas não estão erradas. Porém, na ética as pessoas escolhem o
que fazer não a partir do que “não está errado”, mas a partir da consciência de justiça e de dignidade
humana que possuem. Bauman, filósofo e sociólogo polonês radicado na Inglaterra, defende que,
em muitos casos, precisamos transgredir as normas da moral para fazer prevalecer a ética. Isso
porque nem sempre o que é moral é o melhor para seres humanos reais. Às vezes a ética precisa ser
“imoral”.
No caso da absolvição da deputada, seus colegas entenderam que tal ato não era “imoral”,
uma vez que ela não tinha recebido a propina na atual legislatura. Ao fazerem isso os deputados
seguiram a moral e ofenderam a ética. O fato deixou também evidente que os eleitores desses
deputados são moralistas. Eles se escandalizam com a corrupção e se decepcionam com a política,
mas na hora de votar, não pensam no bem comum, não usam a razão. Do contrário não teriam
votado nesses 265 deputados que absolveram uma colega que confessou publicamente a prática de
um ato de corrupção.
Nosso país virou uma pocilga. Sente-se o mau cheiro por toda parte. E não adianta fazer
protestos em frente ao Congresso Nacional, lavando o chão e as rampas. Precisamos lavar as nossas
consciências, pois o fedor que sentimos não vem só de Brasília, vem de dentro de nós mesmos, de
nossas cabeças corruptas. Somos um povo de maioria corrupta, que vota em corruptos. É duro dizer
isso a nós mesmos, mas, enquanto não tivermos a coragem de fazer isso, a corrupção não terá fim.
Meu velho pai, pós-doutorado em vida, sempre nos ensinou que “quem se mistura com porcos,
farelos come”. Se no atual momento o Brasil exala este fedor de pocilga é porque a maioria dos
brasileiros está “comendo farelo”, votando em “porcos” que adoram enlamear-se na corrupção.
Se quisermos ser éticos, e contribuirmos para que exista ética no Brasil, devemos estar
preparados para transgredir certo tipo de moral, fazendo prevalecer a ética. Melhor dizendo,
precisamos ter a coragem de lutar e de nos comportarmos de forma tal que as nossas normas morais
coincidam com a ética.
Ainda resta o apelo ao Judiciário. Mas será que este poder também não vai trocar a ética pela
moral, como fizeram recentemente com a chamada Lei da Ficha Limpa? Não foram estes nobres
magistrados que permitiram que políticos comprovadamente corruptos, eleitos no último pleito,
voltassem ao Congresso só porque não cometeram seus delitos na atual legislatura?
Vale a pena chamar em causa o meu conterrâneo Ruy Barbosa que quase cem anos atrás, em
1914, assim falava aos seus pares: "A falta de justiça, Senhores Senadores, é o grande mal da nossa
terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito,
é a miséria suprema desta pobre nação. A sua grande vergonha diante do estrangeiro, é aquilo
que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais. A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a
honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que
vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na
fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove
a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas. De tanto ver triunfar as
nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver
agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se
da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Ou, talvez, quem sabe, convidemos Aristóteles para que depois de vinte e quatro séculos
volte e grite em nossas praças: “O mal prevalece quando os bons se calam”. Lembrando que para o
filósofo grego bom é aquele que ama a ética, no sentido antes explicado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

PETRIFICADO - POESIA


Trata-se de uma poesia já antiga, que resolvi transcrever... Ando corajoso! Estas coisas não costumo mostrar não....
Petrificado

Na noite escura
Ardor
A dor
Perpassa, passa,
O silêncio não se cala
Envolve
Agita
Acalanta
A mente agitada
Estupefata
Não quer calar-se
Riscos, rabiscos
Caricaturas apenas
Tecidas
Costuradas no vento
Me trazem você
De leve,
Aos poucos,
No sussuro do silêncio
Vai costurando sua teia
Me prendendo
Em imagens, desejos, anseios,
Vislumbres do coração
Costurando necessidades
Ardores
Beijos
Que não toco e vejo
Mas sinto
Apenas no vento,
No ar,
Um toque sutil
A brisa inefável
Que envolve,
Desnorteia,
Paralisa.
E assim fico
Permaneço
Sem norte
Enquanto aguardo
Teus beijos,
Petrificado.